Abate halal de gado bovino avança no país

O degolador aguarda o momento para fazer o abate. Em uma caixa em formato de cilindro, o gado é imobilizado e, em poucos segundos, virado de cabeça para baixo. O protocolo mais moderno para a produção de carne bovina seguindo os preceitos islâmicos – o abate halal – está quase concluído. Resta a sangria, feita quando o degolador rompe a jugular do animal.

Aos poucos, essa rotina está se tornando cada vez mais corriqueira no Brasil, país que lidera as exportações mundiais de carne bovina. De olho no mercado internacional, os principais frigoríficos do país estão investindo nas caixas cilíndricas, chamadas de box rotativo, para adaptar as linhas de abate ao sistema aceito pelo mercado muçulmano. A tendência é que a maior parte da carne produzida nas grandes indústrias siga o método halal.

Embora sem saber, os consumidores brasileiros e europeus já estão comprando a carne de bovinos que foram abatidos de acordo com os preceitos islâmicos. Isso porque nem todos os cortes de carne dos animais abatidos para a produção voltada aos muçulmanos são vendidos nesses mercados. No Egito, por exemplo, há grande demanda pelo dianteiro bovino. Os cortes do traseiro, como a picanha, são vendidos a outros mercados, principalmente o brasileiro.

Na JBS, maior empresa de proteínas animais do mundo, a participação do abate halal já é significativa. Atualmente, cerca de 65% das exportações de carne bovina feitas pela JBS a partir do Brasil são do produto halal, afirmou ao Valor o presidente da Friboi, Renato Costa, durante a Gulfood, a principal feira de alimentos do Oriente Médio, que ocorreu até quinta- feira em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. O executivo não tem dúvidas de que essas vendas só vão crescer.

Principal responsável pelo forte avanço das exportações brasileiras de carne bovina em 2018, a China é, contraintuitivamente, o país que impulsiona a produção de carne bovina halal da JBS. De acordo com Costa, cerca de 80% das exportações feitas pela companhia para a China são do produto que é feito segundo os preceitos islâmicos. A JBS lidera as vendas do Brasil aos chineses. A empresa tem seis frigoríficos habilitados para vender ao país. Como um todo, a China foi responsável por 14,3% das exportações de carne do Brasil em 2018.

Mas o mercado chinês não é o único que deverá puxar o abate halal de bovinos nos próximos anos. O presidente da Friboi está otimista com a possível abertura da Indonésia à carne bovina brasileira, depois de anos de negociações entre os governos do dois países e das queixas do Brasil na Organização Mundial de Comércio (OMC). Com mais de 260 milhões de habitantes, o país do Sudeste Asiático tem maioria muçulmana – mais de 80% da população. Para Costa, o mercado indonésio será outra alavanca da produção de carne halal.

No mundo halal, não se pode esquecer, é claro, dos países do Oriente Médio e do Norte da África, que absorvem cerca de 25% das exportações brasileiras. Em 2018, os países dessas regiões gastaram US$ 1,4 bilhão para importar 425,7 mil toneladas, conforme dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) compilados pela Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec). Egito, Irã e Arábia Saudita lideraram as compras.

Conforme o presidente da Fambras Halal, Mohamed Hussein El Zoghbi, cerca de 100 frigoríficos brasileiros estão certificados para fazer o abate halal. A Fambras, que surgiu da Federação das Associações Muçulmanas do Brasil, é a maior certificadora no segmento.

Em entrevista ao Valor em Dubai, o executivo da Fambras afirmou que a implementação das caixas rotativas, tecnologia obrigatória para o abate kosher (judeu), deverá ajudar a sustentar a produção de carne halal graças aos ganhos de produtividade que oferecem. “Não atrasa o abate. Você mantém a produção de carne dentro do que é esperado”.

Segundo o dono de um frigorífico brasileiro que não quis ser identificado, cada caixa rotativa custa R$ 550 mil. Com uma linha dupla desses equipamentos, é possivel manter os abates entre 100 e 120 cabeças de gado por hora. Essa é uma vantagem sobre o sistema anterior, em que o gado se debatia, o que é um problema do ponto de vista do bem estar animal e também da eficiência econômica da indústria. No sistema anterior, 80 cabeças por hora eram abatidas.

Em relação ao abate tradicional de gado no Brasil, a maior diferença para o modelo halal é que os islâmicos geralmente não permitem a insensibilização dos animais. Nos frigoríficos que não fazem o abate halal, o bovino é insensibilizado com um tiro de pistola pneumática. É só depois disso que os animais, sem consciência, passam pelo processo de sangria nos frigoríficos.

Fonte: Valor Econômico.


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