Fique atento a qualidade de mistura das dietas de confinamento

Muito evoluímos em termos de formulação e ajuste de dietas para confinamento nos últimos 5 anos. Passamos a utilizar rações com maior inclusão de concentrado (principalmente subprodutos), a avaliar o custo da arroba engordada e não somente o menor custo da diária, a avaliar a necessidade de proteína ruminal para crescimento microbiano, ajustar a dieta para nível mínimo de fibra fisicamente efetiva, etc. Mas e a qualidade das dietas em termos de mistura de volumosos e concentrados, a chamada dieta total, ou como prefere a maioria dos nutricionistas, TMR (total mixed ratio), temos dado a devida atenção?

Na verdade, toda ração de confinamento pode ter quatro composições diferentes: a ração formulada no computador, a ração misturada para ser fornecida, a ração oferecida aos animais e a ração que realmente os animais consomem. Esta última deve receber muita atenção por parte do nutricionista. Deve-se evitar ao máximo a seleção de ingredientes e partículas pelos animais (principalmente em dietas de alto concentrado). Animais com livre acesso aos alimentos geralmente separam os ingredientes por tamanho e densidade de partícula e consomem os componentes preferidos. O consumo seletivo de ingredientes ricos em amido, por exemplo, pode resultar em distúrbios digestivos.

Os sistemas de mistura de dieta (vagões misturadores) também evoluíram. No Brasil, temos basicamente três sistemas de mistura: por tombamento, sistema de rotor e por roscas horizontais. Cada um com suas peculiaridades de tempo e qualidade de mistura, capacidade operacional, etc. Mas muitos confinamentos ainda fazem o trato de forma mais artesanal, manualmente, com carretas de madeira ou com vagões que apenas distribuem a dieta (os chamados vagões em camada ou sanduíche). Estas diferentes maneiras de arraçoar os animais pode implicar em variações expressivas em termos de ganho de peso, consumo, conversão alimentar, presença de distúrbios digestivos, etc.

O objetivo da ração totalmente misturada é garantir que em cada bocado, o animal ingira algo que esteja muito próximo do que foi estabelecido na formulação. Abaixo seguem algumas considerações importantes:

• Monitore o teor de matéria seca de ingredientes com maior umidade, principalmente volumosos como silagem e cana (pequenos erros podem levar a inclusões errôneas destes ingredientes);
• Ingredientes que são incluídos em menor quantidade (minerais, uréia, aditivos) devem ser agrupados em uma pré-mistura, reduzindo os erros de pesagem, mistura e permitindo consumo mais uniforme na ração espalhada nos cochos;
• A ordem de adição de ingredientes em um vagão misturador pode influenciar tanto a eficiência de mistura quanto o grau de redução do tamanho de partícula. A adição de ingredientes úmidos (silagens, subprodutos úmidos) ou fluídos (água, melaço, óleo) irá reduzir a segregação de partículas pequenas durante a mistura e no cocho (OWENS, 2007);
• O tempo de mistura é crítico; a mistura incompleta resulta em oferecimento de dieta com apresentação inadequada no cocho (maior possibilidade de seleção de partículas), enquanto que a mistura excessiva pode causar segregação de partículas no cocho (OWENS, 2007);
• Partículas finas (fareladas) segregadas no cocho podem conter um aditivo específico, o qual não será ingerido na quantidade necessária, podendo resultar em distúrbios digestivos;
• O fornecimento mais freqüente (mais tratos) reduz a magnitude e impacto de erros na mistura, possibilitando menor variação na composição da dieta; a maior frequência de tratos pode também ser benéfica para o ambiente ruminal, apesar de ainda não ter sido especificamente testada e comprovada cientificamente (PRITCHARD e BRUNS, 2003);
• A amostragem, em diversos pontos (3 a 5 amostras), da dieta no cocho e posterior analise bromatológica auxilia no monitoramento da qualidade. Deve-se comparar a dieta formulada com o resultado obtido na análise de cada amostra;
• A amostragem da sobra pode ajudar a determinar o grau de separação de ingredientes pelo lote. Caso a composição difira muito da dieta, a seleção é evidente. Porém, dentro de um mesmo piquete, alguns animais preferem volumosos e outros concentrados. Em conseqüência, a análise das sobras não é um índice completo para avaliar seleção. A observação dos animais se alimentando e a inspeção visual dos cochos após a alimentação pode auxiliar;
• A observação das fezes pode indicar seleção no cocho. Se para um mesmo lote de animais, existem fezes com variação em consistência, coloração e composição, provavelmente os animais estão consumindo ingredientes seletivamente;
• Quanto maior a diversidade em tamanho e densidade de partículas, maior o potencial para a seleção de componentes da ração. A adição de água, peletização de microingredientes, ingredientes com tamanho de partícula uniforme e a restrição leve de consumo (manejo de cocho limpo) podem ajudar a reduzir a seleção (OWENS, 2007).
• Em dietas muito secas, como, por exemplo, alto concentrado com bagaço de cana cru, a inclusão de água pode melhorar a qualidade de mistura e reduzir a presença de partículas finas e segregadas nos cochos.

Independente do sistema de arraçoamento do confinamento procure fazer o melhor possível para garantir o mínimo de qualidade na mistura da dieta total, evitando seleção de ingredientes no cocho e as conseqüências que resultam desta seleção. Observe como os animais estão se alimentando, verifique as sobras antes do primeiro trato da manhã, avalie as fezes. Com o aumento dos preços dos insumos e dietas, cada detalhe pode fazer a diferença!

Referências bibliográficas:

OWENS, F.N. 2007. Manejo de cocho em confinamentos. Anais do Sexto Simpósio sobre Bovinocultura de Corte: Requisitos de qualidade na bovinocultura de corte. FEALQ, Piracicaba-SP.

PRITCHARD, R. H. e K. W. BRUNS. 2003. Controlling variation in feed intake through bunk management. J. Anim. Sci. 81(E. Suppl. 2):E133-E138.


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