A realidade nas premiações de carcaças

O Brasil conheceu uma impressionante expansão em suas exportações de carne bovina, superando em 2004 um gigante de exportações, a Austrália. Esse fato provém da mudança do cenário mundial tradicional no comércio de carne, estabelecido nos anos 90, o qual tinha como eixo principal países como a Austrália, Nova Zelândia, Estados Unidos e a União Européia.

No entanto, crises sanitárias relacionadas principalmente a EEB (doença da vaca louca) que atingiram a esses países, somadas à ampliação da capacidade técnica dos pecuaristas e frigoríficos brasileiros resultaram em uma transformação do cenário mundial de carne, e o Brasil conseguiu aproveitar isso com sucesso. Porém, recentemente, focos de febre aftosa na América do Sul, em especial aqueles debelados em território brasileiro, provocaram ressalvas nos países importadores quanto a sanidade de nossos produtos, e promoveram um recuo temporário nos números das exportações, colocando em cheque nosso enorme potencial.

Análises econômicas demonstram que, desde 2004, na pecuária bovina de corte os custos operacionais efetivos (COE) aumentaram, em média, 7,87% ao ano, enquanto a variação anual da arroba de boi gordo, no mercado interno, foi de apenas 1,49%, isto é, o preço da arroba não acompanhou a inflação e ainda, ocorreu perda significativa da margem de lucro do produtor. Em oposição a esse fato, observou-se que o rendimento dos frigoríficos nacionais aumentou em 28% no período entre 2005 e 2006. Além disso, o preço pago pela venda da carne no mercado externo, oscila em torno de 25 a 30% acima do valor no mercado nacional.

Tabela 1. Variação de Custos Operacionais Totais (COT), Custos Operacionais Efetivos (COE) e Valor da Arroba (@).


Em função dessa crise que atingiu o mercado da pecuária brasileira a busca por alianças nesse sistema surgiu como uma alternativa viável. Neste contexto, programas como o “Novilho Precoce”, criado com o objetivo de promover o desenvolvimento da pecuária de corte do estado do MS, foram ponto de partida para uma série de parcerias entre frigoríficos e produtores, com a intenção de melhorar a produção, industrialização e comercialização de animais jovens.

Visando a adesão do pecuarista aos programas de melhoramento de carcaça, foi elaborado um sistema de premiação (financeira) baseado em parâmetros produtivos e de acordo com as boas práticas de produção.

Dados da Seprotur (Secretaria do Estado de Desenvolvimento Agrário, de Produção, da Indústria, do Comércio e do Turismo do Mato Grosso do Sul) revelam que, no estado, de janeiro de 1998 até outubro de 2004, o incentivo financeiro a cada um dos 2.413 produtores cadastrados no programa Novilho Precoce foi de, aproximadamente, R$ 215,00 ao ano, e a eficiência de implantação de 86,42%.

Um exemplo dessas parcerias, descrito a seguir, é o estabelecido por um frigorífico de Mato Grosso do Sul que detêm um programa de classificação de carcaças, baseado no “Novilho Precoce”, e que visa comercializar a matéria-prima (bovinos) conforme a qualidade do produto e premia o produtor profissional que vê a fazenda como uma empresa. Neste programa são avaliadas características de carcaças e fatores que influenciam a qualidade da carne e seu custo final. Alguns critérios adotados pelo programa são: frete, horário de chegada, homogeneidade dos lotes de animais, nível de contusões, idade, musculosidade e acabamento de gordura.

Estudo de Caso

Tem-se o exemplo de um produtor cuja propriedade situa-se a 80 km desse frigorífico, e optou por submeter-se à avaliação do programa de qualidade de carne bovina exigido por essa empresa, que premia o produtor que se enquadrar, com acréscimos de até 2,65% no preço pago pela arroba.

Este proprietário enviou ao frigorífico dois lotes de animais com características diferentes. O primeiro, com bois anelorados e rastreados, e um segundo com bois mestiços e rastreados. Aos atributos exigidos pelo programa foram atribuídos os seguintes índices:

Tabela 2. Exemplo de premiações oferecidas pelo Programa


Através desses dados nota-se que a valorização do trabalho do produtor é obtida à proporção que medidas como rastreabilidade, acabamento de gordura, contusões, estresse, entre outras, são observadas e melhoradas dentro de suas respectivas necessidades.

