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Características da cultura da cana-de-açúcar para o corte mecanizado

A cana-de-açúcar, quando cultivada para o corte mecanizado em fazendas de pecuária, deve ser adaptada para tal atividade. Devido às limitações das máquinas para o corte dessa forrageira, a cultura da cana-de-açúcar deve seguir algumas características, as quais são prioritárias para o sucesso desse sistema de produção.

Uma cultura de cana-de-açúcar ideal para o corte mecanizado deve preconizar menor densidade de colmos na linha de plantio; a cana não deve estar acamada e ter alta produtividade. Para associar as duas primeiras características com boa produção da forragem, que na maioria das vezes são características contraditórias, estudos devem ser realizados nesse sentido.

As máquinas forrageiras apresentam como característica a pequena abertura da boca de colheita. Obviamente esse espaço na boca de colheita está associado com outras características da máquina, como capacidade do sistema picador e capacidade de lançamento do material picado pelo rotor e posteriormente pela bica.

A densidade de plantio é diretamente associada à densidade da linha da cultura. Os plantios de cana-de-açúcar para usinas e destilarias são realizados com espaçamento entre 1,20 e 1,60 m entre linhas. Plantios mais estreitos como 1 m, por exemplo, promoverão aumento de metros lineares por área. Nesse caso, se a produção da lavoura for a mesma em um plantio mais largo ou mais estreito, o que ocorrerá é que a densidade da linha da cana-de-açúcar, em relação à massa por metro lineares, será menor.

Paes et al. (1997) testaram quatro espaçamento entre linhas de plantio, entre 1,0 m e 1,90 m, para três variedades de cana-de-açúcar. O número de colmos por metro quadrado foi menor quanto maior o espaçamento, porém a densidade da linha da cultura no momento da colheita foi ligeiramente menor para o espaçamento de 1m entre linhas, enquanto que a produtividade não foi significativamente alterada (QUADRO 1).

QUADRO 1- Produção e densidade de produção linear em três cultivares de cana-de-açúcar

Quadro 1

A produção de uma planta está diretamente correlacionada com o seu perfilhamento, sendo que a adubação nitrogenada promove aumento de produção de forragem por aumentar o perfilhamento das plantas. O índice de perfilhamento da cana é característica varietal. A capacidade que uma planta apresenta de mobilizar suas reservas, emitindo mais ou menos brotos em determinada condição ambiental é o que a caracteriza em alto, médio ou baixo índice de brotação.

As recomendações de adubação nitrogenada para cana-planta não são bem estabelecidas, por um provável desconhecimento das bases fisiológicas para as respostas ao nitrogênio aplicado como fertilizante. No trabalho de Paes et al. (1997), a variedade CB45-3, não apresentou respostas para aumento de perfilhamento e para produção de matéria seca em adubações de 50 e 100 kg/ha de nitrogênio aplicados no plantio e 107 dias após o plantio. Nesse trabalho, a variedade NA56-79 apresentou aumento de produção em relação a adubação nitrogenada, porém, com uma resposta menor que a RB739359. No entanto, o perfilhamento no caso da NA56-79 foi de 13,76/m2, valor esse não alterado pela adubação nitrogenada, enquanto que a RB739359 apresentava 11,44 colmos/m2 e com 100 kg/ha de nitrogênio o número de colmos passou para 14,68 colmos/m2. Pode-se prever por esses dados que o menor perfilhamento da NA56-79, promoveu maior peso de colmos, o que explica a resposta positiva de produção em relação à adubação nitrogenada.

Orlando Fo e Rodella (1995), testando várias combinações de adubação nitrogenada em relação à época de aplicação e dosagem, observaram que as melhores respostas foram quando se colocou 20 kg/ha no sulco e o restante aos 120 dias, aproximadamente, sendo que a dosagem ótima foi obtida com 121 kg/ha de nitrogênio. Nesse caso, em espaçamento de 1,40 m, onde a variedade de cana estudada foi a SP70-1143, o tratamento testemunha teve densidade de produção de 11,45 kg/m linear, enquanto que as maiores adubações apresentavam em torno de 33% mais produção, que foram explicadas por colmos 21% mais pesados e 10% mais colmos/m.

A escolha da variedade e o sistema de produção utilizado em relação ao espaçamento e adubação nitrogenada, deve ter a produção de forragem como prioridade. Em cortes mecanizados é provável que seja mais interessante que a produção esteja baseada no peso do colmo, que no número de perfilhos, pois com menor perfilhamento menor número de colmos devem ser cortados por unidade de tempo, o que pode ser vantajoso. No entanto, menor perfilhamento poderá provocar colmos mais grossos e portanto, maior dificuldade de corte pela máquina.

