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Arborização de pastagens: perspectivas para o Brasil-pecuário

Por Vanderley Porfírio da Silva1

Dicas para a arborização

Introdução

A bovinocultura deixou de ser uma eventual exportadora para tornar-se grande fornecedora no mercado mundial e portanto fonte de divisas ao país e competidora importante com outros tradicionais exportadores. Este fato, certamente produzirá reações de mercado que poderão chegar à criação de barreiras não tarifárias.

Apesar do crescimento obtido pela pecuária brasileira ainda constitui-se em problemas importantes a serem definitivamente solucionados, o controle da aftosa e as inúmeras áreas de pastagens degradadas (ou em algum estágio de degradação) estimadas em cerca de 50% das áreas utilizadas atualmente.

Estes fatores, mais a falta de certificação de origem sustentável têm contribuído negativamente para a sustentabilidade das cadeias produtivas da carne e do leite, ambas de importância socioeconômica para o país. Por outro lado, o Brasil tem a grande vantagem de possuir um sistema de alimentação calcado na produção a pasto.

Urge então, a necessidade de se estabelecer sistemas de produção em bases sustentáveis que coloquem a pecuária brasileira no cenário mundial como socialmente benéfica, economicamente viável e ambientalmente adequada. Nesse sentido a arborização de pastagens, ao associar o componente arbóreo às atividades de produção animal adquire uma importância sem precedentes.

Figura 1. Sistemas silvipastoris estabelecidos com produção de pastagens, de carne, de madeira, de renda e de serviços ambientais.Fotografias de Vanderley Porfírio da Silva, Pesquisador da Embrapa Florestas

Sua importância passa a ser, ainda maior, quando implementados em regiões onde os diversos estágios de degradação das pastagens associam-se a uma intensa fragmentação e insulamento de remanescentes florestais naturais servindo como corredor/trampolim biológico, auxiliando no ligamento destes remanescentes.

A grande superfície territorial do país, hoje utilizada somente com pastagens, se for convertida, em parte, em pastagens adequadamente arborizadas, poderá ser fundamental para melhorar a imagem da pecuária brasileira, ao tempo que favorecerá a produção animal e a produção de madeira.

Essa nova estratégia contribuirá para a otimização do diferencial já existente na bovinocultura nacional: rebanhos criados a pasto. Mais, permitirá incrementar rendimentos pela produção de madeira e serviços ambientais, consolidando-a no cenário mundial como ambientalmente adequada o que beneficiará sobremaneira ao grande contingente de produtores rurais que tem na bovinocultura sua atividade produtiva.

Desenvolvimento ecorregional sustentável

A arborização de pastagens executada de modo adequado (sistema silvipastoril) pode trazer aumentos consideráveis de circulação de riqueza, isto é, podem favorecer a industrialização regional através da disponibilidade de matéria-prima em maior quantidade e diversidade promovendo aumento na oferta de emprego direto e indireto via incremento de cadeias produtivas.

Tais sistemas poderão produzir madeiras de variadas espécies com custos competitivos, pois neles a colheita é mais fácil e, ainda, pode-se agregar valor pelo fato da madeira ser produzida em condições ambientalmente adequadas.

Produtos podem ganhar diferenciação

Tanto a carne, o leite, o couro, quanto a madeira, produzidos no sistema silvipastoril, atendem melhor aos princípios preconizados pelos mecanismos da certificação de origem sustentável e de suas cadeias de custódia, pois consideram aspectos ambientais, sociais e econômicos.

Nos sistemas silvipastoris, a presença de árvores pode conservar e/ou melhorar a qualidade do solo por favorecerem o controle da erosão, a ciclagem de nutrientes e a adição de matéria orgânica; utilizar a radiação solar mais eficientemente do que em pastagens em monocultivos e capturar nutrientes e umidade do solo em diferentes profundidades, diminuindo então a dependência de entradas externas de nutrientes ou estabelecendo uma relação benefício/custo mais positiva.