No entanto, houve itens que não atingiram o mínimo necessário para bonificação, como homogeneidade e contusões, culminando em uma média entre os dois lotes, de 50,10% da bonificação total.

Dada sua severidade, existe uma dificuldade grande em combinar determinados itens, a idade e peso de abate é um exemplo claro disso. O programa congratula produtores que entregam ao frigorífico animais dentro do peso exigido e dentro da idade de 18 meses, e isso consiste em uma grande dificuldade ao produtor, uma vez que para atingir as metas estabelecidas há necessidade de imprimir taxas de ganho de peso não compatíveis com os sistemas de exploração baseado no uso de pastagens. Portanto, para chegar a esse resultado, o produtor acaba sendo obrigado a adotar sistemas com fases de confinamento ou semi-confinamento, onerando o custo de produção da arroba e, que nem sempre é compensado pelo adicional de remuneração.

Considerações finais

Este estudo demonstra que a bonificação chegou em boa hora, devido ao momento desfavorável que a pecuária nacional atravessa. Entretanto, notam-se, claramente, dois pontos importantes:

• as metas estabelecidas pelos programas que visam maior qualidade da carne, são rígidas, exigindo sistemas de produção melhor desenhados.
• a bonificação oferecida é pequena, principalmente se considerarmos a melhor remuneração do frigorífico pela carne para exportação (2,65% x 27,50%).

Nesse cenário, o percentual de bonificação é ainda modesto frente às dificuldades e custos que o produtor assume, para se adequar às especificações dos programas que visam atender não só as exigências do mercado nacional como também as do mercado internacional.

O diálogo aberto entre os elos dessa cadeia produtiva (técnicos, produtores e frigoríficos) é imprescindível para assegurar a tão almejada qualidade e boa remuneração pela carne brasileira, dando assim condições para que permaneça na posição de destaque mundial que sempre mereceu.

This post was published on 4 de setembro de 2007

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  • Tenho mais informações a transmitir sobre um artigo que acabo de ler e comentar sobre os frigoríficos.

    "Vender boi vivo é jogar riquezas fora"

    "A polêmica entre os frigoríficos e os pecuaristas sobre a exportação de boi vivo no Pará ainda está de pé. O representante da União das indústrias Exportadoras do Pará (Uniec), Francisco Victer, alerta que vender a produção paraense para fora em detrimento do consumo dos frigoríficos instalados em terras paraenses é prejuízo na certa para a cadeia produtiva do estado do Pará", informa ainda que faltam animais para os 29 frigoríficos instalados no Pará. E fornece mais dados alarmantes da carência da matéria prima para os frigoríficos, e isso tudo por causa das exportações dos animais vivos para o Líbano.

    No ano passado, segundo ele, 109 mil animais, já em 2007, entre maio e julho, a exportação já chega a 190 mil cabeças, e agora já não é só para o Líbano, também para o Irã, Rússia e Venezuela.

    Vamos tentar analisar a tal polêmica entre os frigoríficos do Pará e os pecuaristas daquele estado. Para ele, (Victer) é entregar matéria-prima preciosa, como o couro, para outros mercados, e deixar de internalizar riquezas na ordem de cerca de R$ 1 bilhão por ano, sem contar os empregos e a renda que deixam de ser gerados na economia paraense.

    Em defesa dos frigoríficos, o sr. Victer expõe diversos números do rebanho paraense e as necessidades dos frigoríficos pela matéria prima. Ora vamos ser frios. Por que os pecuaristas estão vendendo gado vivo para exportar e não engordar para as plantas frigoríficas? Será que isso não está ligado aos preços que os frigoríficos pagam lá pelo boi gordo?

    Vejamos uma coisa: O porto de Belém está na metade do caminho para a Europa ou mesmo para Oriente Médio, do que estão os portos do sul e do sudeste, como Santos e Paranagua. Qual é o preço pago aos pecuarista do Pará? R$ 53,00? R$ 56,00? Esse preço equivale R$ 10,00 a menos do que se paga aqui no sudeste e sul, para não falar no Rio Grande do sul. Será que o frete da carne para os nossos grandes centros consumidores é tanto?

