Manejo do Capim Elefante no Departamento de Zootecnia da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” – ESALQ-USP

O capim Elefante (Pennisetum purpureum Schum.) é uma espécie de origem africana, descoberta em 1905, na áfrica tropical, hoje Zimbabwe. Foi introduzida no Brasil em 1920, no Rio Grande do Sul, através de mudas oriundas dos Estados Unidos. Considerado uma das gramíneas tropicais de maior produção, seu potencial produtivo pode variar de 10 a 80 toneladas de MS ha-1 por ano.

Ao analisarmos a produção desta gramínea, verificamos que há inúmeros fatores que podem influenciar a sua produção, como por exemplo: cultivares, híbridos, altura de corte, fertilidade do solo, fatores climáticos, eliminação do meristema apical e área foliar remanescente após o pastejo.

Desde a sua chegada ao país, chamou a atenção de técnicos e pecuaristas por seu porte avantajado e grande capacidade de produção, sendo, portanto, prontamente recomendado para capineiras. Apesar disto, nos levantamentos realizados durante as décadas de 40 e 50, foi relatado que a gramínea não era muito utilizada como capineira, talvez pela inexistência de energia elétrica nas propriedades rurais da época, aumentando com isso a dificuldade de picar o material antes do fornecimento para os animais. A partir dos anos 60 houve uma grande explosão da área cultivada para uso exclusivo de capineiras.

No final dos anos 60 e início de 70, foram instalados vários sistemas de pastagens utilizando o capim Elefante, através de créditos subsidiados disponíveis. Porém, as tentativas foram geralmente fracassadas como conseqüência da rápida degradação dos pastos. Os meristemas apicais eram removidos com freqüência já que os pastos eram manejados incorretamente e na maioria das vezes roçados para se igualar as plantas. Em função das dificuldades relatadas pelos produtores, estudos passaram a ser realizados com o objetivo de estabelecer práticas adequadas de manejo para esta espécie sob pastejo.

O estudo pioneiro realizado na ESALQ, que foi trabalho de mestrado do professor Moacyr Corsi em 1972, permitiu elucidar algumas questões importantes ligadas ao manejo de pastagens de capim Elefante, tais como invasão de plantas invasoras (como grama batatais e soja perene) no caso de pastos em recuperação, e a duração do período de descanso das parcelas. Nesse estudo de Corsi, o período de 45 dias foi considerado o intervalo de desfolha (ID) ideal com períodos de ocupação de 3 a 5 dias. Na época este foi o manejo que ofereceu melhores condições de utilização, permitindo lotações de até 12 unidades animais (UA) ha-1 durante a estação chuvosa.

Com base nos dados de Corsi (1972), o Departamento de Zootecnia da ESALQ- USP passou a adotar as recomendações de Corsi (1972) em seu sistema intensivo de produção de bovinos leiteiros, implantado exclusivamente com pastagens de capim Elefante em 1971. Foi adotado naquela época, o método do pastejo rotativo com períodos fixos de descanso de 45 dias e alturas pós-pastejo propostas de 30 – 40 cm. No início da primavera, todos os perfilhos desenvolvidos das gemas basais deveriam ser decapitadas, estimulando a brotação de gemas axilares, e esses perfilhos aéreos seriam utilizados até o fim da estação.

Porém, os estudos relacionados com o manejo do capim Elefante e outros capins tropicais, não pararam. Em diversos artigos científicos e de difusão, tem se discutido o critério ideal para determinar o intervalo de desfolha (ID) mais adequado para capim Elefante ao longo do ano.

Mais recentemente, alguns pesquisadores (como Da Silva; Sbrissia), têm questionado o uso de ID fixos quando os pastos são submetidos a pastejo rotativo. De acordo com esses autores, a utilização de ID fixos resultam em menor eficiência de colheita do pasto e maior dificuldade em manter a altura pós-pastejo adequada para as diversas espécies forrageiras tropicais. Os referidos autores têm proposto o critério de entrada dos animais no pasto quando este apresenta interceptação de luz de 95%, e no caso do Capim Elefante este momento equivale a altura média do dossel de 1 metro, independente do número de dias de descanso que tiverem.

Mesmo no departamento de Zootecnia da ESALQ/USP, vários estudos continuaram sendo realizados para encontrar o melhor manejo para o capim Elefante. Durante os últimos anos foram testados diversos ID fixos como: 37, 35, 27 dias e até ID variável, baseado somente na altura do pasto no momento da entrada dos animais.

O último trabalho conduzido na ESALQ comparou dois manejos de Capim Elefante: pastos manejados com 27 dias de intervalo de desfolha, chamado de tratamento de ID fixo e pastos manejados com altura fixa de 1 metro, independente do número de dias que tivesse chamado de tratamento de ID variável. O período de ocupação dos piquetes pelas vacas experimentais foi de dois dias. Em seguida os piquetes eram ocupados pelos animais de repasse. Foi estabelecida altura média do dossel de 40cm após o pastejo de repasse.