As áreas de pastagem terão sua produção e sustentabilidade favorecidas pela melhoria ambiental e economia de recursos, decorrentes do aumento da vida útil dos pastos fator que influencia no cálculo dos custos.

Sistemas silvipastoris podem ter sua adoção fundamentada, em diversos objetivos, variando da conservação do solo, melhoria das condições ambientais (proteção contra geadas, ventos frios, granizo, tempestades, altas temperaturas) e, portanto, melhoria da saúde dos animais e proteção das pastagens, até a disponibilidade de madeira na propriedade rural para os diferentes usos, a renda adicional em madeiras comerciais e, inclusive, o aspecto cênico (manejo da paisagem).

A tendência de mercados para produtos ambientalmente adequados abre uma oportunidade para a produção animal a pasto, como estratégia para o mercado de produto “orgânico”, em um sistema capaz de contribuir para a fixação de gás carbônico (CO2), com menor emissão de óxido nitroso (N2O), além de mitigar a emissão de gás metano (CH4) pelos ruminantes, todos importantes gases componentes do efeito-estufa; fatos que podem compor elementos de marketing ambiental para o sistema silvipastoril.

Figura 2. Plantio de árvores em pastagem considerada boa, a proteção das mudas é feita por cerca-eléatrica, quando não se tem a opção de retirar os animais da área. Fotografias de Vanderley Porfírio-da-Silva, Pesquisador da Embrapa Florestas. Figura 3. Plantio de árvores em áreas de pastagens que estão sendo reformadas por serem consideradas em degradação ou mesmo degradadas através de cultivos anuais (1,5 a 2,5 anos). Fotografias de Vanderley Porfírio-da-Silva, Pesquisador da Embrapa

Suplemento da atividade pecuária

A necessidade das cadeias produtivas da pecuária de identificar e desenvolver oportunidade de mercado, assim como de desenvolver opções em sistemas de produção integrados que suplementem a atividade na propriedade, pode ser contemplada pela adoção de sistema silvipastoril.

Bem-estar animal

De todos os efeitos da disposição adequada de árvores em pastagens e, portanto, sobre os animais que nela vivem, o mais importante para os mesmos é o seu bem-estar. Pastagens adequadamente arborizadas propiciam proteção aos animais contra intempéries climáticas influindo positivamente na saúde e desempenho produtivo animal.

Pesquisa, desenvolvimento e informação

O incentivo à pesquisa e difusão de sistemas silvipastoris é importantíssimo para que, nas próximas décadas a agropecuária brasileira ganhe destaque no cenário internacional, pois além dos produtos animais saudáveis, produzirá madeira de qualidade para os mais diferentes fins, agregando renda e qualidade às propriedades rurais e, contribuindo com a qualidade de vida no planeta.

Alguns aspectos que devem ser considerados para a obtenção dos potenciais benefícios existentes em sistemas silvipastoris passam pela “desmistificação” da atividade florestal madeireira e pela capacitação técnica e gerencial para o “novo” sistema de uso da terra.

Os aspectos a serem superados são principalmente de ordem da informação e conhecimentos rotineiros e da alteração de padrões orientadores das ações de pessoas e instituições envolvidas com o setor. Novas posturas e ações devem ser buscadas através da atualização tecnológica dos produtores rurais.

Como converter pastagens convencionais em sistemas silvipastoris?

A introdução de árvores nas pastagens promove modificações que necessitam de considerações relativas ao planejamento; de modo geral, no planejamento de um sistema silvipastoril é importante:

1- Selecionar as espécies apropriadas de árvores e de pastagem para a área. Ao escolher as espécies de árvores, elas precisam estar adaptadas, assim como a pastagem, ao clima e solo da região onde serão plantadas. Outros aspectos a serem considerados com relação às árvores escolhidas incluem:

– Mercado: o quê será comercializado? Madeira? Existe mercado?
– Alto valor dos produtos que serão colhidos
– Rápido crescimento (ou no caso de espécie com produtos de alto valor um crescimento moderado é aceitável)
– Enraizamento profundo – assim as árvores não competem com a pastagem por umidade
– Tolerância a seca ou capacidade de crescer em um local encharcado
– Sombreamento leve – deixe passar luz através de sua copa ao invés de uma sombra “pesada”;
– Capacidade de prover produtos e serviços ambientais desejados pelo proprietário rural;
– Que não tenha efeitos negativos sobre os animais, como toxicidade, ou sobre a pastagem, como alelopatia que impeça o crescimento da pastagem.

