Adaptação à dieta de alto concentrado para bovinos confinados

Por Robson Sfaciotti Barducci e Felipe Azevedo Ribeiro (FMVZ/UNESP/Botucatu-SP)*.

 

Nos últimos anos o sistema de bovinocultura de corte no Brasil tem passado por grandes mudanças, estas têm por objetivo o aumento da produtividade e uma das estratégias utilizadas para isso foi o emprego do confinamento. A técnica de confinamento tem crescido constantemente nos últimos 10 anos e continuará a aumentar no Brasil, mesmo que em alguns momentos, fatores adversos provoquem a redução da quantidade de animais terminados em confinamento. A defesa deste raciocínio é simples, o mundo precisa de proteína animal nos próximos anos devido ao significativo aumento da população, e o avanço tecnológico da pecuária depende do incremento da terminação no cocho.

Nesse contexto, o uso de grãos e coprodutos aumentou consideravelmente, onde, em 2004 a inclusão média de concentrando na terminação com base na matéria seca total da dieta era de 61% (Assocon, 2006), em 2009 passou para 71,2% (Millen et. al., 2009) e, recentemente, atingiu a média de 79% (Oliveira e Millen, 2011).

Por outro lado, o uso de dietas com maior teor de concentrado requer que, tanto a formulação das dietas como o manejo alimentar sejam observados com grande atenção, pois, a inclusão desses ingredientes pode causar diversos distúrbios como acidose, timpanismo, abscessos hepáticos, laminite e estes, podem gerar perdas econômicas e de desempenho (Cervieri et al., 2009).

Além disso, é importante lembrar que o transporte até chegar ao confinamento é um momento de estresse para os animais, principalmente se o trajeto for longo, o que pode afetar o sistema imune dos animais e estes se tornam suscetíveis a agentes infecciosos. Nesse período os animais ficam em jejum e desidratam o que afeta o consumo logo na chegada do confinamento. Logo, o menor consumo e, consequentemente, menor ingestão de nutrientes, tende a aumentar o efeito negativo do estresse sobre a função imunológica. Nesse momento os animais precisam recuperar água perdida, estabelecer ou melhorar a imunidade contra patógenos, a estrutura social da baia e, principalmente, restaurar ou estabelecer a capacidade de fermentação ruminal.

Por esses motivos fica evidente a importância da adoção de um protocolo de adaptação à dieta de alto teor de concentrado em confinamentos comerciais, pois, é necessária a adaptação dos microrganismos ruminais para utilização efetiva de carboidratos prontamente fermentescíveis, principalmente porque adaptação à dieta é o período de maior risco de acidose.

Por isso, a adaptação às dietas e manejo de cocho tais como a alimentação programada e frequência de distribuição de alimentação por dia têm por objetivos prevenir distúrbios nutricionais, variações no consumo (Galyean, 2001; Cervieri et al., 2009), para garantir bom desempenho, menores riscos de distúrbios metabólicos e condições ruminais mais estáveis. Ainda mais que hoje vivermos na era da “Zootecnia de precisão”, no qual existe a continua cobrança e necessidade de melhorais nos sistemas de produção onde é preciso cada vez mais efetuar ajustes para explorar ao máximo a eficiência dos animais.

Apesar disso, até o ano de 2010, não havia nenhum estudo brasileiro envolvendo protocolos de adaptação à dieta de alto concentrado no confinamento para animais da raça Nelore, que representa 75% dos animais confinados no Brasil (Oliveira e Millen, 2011). Assim, nutricionistas brasileiros utilizavam protocolos de adaptação de forma empírica ou com base em informações geradas por outros países, por existirem poucos estudos a esse respeito com bovinos Bos indicus.

Pois bem, para entender de forma prática o significado da palavra adaptação, usaremos a definição de Counette e Prins (1981), que propuseram que o ruminante pode ser considerado adaptado para consumir ingredientes denominados “concentrados” quando fosse alimentado com este tipo de dieta, sem efeitos adversos e a um nível de ingestão que provocaria o aparecimento de acidose ruminal em bovinos não adaptados.

Segundo Brown et al. (2006), adaptação é considerado um período crítico, em que práticas de manejos nutricionais podem promover ou prejudicar o desempenho e saúde animal, mesmo este representando menos de 20% aproximadamente do tempo total de cocho para a maioria dos bovinos confinados (Brown e Millen, 2009).

O ponto crítico no que se refere à adaptação está relacionado ao tempo gasto para que ocorra a mudança e a estabilização da população microbiana, bem como para que se estabilize a absorção e fluxo de metabólitos ruminais; uma vez que quanto menor o tempo demandado, mais rápido o animal estará apto ao aproveitamento eficiente de uma dieta capaz de proporcionar alto desempenho. Todavia, quanto tempo seria necessário?