A Tabela 1 apresenta os dados referentes às características do dossel forrageiro.

Tabela 1. ID, alturas pré e pós-pastejo, massa pré e pós-pastejo e densidade volumétrica do dossel forrageiro com ID fixo ou variável.

Clique na imagem para ampliá-la.

Os pastos do tratamento com ID variável (pastejado no momento que atingissem 1 metro de altura) foram pastejados em média a cada 23 dias, com variação ao longo das 10 semanas experimentais de 11 a 33 dias de ID. A grande variação no ID nos pastos manejados com base em altura, de 11 a 33 dias durante os meses de janeiro a abril, reforçam a colocação de Da Silva (2005) quanto à inadequação da adoção de ID fixos para manejar pastagens tropicais e as prováveis vantagens da adoção do critério por altura média do dossel.

A adoção de ID fixos definidos em termos de dias, pode alterar a qualidade e a quantidade de forragem colhida pelo animal, uma vez que podem resultar em intervalos entre pastejos mais longos ou mais curtos do que o necessário.

Nos sistemas comerciais de produção, uma dificuldade bastante comum dos manejadores de pasto tem sido o controle adequado de resíduos pós-pastejo em pastagens cespitosas manejadas com doses altas de nitrogênio. As alturas de pós-pastejo obtidas foram inferiores para os tratamentos com ID variáveis comparativamente com o tratamento de ID fixos de 27 dias.

Com relação ao desempenho animal, os animais mantidos nos pastos que eram manejados de acordo com a altura tiveram aumento de 1,5 Kg/dia de leite comparado com os animais mantidos nos pastos com ID fixos de 27 dias (12,32 versus 10,8 kg de leite dia -1). Não houve nenhuma diferença em relação a composição do leite entre os dois tratamentos.

De todos dados coletados neste experimento, o que mais chamou a atenção foram as taxas de lotação e as produções de leite por área Tabela 2.

Tabela 2 – Taxa de lotação média durante período experimental.

Clique na imagem para ampliá-la.

Os tratamentos com ID variáveis resultaram em períodos mais curtos de desfolha utilizando com isso menores áreas de pastagem do que os tratamentos de ID fixos de 27 dias (1,2 X 1,6 ha). Em conseqüência, maiores taxas de lotação foram obtidas com os tratamentos de ID variáveis comparativamente com os tratamentos de ID fixos.

Como conseqüência da maior produção de leite e maiores valores numéricos de taxa de lotação nos sistemas com ID variáveis, nestes foram obtidos valores numéricos maiores de produção de leite por área que nos tratamentos com ID fixos de 27 dias.

Depois deste trabalho, o manejo dos pastos de Capim Elefante Departamento de Zootecnia da Esalq-USP foi alterado. Atualmente, o Departamento adota o manejo com intervalo de desfolha variável, ou seja, o momento de entrada dos animais nos piquetes é quando estes atingem altura média de 1 metro, independente do número de dias que precisarem para atingir esta altura. Lembrando que a altura de 1 metro para o Capim Elefante equivale ao momento em que o dossel consegue interceptar 95% de interceptação luminosa e atinge o ponto de maior deposição líquida de matéria seca, conseqüentemente melhor momento para ser colhido pelo animal.

Referência

CARARETO, R. 2007. Uso de uréia de liberação lenta para vacas alimentadas com silagem de milho ou pastagens de capim Elefante manejadas com intervalos fixos ou variáveis de desfolhas. Dissertação de mestrado. Universidade de São Paulo.

15 opiniões sobre “Manejo do Capim Elefante no Departamento de Zootecnia da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” – ESALQ-USP”

  • HILDOMAR SANTOS - 04/04/2009

    Gostaria de saber se e aconselhavel fazer silagem de Capim Elefante + Cana-de-acucar. E quais as proporcoes recomendadas.

    Obrigado

  • HILDOMAR SANTOS - 04/04/2009

    Gostaria de saber se o uso de Capim Elefante poderia substituir a silagem de milho, e se seira justificado em termos de custos/resultados essa substituicao em propriedades que tem o potencial para ambos os cultivares.

    Saliento que a minha operacao e gado de corte/cria.

  • Rafaela Carareto - 13/04/2009

    Prezado Hildo Santo,

    Com relação a ensilagem de capim elefante e de cana de açucar, o melhor seria ensilar os materiais separadamente. Lembrando de adicionar um aditivo sequestrante de umidade na silagem de capim elefante, como por exemplo polpa cítrica, casquinha de soja. E na cana de açucar adicionar aditivo próprio para esta cultura.