Balieiro (1995), analisou o perfilhamento de três variedades de cana-de-açúcar cortadas em três épocas diferentes (julho, agosto e setembro). Através do QUADRO 2 pode se notar que a variedade RB76-5418, apresentou menor perfilhamento para o corte de julho em relação aos de agosto e setembro. Enquanto que as variedades SP71-1406 e SP71-6163, apresentaram maior perfilhamento para os cortes realizados em agosto em relação a setembro e julho. Em relação à facilitar a mecanização de uma área com essas três variedades, a seqüência de corte adotada deve ser: primeiramente a SP71-6163, depois a RB76-5418 e posteriormente a SP71-1406. Essas variedades apresentariam 14,68; 16,00 e 16,61 perfilhos/m2, respectivamente para as épocas definidas. No entanto, deve se ressaltar que essas épocas de corte devem estar associadas à produção de matéria seca também.

QUADRO 2 – Média do número de perfilhos de três variedades de cana-de-açúcar para três épocas de corte (julho, agosto e setembro de 1993)

Quadro 2

Outras características da cana-de-açúcar que devem ser avaliadas e que são dependentes do manejo da cultura, são o diâmetro e a altura dos colmos. Basile Fo (1992), em dois espaçamentos (1,0 e 1,45 m) e três variedades de cana-de-açúcar demonstrou que a altura dos colmos foi maior e o seu diâmetro menor para o espaçamento de 1,0 metro, quando comparado com o espaçamento de 1,45 metros. Nesse caso, o peso dos colmos para o espaçamento menor foi de 1,01 kg/colmo, enquanto que os colmos com espaçamento mais largo pesavam 1,17 kg. Porém, como o número de perfilhos por hectare foi maior para o espaçamento de 1,0 metro, a produção de colmos e o rendimento de açúcar foram menores para a cana plantada com 1,45 metros de espaçamento (QUADRO 3).

Colmos mais altos são mais susceptíveis ao acamamento, porém altura do colmo tem uma correlação negativa com o seu diâmetro, dessa forma em se relacionando com o corte mecanizado para a alimentação animal, pode ser uma vantagem no sentido de facilitar o corte da cana pelas máquinas forrageiras.

QUADRO 3- Características agronômicas de três variedades de cana-de-açúcar cortadas aos 300 dias de crescimento em relação ao plantio com duas densidades

Quadro 3

Com corte mecanizado, a cana-de-açúcar pode apresentar uma longevidade reduzida. Devido as máquinas não terem eficientes sistemas de corte, a altura onde o colmo é cortado pode chegar a 50 cm, sendo normal o corte a 20 cm do solo. A altura de corte do colmo em relação ao solo será maior quanto pior o sistema de cultivo da lavoura. Quando o sulco de plantio é muito profundo e a colocação de terra sobre a muda é reduzida, pode-se formar camaleões que limitam que a máquina atinja a base do colmo. Nesse caso, deve se proceder o cultivo da área, a fim de promover o acerto do relevo.

O corte da cana realizado acima do nível do solo promove perdas de produção de duas formas; a redução de perfilhamento e perda de material (toco) não retirado da área. Há relatos de fazendas que realizaram a coleta dos tocos após o corte em que a quantidade de material foi por volta de 8 t/ha. O corte mecanizado de cana-de-açúcar para industria promoveu perdas 0,80 e 0,67 t/ha para a cana queimada e crua respectivamente (Furlani Neto et al. 1996).

O manejo adequado, nesse caso, é o corte manual do colmo. Essa atividade pode onerar o sistema, por isso o uso de roçadoras tratorizadas são utilizadas em alguns casos, essa atividade deve ser executada o quanto antes após o corte da cana, e nunca após algumas brotações. Nessa área, trabalhos são necessários para verificar a real necessidade do processo de rebaixamento dos tocos ao nível do solo e o momento correto de fazê-lo.

Dessa forma, o corte mecânico pode promover a redução da vida útil do canavial, trabalhos nesse sentido não existem. Alguns relatos de fazendas com bom manejo do canavial apontam para 5 a 6 cortes mecanizados, e indicam que com bom manejo a mecanização do corte da cana não limita sua longevidade.

Texto extraído do artigo: BALSALOBRE, M. A. A.; FERNANDES, R. A. T.; SANTOS, P. M.; Corte e transporte de cana-de-açúcar para consumo animal. In: Anais 7o Simpósio Sobre Nutrição de Bovinos – Alimentos Suplementares. Ed. Peixoto, M. A.; Moura, J. C.; Nussio, L. G.; de Faria, V. P. FEALQ. Piracicaba. 1999. p. 7.

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