Em revisão de Brown et al. (2006), na maioria dos estudos os bovinos começam a adaptação com dietas contendo de 55 para 70% de concentrado ou restringindo a dieta final. Estudos mostram que a adaptação a dieta de alto concentrado com pequenos aumentos de concentrado, aproximadamente de 55 para 90% de concentrado, em 14 dias ou menos, no ad libitium, geralmente reduzem o desempenho durante a adaptação e sobre todo o período de confinamento. Adaptando com restrição da dieta final se mostra promissor para melhorar a eficiência alimentar, mas promover o desenvolvimento é preciso para aplicação nos confinamentos comerciais.

Brown et al. (2006) também mostram que o desempenho foi prejudicado em experimentos onde os animais tinham acesso livre às dietas de adaptação. Logo, sugerem que um manejo adequado do cocho seja implantado no processo de adaptação. Dados de Pritchard e Bruns (2003) também sugerem que práticas de manejo de cocho adequadas podem reduzir tais problemas de ingestão e descrevem que manejo adequado do cocho permite consistência na quantidade de alimento oferecida, sem “superalimentação” dos animais.

Por isso, no manejo de ingestão durante a adaptação, temos sempre que tentar buscar um equilíbrio (balanço) entre o crescimento do apetite e a redução do consumo à medida que o conteúdo energético da ração aumenta. A transação de uma dieta para outra deve ser feito da forma menos traumática para o animal, oferecendo o primeiro dia de cada nova dieta com a mesma quantidade de energia (Mcal) como foi oferecida no ultimo dia da dieta anterior. Como o rúmen precisa de uns dias em cada dieta para ficar em condições desejáveis (microrganismos e todos os outros quesitos), é importante não chocar com uma ingestão maior numa nova dieta, assim, no momento da transição de uma dieta para outra a ingestão tem que ser um pouco menor do que em relação a dieta anterior, com isso mantém os níveis de energia e contribui para que não cause efeito traumático, ainda mais considerando a diversidade na habilidade que nem todos os animais toleram a ingestão de concentrados (Brown et. al., 2006).

É desejável uma rápida adaptação de bovinos confinados para dieta de alto concentrado, por causa da melhora no ganho de peso diário e eficiência do ganho, quando dietas de alto concentrado são consumidas. Contudo, alguns traços de acidose prevalecem mesmo com gradual adaptação (Burrin e Britton, 1986), e taxas mais rápidas de adaptação para dieta de alto concentrado devem resultar em aumento de acidose.

No cenário brasileiro, um levantamento realizado recentemente por Oliveira e Millen (2011), observaram que o protocolo de adaptação à dietas com alto teor de concentrado mais utilizado nos confinamentos brasileiros foi o de escadas com 60,6%, o qual aumenta gradativamente o nível de concentrado em detrimento do volumoso até atingir o nível de concentrado desejado na dieta final. Outros protocolos utilizados são: uma ração apenas com menos energia que a dieta de terminação (15,1%), restrição alimentar da dieta final pela energia (12,1%), mistura de duas rações (3%), mistura de rações + programa de escadas com múltiplas rações (3%), nenhum + programa de escadas com múltiplas rações (3%) e nenhum (3%).

Segundo Parra et. al., (2011), protocolos de adaptação com duração de 21 e 14 dias não afetou de forma negativa o desempenho e saúde ruminal. Entretanto, em relação as características de carcaça, os protocolos com duração de 14 dias foi melhor do que os protocolos com duração de 21 dias, tendo sido encontrado maior peso de carcaça quente e rendimento de carcaça para os animais adaptados em 14 dias em relação aos animais adaptados em 21 dias.

Como continuação da linha de pesquisa, Barducci et. al., (2012) estudando protocolos de adaptação com duração de 14 e 9 dias não observaram diferença no desempenho e características de carcaça. Ainda, observaram que os animais do protocolo de restrição foram mais eficientes do que aqueles em protocolo escadas.

A diferença nos resultados nos estudos brasileiros em relação a revisão de Brown et. al., (2006) em termos de duração de adaptação, seria o fato de existir diferenças entre o Brasil e EUA, já que as dietas americanas são a base de grãos e as brasileiras de coprodutos. Dessa forma, possuem menos energia, no qual as dietas brasileiras possuem em média 1,22 kg/Mcal (Millen et al, 2009) e as americanas 1,50 kg/Mcal (Vasconcelos e Galyean, 2007). Outro fator a ser considerado é que o Brasil trabalha com animais mais velhos no confinamento, por isso temos um período mais curto de alimentação (Oliveira e Millen, 2011).

