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Utilização da ultra-sonografia na reprodução de bovinos: 2ª parte

Continuando o artigo anterior, serão discutidas a seguir algumas das principais aplicações práticas da ultra-sonografia na reprodução de bovinos.

Diagnóstico de gestação

Trata-se de uma das aplicações mais rotineiras da ultra-sonografia na reprodução de bovinos. O ultra-som reúne praticamente todos os requisitos técnicos básicos de um bom método para diagnóstico de gestação. É seguro, fornece resultados rápidos, é precoce e não é lesivo a mãe, feto ou operador.

Em qualquer método de diagnostico de gestação em bovinos, o que principalmente interessa ao técnico na prática, ou seja, a maior atenção deve ser sempre dispensada às fêmeas não gestantes. É imprescindível que para cada um destes animais seja feito um exame minucioso de todo o genital seguido de uma recomendação de qual procedimento executar para tornar esta fêmea gestante o mais rápido possível. Neste quesito, a ultra-sonografia é insuperável, pois além de permitir um diagnóstico acurado e precoce, permite naquelas fêmeas não gestantes uma excelente avaliação de todo o genital.

O diagnóstico de prenhez com ultra-som geralmente não é acurado antes do 22º dia. Antes do 20º dia é difícil detectar conteúdo característico de gestação no interior do útero. O próprio embrião dificilmente pode ser detectado antes do 25º dia. Em condições de campo, um operador experiente com um bom equipamento deve ser capaz de detectar o embrião ao 28º dia, na maioria das vacas. O embrião localiza-se na base da primeira curvatura do corno uterino. Neste período embrião está acoplado à face dorsal do lume uterino. Entre o 20º e 25º dia, o embrião está em íntima aposição ao endométrio e encontra-se circundado por uma pequena área circular de fluido.

Após o 25º dia, a detecção do fluido cório-alantóico é fortemente sugestiva de prenhez. No entanto, a detecção do próprio embrião, com o batimento cardíaco é o método mais confiável de verificar a viabilidade do feto. Acima de 30 dias de gestação é possível a clara visualização do feto, que nesta fase se encontra mais distante (solto) do endométrio. Com aparelhos de boa resolução é fácil a percepção dos batimentos cardíacos e com isto identificar a viabilidade fetal.

Figura 3: Imagens ultra-sonográficas de gestações bovinas em diferentes idades




Cortesia: Biotran LTDA

Sexagem fetal

A sexagem fetal tem apresentado um demanda crescente com o desenvolvimento da ultra-sonografia em bovinos. Ela pode ser utilizada para eliminação da prenhez de um sexo indesejável, geralmente machos em rebanhos leiteiros, comercialização de receptoras de embrião com prenhez de determinado sexo, programação de formação de planteis etc.

O diagnóstico do gênero fetal baseia-se na determinação da localização do tubérculo genital (TG). Esta estrutura existe nos fetos de ambos os sexos. Na fêmea dará origem ao clitóris e no macho originará o pênis. O TG é uma estrutura bilobulada, eco-densa de aparência muito característica. Localiza-se inicialmente sobre a linha média, entre os membros posteriores, detectada a partir do 50º dia de gestação. Até esta idade não é possível detectar diferenças em fetos macho ou fêmea. A partir do 55º dia de gestação inicia a migração do tubérculo.

Na fêmea o TG migra a uma pequena distância em sentido posterior (ventral à base da cauda) e torna-se o clitóris. No macho, o TG migra uma distância maior em sentido anterior, ate imediatamente posterior ao cordão umbilical, e torna-se o pênis. O acurado diagnóstico do sexo fetal é possível aproximadamente entre o 55º e o 90º dia ou mais tarde, desde que se tenha acesso para visualizar as áreas corretas.

Figura 12: Imagens ultra-sonográficas de fetos para sexagem (cortesia: Biotran LTDA)


Fêmea: 62 dias


Macho: 71 dias


Fêmea: 68 dias

Guia para punção folicular de oócitos

Outra aplicação importante da ultra-sonografia. Com o crescimento da técnica de fecundação in vitro, houve maior demanda para aspiração folicular de oócitos via ultra-sonografia. Potencialmente podem ser aspirados todos os folículos visíveis de acordo com a resolução do equipamento.

Utiliza-se uma probe geralmente setorial, ou mais recentemente micro-convexa colocada via vaginal, acoplada a uma guia de punção. Requer muita habilidade do técnico que manuseia o equipamento, a fim de evitar lesões nos órgão genitais, principalmente ovários. Vários trabalhos têm procurado adequar o ritmo de coleta de oócitos no sentido de maximar a produção e minimizar as lesões que a técnica provoca na fêmea doadora.

Considerações finais

A ultra-sonografia revolucionou a avaliação do genital de fêmeas de grande porte. Com esta técnica foi determinado o padrão de desenvolvimento folicular que auxiliou o desenvolvimento de procedimentos mais avançadas de manipulação da fisiologia, como superovulação, sincronização de cio, Inseminação Artificial em Tempo Fixo (IATF) e outras.

Além disto permitiu-se melhorar a avaliação de várias patologias e a realização do diagnóstico de outras, antes impossível. É capaz de avaliar de estruturas muito pequenas, a partir de 1mm, não somente na superfície dos órgãos, mas também no interior dos mesmos. Aumentaram sobremaneira as informações que podem ser obtidas, porém não diminuiu a necessidade de conhecimentos sólidos de anatomia, fisiologia e endocrinologia, imprescindíveis para interpretar esta maior gama de achados.

Quanto maior o número de informações a serem relacionadas, maior a necessidade de conhecimentos para a elaboração do diagnóstico preciso. A ultra-sonografia auxilia na geração e necessita de conhecimentos para quem utiliza a técnica.

Agradecimentos

Agradecemos ao Médico Veterinário Eduardo Ramos de Oliveira, do Setor de Ultra-sonografia da Biotran, pelas realização das imagens utilizadas nos dois artigos.

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