    Já se falou tanto que os frigoríficos estão matando a galinha de ovos de ouro, e estão mesmo. Não vão dizer daqui uns anos, quando tivermos saída para o pacífico e começarmos a vender gado vivo para o Chile ou mesmo para Colômbia, que estamos mandando nossas riquezas para fora.

    Ora, por que não repartem um pouco seus lucros (só vemos os frigoríficos aumentarem de tamanho e comprando cada vez mais plantas frigoríficas aqui e no exterior, não tenho nada contra, mas não as custas da lucratividade dos pecuaristas), e nós pecuaristas comendo o pão que o diabo amassou.

    Exposto isso, talvez as coisas possam mudar, e a polêmica entre os frigoríficos e os pecuaristas também termine, até quem sabe as exportações de animais vivos acabem.

    "Não matem a galinha dos ovos de ouro"

  • O artigo é muito oportuno, pois aborda mais um triste capítulo da história da cadeia da carne no Brasil. A realidade atual é a herança de muitas décadas de uma pecuária tradicionalista de baixo custo, produtora de boas carcaças, e carne com qualidade ajustada a mercados de baixo poder aquisitivo. Aliada a um parque frigorífico cuja história se notabilizou por sonegação de impostos e "tombos" em diversas praças e em diversas ocasiões.

    Do lado dos pecuaristas ocorreram mudanças de atitude, com a incorporação acentuada de novas tecnologias de produção e do lado das indústrias, são inegáveis outras mudanças de atitude, positivas, mais ligadas aos procedimentos de gestão. Muito tem contribuído para tais mudanças a crescente participação do mercado externo, passando a compor, com o mercado doméstico, um todo ao qual se destina a produção da cadeia.

    No passado a dinâmica das relações entre pecuaristas e frigoríficos foi marcada por violentas "quedas de braço" dado o natural conflito de interesses, e no presente muito pouco se logrou obter para superar tal conflito.

    A presença de mercados demandadores de carne com preços diferenciados vem estimulando, por via indireta, o empenho de vastos setores da produção pecuária no sentido de se preparar para atendê-los, o que vem se traduzindo em resultado prático com o aumento da oferta de animais produtores dessa carne, que será paga pelo consumidor com melhores preços.

    Igualmente, a indústria frigorífica também tem se preparado para atender essa nova realidade, investindo na modernização de suas plantas, nos procedimentos logísticos e na melhoria de gestão. Entretanto, e é o que é lamentável, pouco se logrou obter em termos de integração.

    Existem alguns poucos exemplos de integração da cadeia sendo ensaiados através de programas de carnes de qualidade com marca bem identificada, os quais poderão vir a ter sucesso; este virá na proporção de uma repartição razoavelmente justa do valor agregado pela qualidade entre todos os elos da cadeia. No entanto outras iniciativas como a exemplificada no artigo nada têm a ver com isso e estarão fadadas ao insucesso.

    Neste caso cuidou-se de estabelecer procedimentos que pouco tem a ver com a qualidade da carne e muito mais com aumento das vantagens da indústria na compra dos bois gordos.

  • Acredito eu que esse negócio de terminar bois na entressafra, ou seja, confinar para se ter uma carcaça padrão é obrigatoriedade dos frigoríficos, produtor rural que não recebe o custo operacional de sua arroba e que não está na ponta da cadeia produtiva nunca vai agregar valores ao seu produto.

    Sem lucratividade nenhuma a cada 10 anos sempre vão mudar os produtores, pois 50% deles quebram de não poder repor nem seu rebanho. O negócio é produzir boi só nas águas, baixo custo, maior rentabilidade, boi entressafra é igual a auto custo, baixa rentabilidade.

    Vamos nos tornar fornecedores de bois de 14@ para os frigoríficos terminarem e recebe-las ao preço de entressafra. O frigorifico nunca vai dar nada a ninguém, temos de deixar a batata quente nas mãos deles.

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