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Botulismo bovino: uma doença que pode ser evitada

O botulismo é uma doença/intoxicação causada pela ingestão e absorção intestinal de toxinas produzidas pelo Clostridium botulinum, uma bactéria, bastonete anaeróbio, formador de esporos, que acomete diferentes espécies inclusive o homem. O botulismo bovino também conhecido como “doença da vaca caída” ocorre em diversas regiões do país.

No Mato Grosso do sul, entre os anos de 1996 e 1998, estima-se que o botulismo levou a perda de 195.000 bovinos de uma população de 23 milhões de cabeças e esta elevada mortalidade se estende por outras regiões do país como sudeste, nordeste e norte, alcançando o status de uma das três principais causas de mortalidade em bovinos, resultando em grandes perdas econômicas na bovinocultura nos diferentes sistemas de produção.

O Clostridium botulinum pode permanecer no solo e em matéria orgânica por longos períodos em sua forma resistente, os esporos, sem causar doença. Porém, quando encontram um ambiente favorável de anaerobiose, ou seja, sem oxigênio, os esporos germinam e produzem neurotoxinas. Após absorção pelo trato intestinal, as toxinas se ligam a receptores de terminações nervosas, resultando em paralisia flácida e morte do animal em virtude de parada respiratória. As toxinas C e D são as de maior importância epidemiológica. Um grama de toxina mata um animal adulto e cerca de um grama de matéria orgânica decomposta contaminada pode ter toxina suficiente para matar um bovino adulto.

A freqüência de botulismo no rebanho bovino, especialmente em sistemas de criação extensiva está associada à intensificação de contaminação ambiental por Clostridium botulinum, decorrente da presença de cadáveres contendo toxinas botulínicas na pastagem. Bovinos criados em pastagens deficientes em fósforo e/ou que recebam suplementação mineral inadequada desenvolvem osteofagia (hábito de roer ou chupar ossos), podendo ingerir as toxinas botulínicas presentes nestas carcaças. Esse comportamento é um dos principais fatores predisponentes da doença.

Bovinos confinados também podem adquirir a doença quando alimentados com silagem, feno ou ração mal conservados, que possam conter matéria orgânica em decomposição ou carcaças de pequenos mamíferos e aves, que por acidente, possam ter sido incorporados ao alimento no momento da preparação. Estas condições são ideais para a multiplicação da bactéria e produção de grandes quantidades da toxina botulínica. Reservatórios de água, águas paradas e/ou açudes contaminados por carcaças de roedores, pequenas aves ou animais silvestres como tatus e tartarugas, também podem ser considerados como possíveis fontes de infecção para bovinos a campo e estabulados.

Nos últimos anos, diversos surtos de botulismo foram descritos no Brasil, tendo como fonte de infecção a cama de frango, usada na suplementação alimentar de bovinos, devido à presença comum do agente no trato digestivo de aves. Após sua proibição em 2001 pela Instrução Normativa no15 do Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento, como uma medida preventiva para se evitar a encefalite espongiforme bovina (BSE), a utilização de cama de frango como suplemento alimentar reduziu consideravelmente, contudo ainda tem sido relatada como uma das fontes de infecção para bovinos confinados, resultando na morte de elevado número de animais em uma propriedade.

O curso da doença é variável, estando relacionado a quantidade de toxina ingerida pelo animal, podendo ser de horas até duas a três semanas. Inicialmente, o animal com botulismo tem dificuldade para se locomover devido a paralisia dos membros posteriores, que pode evoluir para os membros anteriores, permanecendo a maior parte do tempo deitado.

Com a evolução da doença, o animal não consegue mais levantar-se e tem paresia dos músculos da mastigação, indicada pela incapacidade de apreender, mastigar e deglutir os alimentos. Nas fases mais adiantadas da doença o animal apresenta dificuldade para respirar, em conseqüência da paralisia flácida progressiva dos músculos esqueléticos pela ação da toxina, embora apresente estado mental e sensorial normal. A morte do animal é precedida por coma seguido de insuficiência e parada respiratória.

O diagnóstico é baseado no sinais clínicos, dados epidemiológicos e pela identificação de toxinas e/ou esporos de Clostridium botulinum no material analisado. O material de eleição para pesquisa de toxina é o conteúdo rumenal, conteúdo intestinal, fragmento de fígado e soro sanguíneo, que devem ser colhidos logo após a morte ou mediante sacrifício do animal que se encontre em estado agônico.

Os espécimes clínicos devem ser acondicionados em frascos estéreis e enviados ao laboratório, sob refrigeração, o mais rápido possível. Fontes suspeitas de intoxicação como cama de frango, silagem, feno, água, também devem ser encaminhadas ao laboratório para que seja realizada a pesquisa da toxina.

Considerando que o tratamento dos animais enfermos é geralmente ineficaz e economicamente impraticável, o controle do botulismo bovino consiste na adoção de medidas preventivas relacionadas à:
• melhoria das condições ambientais e sanitárias como eliminação de fontes de contaminação nas pastagens através da remoção e incineração de carcaças;
• manejo nutricional adequado, como a correção da deficiência de fósforo nas pastagens e suplementação mineral permanente dos animais;
• vacinação de todo o rebanho com toxóides botulínicos presentes em diferentes vacinas comerciais. A vacinação deve ser feita anualmente, antes do período das chuvas, sendo que a primeira imunização deve ser seguida de reforço quatro a seis semanas após a primeira dose. Em algumas situações, como na criação extensiva de bovinos, esta é a principal medida de controle do botulismo, devido aos custos elevados e dificuldades operacionais para a realização das outras medidas preventivas citadas anteriormente.

Em criações, cujos animais são alimentados com silagem, ração ou feno, cuidados adicionais devem ser tomados em relação à correta produção e armazenamento dos alimentos. Tais práticas são fundamentais para se evitar possível contaminação dos rebanhos com as toxinas botulínicas, reduzindo perdas econômicas significativas, decorrente da morte de animais infectados. Além disso, o manejo sanitário e nutricional adequado certamente resultará em melhores condições dos animais e maiores rendimentos da empresa agropecuária.

Referências bibliográficas:

DUTRA, I. S.; DOBEREINER, J.; ROSA, I. V.; SOUSA, L. A. A.; NONATO, M. Surtos de botulismo em bovinos no Brasil associados a ingestão de água contaminada. Pesq. Vet. Bras., v.21, n. 2, p. 43-48, 2001.

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FERNANDES, C. G.; RIET-CORREA, F. Botulismo. In: Doenças de ruminantes e eqüídeos, Fernovi: v. 1, 3 ed., 2007.

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