    Sugiro a leitura do artigo: “Custo de produção de silagem de cana-de-açúcar com diversos aditivos e seu impacto na formulação de rações: Parte I” que foi puplicado no radar técnico de Conservação de Forragens.

    Muito Obrigada

  • Rafaela Carareto - 13/04/2009

    Prezado Hildo Santos,

    Ainda não conheço o capim Maralfalfa.

    Obrigada.

  • Rafaela Carareto - 13/04/2009

    Prezado Hildo Santo,

    Entendo que o senhor se refere a silagem de Capim Elefante.

    A silagem de milho apresenta valor energético superior a de capim elefante. O NDT (nutrientes digestíveis totais) médio da silagem de capim elefante é de 54%, contra 65% da silagem de milho.

    Com isso, para manter a mesma densidade energética da dieta usando silagem de capim elefante, o senhor teria que complementar com alimento concentrado.

    Para se definir qual utilizar, teria que saber qual o custo de produção de cada uma e do concentrado utlilizado para igualar o nível de NDT das duas dietas.

    Obrigada

  • Jose Carlos o Farrill Vannini Hausknecht - 03/03/2010

    Parabéns pelo artigo, vc poderia informar qual altura que daria 95% de interceptação luminosa para Brizanta e Tanzânia?

  • Marribe Síria Cardena - 14/06/2010

    Prezada Rafaela, muito bom seu artigo ….parabéns pela iniciativa de escrever sobre o capim elefante, vejo que se tem muito ainda o que falar e estudar, dado os comentários…

    Gostaria de saber qual é a altura para corte na capineira, e que altura devo corta-lo do chão ?? pois alguns dizem ser rente ao chão e outros dizem ser há alguns centimetros.

    Obrigada.

  • Rafaela Carareto - 30/06/2010

    Prezado Marribe Síria Cardena
    até o momento eu desconheço estudos que que apontem qual melhor altura para corte do capim elefante destinado a capineira, relacionado com interceptação luminosa. O que vemos na prática é o corte entre 1, 5 e 1,8 metros de altura e rente ao solo.
    Obrigada,
    Rafaela.

  • Rodrigo de Melo Bruno - 25/02/2011

    Dr. Rafaela, parabens pelo artigo….Conheço bem esse experimento de piquetes do pasto elefante napier, todo em volta do retiro de leite na esalq, onde corsi, dizia que plantou isso na decada de 70 e nunca mais fez reforma de pasto….
    Bem nesse caso como você dividiria os piquetes, como você faria caso em certa epoca tivesse uma estiagem, claro que em sistema serqueiro, esse sistema de tempo variavel ou IL 95, obteve qual produção de MS/ano.
    Claro que seu trabalho seria o idela para os produtores acolherem, mais em areas grande se torna dificil, pois as pessoas veem muito trabalho em remanejar animais ou em suplementar em caso de falta de pastagem….
    Em 2007, falavam que nesse mesmo lugar o corsi estava trabalham com altura pos pastejo de 20cm do elefante, voce sabe alguma coisa sobre isso para informar…..
    Sobre o mombaça falam hoje em que altura, seria o 90cm ou sabe não?
    Sobre trabalho onde possa encontrar mais sobre essas atualizações sobre manejo de pasto, me informe por favor. drigobruno@hotmail.com
    Abraços e boa sorte nesse seu caminho…

  • Herbert Vilela - 06/05/2011

    O capim abordado não é o Capim elefente hexaploide(hibrido)

  • Herbert Vilela - 10/05/2011

    O capim elefante Paraíso não foi copmentado como fonteb de energia

  • ademir de brito - 11/06/2012

    Gostaria de saber como fica a rebrotagem do capim elefante no caso de pastoreio intensivo rotacionado, pois o pisoteio dos animais deve prejudicar a rebrota.
    Quantos animais é recomendável colocar pra comer um hectare de capim elefante durante um dia?
    Meu projeto será irrigado na seca com adubação de cama de frango líquida, isto é recomendável?

  • joão carlos simon - 17/06/2012

    gostaria de saber se serve para pastoreio rotativo e o custo da semente

  • joão carlos simon - 17/06/2012

    tenho interesse nesse produto, se tem sementes a venda e o preço das mesmas, e se serve para pastoreio rotativo, ok

  • Gerzy Ernesto Maraschin - 31/10/2013

    Cumprimentos pela adoção do manejo com intervalo de descanso variável. Mas muito importante é o residuo deixado após pastejo. O bom é que as vacas pastejam por dois dias e consomem só a metade superior das folhas novas ou menos. O restante é consumido por outras categorias. E as condições de tempo é que determinam o momento do pastejo. No pastejo com desfolhação contnua, o rendimento por animal é alto e constante durante a estação chuvosa.

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