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A Indústria e a Produção, ou a formiga e a cigarra!

Por André Bartocci

Durante a história da cadeia de Carne do Brasil, os Pecuaristas sempre se mantiveram longe do sangue. 

Nós montamos, separamos, embalamos de acordo com o pedido do nosso intermediário, o Frigorífico, e na última porteira do curral entregamos para… não imaginamos quem! Definitivamente não sabemos nem quem nem de que forma consomem a nossa carne! 

Desenvolvemos tecnologias para evoluir genética e fertilidade de animais e plantas, operamos softwares de ponta para monitorar a produção, a qualidade de nutrientes e os programas sanitários. Discutimos indicadores de preço, brigamos por rendimentos e trocamos de parceiro industrial por causa de classificações. Mas continuamos totalmente alheios ao destino do nosso produto. 

Neste tempo, apesar de criarmos o mais sustentável sistema de produção de proteína animal em larga escala do Planeta, delegamos totalmente, ao próximo elo, a responsabilidade do destino da carne. Nosso foco sempre foi simplesmente preço da @ e o rendimento. Uma prova desta prática é que 99% dos Pecuaristas participam da cadeia da carne somente até a sala do comprador do frigorífico. Poucos tiveram a curiosidade de falar com o cara que vende para o açougue, para o supermercado ou para a China! Também não é raro encontrar produtores que não conhecem sobre o sabor ou a textura do seu produto, sobre o pretexto de: “Não nos pagam por isso”. 

Por sua vez o frigorífico aceitou de bom agrado a nossa ampla procuração que lhe dava o direito de assumir qualquer risco e aproveitar toda oportunidade com o Boi-Brasil enquanto os boiadeiros entregavam seus animais de olhos vendados, desde que o comprador garantisse R$1,00 e 1% a mais do que o mercado. 

A Indústria se organizou em legítimas entidades com objetivo de pensar sobre comércio e mercados. Ela se encarregou de fazer a propaganda e o marketing do produto da maneira que lhe conviesse e para quem achasse adequado. Este sistema se intensificou quando as três gigantes se tornaram multinacionais, e apesar de termos competência para fazer uma carne de grande qualidade a Indústria pôde escolher, por nós, os mercados mais adequados com os seus objetivos no pacote mundo!

Assim foi moldado o alicerce mercantil da Pecuária Nacional. 

Os Produtores e, também, a Indústria sabem tudo sobre a produção e sobre o produto, mas só ela conhece o consumidor final, como ele compra, como ele paga, o que ele gosta, o que ele espera. 

Hoje e sempre, o pouco que sabemos sobre uma crise ou uma oportunidade comercial, é uma versão e um ponto de vista da Indústria. 

Nós da produção não conhecemos o complexo sistema de comércio da carne e, recorrentemente quando nos deparamos com uma crise, voltamos com pedidos ao Governo (em alguns casos até para o governo chinês!) quando a deficiência é puramente mercantil. 

Precisamos reconhecer as conquistas e a evolução que este sistema proporcionou para a cadeia, especialmente nas duas últimas décadas. Também é notório que nos tornamos reféns das decisões comerciais da Indústria. Que apesar de termos evoluído muito na qualidade do produto, nossa carne ainda é uma comodity, principalmente porque esta forma facilita o comércio em grande escala com pouco marketing. Mas nossa crítica aos caminhos percorridos, deve ser limitada, pois lá traz abdicamos do direito de dirigir o destino da Cadeia da Carne. 

Quando o inverno chega, a cigarra chora! 

Quando existe uma crise comercial os produtores ficam indignados com o Frigorifico, com o MAPA, com a China…! 

Temos dois caminhos: 

Um, o longo, demorado, que requer esforço de todos, que requer pensamento de cadeia, maior envolvimento comercial (muito além da @ e da margem!), participação ativa em entidades, comprometimento com a qualidade do produto, marketing e fomento do nosso produto…enfim, o longo, difícil, mas gratificante caminho de contar a nossa verdadeira história, de criar um estilo, uma identidade para a Sustentável Pecuária tropical do Brasil. 

E outro, o curto, esperar a crise passar!

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