2- O arranjo espacial das árvores na área (o “espaçamento”). As árvores plantadas em curvas de nível favorecem o trânsito de máquinas, controlam a erosão do solo e são eficientes contra ventos frios durante o inverno;

3- Definir as práticas de manejo adequadas, pois elas promovem o alcance das metas do proprietário rural em todas as fases do sistema. Quando, por exemplo, irá executar as podas e/ou desbastes o que evitará sombreamento excessivo da pastagem e produzirá toras de qualidade, ou, quantos serão os piquetes na área e seus tempos de uso pelos animais?

4- Considerar os impactos econômicos, ambientais e sociais ao juntar na mesma área da propriedade, a criação de gado e a produção de madeira. A implantação do sistema é um investimento que demanda recursos financeiros e capacitação para sua administração, isto, por vezes, pode significar desembolsos e mudanças na forma de gerir a propriedade.

A observância desses aspectos contribuirá para o sucesso na implantação do sistema silvipastoril, mas, será a combinação otimizada de árvores, pastagem e animais o instrumento para garantir o êxito do empreendimento.

A conversão de áreas convencionais de pastagem para sistemas silvipastoris pode ser iniciada por sub-áreas onde a pastagem esteja menos produtiva ou sub-áreas críticas com problemas de erosão, compactação ou de outro aspecto negativo para com a produção forrageira. Mesmo pastagens consideradas boas podem ser convertidas em sistemas silvipastoris.

Toda a base tecnológica já existente para intervenções em forragicultura e silvicultura, para o manejo das pastagens, do rebanho e das árvores, deve ser considerada para o êxito em sistema silvipastoril, assim como, as práticas necessárias para a manipulação microclimática do ambiente.

Figura 4. Área onde foi realizada a reforma de pastagem com cultivos agrícolas na implantação das árvores. A seqüência de imagens mostra diferentes fases do último cultivo de sorgo forrageiro, junto com o qual foi plantada a forrageira perene (Tifton); após colheita do sorgo os animais já tinham acesso livre à área, aproveitando a resteva do sorgo e fazendo o primeiro pastoreio na Tifton. Fotografias de Vanderley Porfírio-da-Silva, Pesquisador da Embrapa Florestas.

Os parâmetros mínimos para a implantação e manejo do sistema silvipastoril a serem considerados são:

1- Condições da pastagem: o processo de conversão de uma pastagem convencional em sistema silvipastoril deverá ser iniciado pela avaliação das condições da pastagem, se for uma pastagem considerada boa, em degradação ou degradada, será permitido indicar/selecionar a forma de intervenção, tanto para a produção forrageira quanto para a conversão em sistema silvipastoril. Para qualquer intervenção escolhida, será possível introduzir o componente arbóreo. Obviamente, os procedimentos necessários irão se diferenciar (Figuras 2, 3 e 4).

2- Arranjos espaciais das árvores: têm como critérios: os objetivos da produção de madeira; a declividade e face de exposição do terreno; a proteção do rebanho e das pastagens; a conservação de solo e água.

3- Manejo de copas: objetiva otimizar o arranjo espacial adotado e tem como critérios a altura de inserção de copa, a intensidade de desrama e/ou poda, o desbaste, a radiação solar e a forma de copa da árvore.

Para acessar estudo mais detalhado em PDF, clique aqui.

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1Vanderley Porfírio-da-Silva, Engenheiro Agrônomo, Mestre em Agroecossistemas, Pesquisador em Sistema Silvipastoril da Embrapa Florestas

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