Protocolos de adaptação só funcionam se bem aplicados e imprescindivelmente com manejo alimentar. Existem poucos dados científicos brasileiros sobre adaptação, porém, pode-se concluir que bovinos Nelore podem ser adaptados em 9 dias independentemente do protocolo escolhido. Contudo, no estudo brasileiro mais recente, animais do protocolo de restrição foram mais eficientes do que aqueles em protocolo escadas. Algumas implicações devem ser consideradas quanto a sua aplicação em confinamentos comerciais, deve-se aplicar os protocolos de restrição apenas em confinamentos em que ocorra total controle de sua gestão, caso contrário pode reverter para o insucesso da atividade.

*Robson Sfaciotti Barducci é doutorando e Felipe Azevedo Ribeiro é mestrando do Programa de Pós Graduação em Zootecnia da FMVZ/UNESP/Botucatu-SP.

Referências bibliográficas

ASSOCON, 2006 . Pesquisa com sócios. <http://people.ufpr.br/~freitasjaf/artigos/confinamentobrasfeicorte.pdf>. Acesso em 26/07/2012.

BARDUCCI, R. S.; ARRIGONI, M. B.; MARTINS, C. L. et al. Effects of restricted versus conventional dietary adaptation over periods of 9 and 14 days on feedlot performance and carcass traits of Nellore cattle. J. Anim. Sci. Vol. 90, Suppl. 3/J. Dairy Sci. Vol. 95, Suppl. 2, 2012.

BROWN, M. S.; MILLEN, D. D. Protocolos para adaptar bovinos confinados a dietas de alto concentrado. In: SIMPÓSIO INTERNACIONAL DE NUTRIÇÃO DE RUMINANTES, 2., 2009, Botucatu. Recentes avanços na nutrição de bovinos confinados: anais… Botucatu: UNESP, Faculdade de Ciências Agronômicas, 2009. p. 2-22.

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BURRIN, D. G., and BRITTON, R. A. Response to monensin in cattle during subacute acidosis. J. Anim. Sci. 63:888–893, 1986.

CERVIERI, R. C.; CARVALHO, J. C. F.; MARTINS, C. L. Evolução do Manejo Nutricional nos Confinamentos Brasileiros: Importância da Utilização de Subprodutos da Agroindústria em Dietas de Maior Inclusão de Concentrado. In: SIMPÓSIO INTERNACIONAL DE NUTRIÇÃO DE RUMINANTES, 2., 2009, Botucatu. Recentes avanços na nutrição de bovinos confinados: anais… Botucatu: UNESP, Faculdade de Ciências Agronômicas, 2009. p.2-22.

COUNETTE, G. H. M.; PRINS, R. A. Regulation of lactate metabolism in the rumen. Vet. Res. Comm. v.5, p.101-115, 1981.

GALYEAN, M. L.; GLEGHORN J. F. 2001. Summary of the Texas Tech University Consulting Nutritionist Survey. Dept. of Anim. And Food Sci. Burnett Center Internet Progress Report No. 12. <http://www.asft.ttu.edu/burnett_center/progress_reports/bc12.pdf>. Acesso em 27/07/2012.

MILLEN, D. D.; PACHECO, R D. L.; ARRIGONI, M. D. B. et al. A snapshot of management practices and nutritional recommendations used by feedlot nutritionists in Brazil. J. Anim. Sci. v.87, p.3427-3439, 2009.

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4 thoughts on “Adaptação à dieta de alto concentrado para bovinos confinados”

  • Andre Mendes Jorge - 03/08/2012

    Robson e Felipe, Excelente artigo!

  • Wedson Maria Costa Júnior - 03/08/2012

    Parabens pelo artigo, muito interessante!

    Gostaria de saber mais sobre esta adaptação por restrição..
    como ela funciona detalhadamente…
    tem com me explicar ou me passar algum artigo que detalhe isto?

    obrigado

  • Robson Sfaciotti Barducci - 06/08/2012

    Olá Wedson, como vai?
    Tente ler a revisão de BROWN, M. S. et al. Adaptation of beef cattle to highconcentrate diets: Performance and ruminal metabolism. J. Anim. Sci. v.84(E. Suppl.), p.25-33, 2006, no qual pode ser encontrada nesse site: http://jas.fass.org/content/84/13_suppl/E25.full.pdf+html?sid=e3346840-c8e1-45de-98ed-c8c22ca41f63
    Caso ainda tenha dúvida, me envie um e-mail no robsonbarducci@yahoo.com.br para que possamos conversar, ok?
    Obrigado e abraços,
    Robson

  • wedson maria costa junior - 10/08/2012

    muito obrigado robson!
    vou ler o artigo, qualquer coisa entro em contato novamente.

    abraço
    wedson

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