Minha experiência profissional em gerenciamento de fazendas – por Antonio Ledesma Neto

Pela minha vivência no campo por mais de 40 anos como engenheiro agrônomo, dos quais pelo menos 30 trabalhando no gerenciamento de propriedades rurais que tinham como atividade principal a bovinocultura de corte, observo que o maior desafio do produtor na gestão de propriedades rurais que exploram esta atividade, consiste em:

1. Mudar a maneira de pensar em relação a alguns assuntos, tais como:
– É impossível comparar bovinocultura de corte de baixa a média tecnologia com agricultura de alta tecnologia – cana, eucalipto, milho, soja;
– Antes de tudo, o produtor de bovinos de corte é produtor de forragem;
– Dentro da cadeia produtiva da carne, o produtor de bovinos de corte é fornecedor e não cliente em relação ao frigorífico e ao consumidor final, sempre devendo estar atento às necessidades dos clientes, os quais influenciam diretamente no fluxo de caixa e decidirão quem permanece ou não na atividade.

2. Fazer parcerias para poder agregar valor ao produto, participando de associações de produtores e programas específicos;

3. Implantar sistema agrosilvipastoril ou integração lavoura – pecuária, analisando logística / localização e perfil da empresa;

4. Implantar um sistema de gestão.

Dos itens relacionados acima o mais complicado é o item 04, pois depende de um grande entrosamento entre a empresa e a equipe de trabalho envolvida, onde devemos levar em conta:

1. Comprometimento da “ALTA ADMINISTRAÇÃO DA EMPRESA” com as mudanças necessárias;
2. Todos devem ser receptivos com as mudanças;
3. Todos devem passar por um processo de educação e instrução para poderem assimilar novos conceitos;
4. Todos devem ser preparados para aceitar novos princípios de relacionamento e comportamento;
5. Todos devem ter comprometimento, isto é: “TRABALHAR EM EQUIPE”.

Mas antes de tudo precisamos dar uma arrumada na casa – “EMPRESA”, utilizando-se de cinco palavras transformadoras:

1. ORGANIZAÇÃO OU UTILIZAÇÃO:

– Significa: Colocar à disposição para serem descartadas coisas inúteis e preservar as de uso no dia-a-dia;
– Vantagens: Elimina excessos, libera espaço, diminui riscos de acidentes.

2. ARRUMAÇÃO OU ORDEM:

– Significa: Deixar cada coisa no seu devido lugar, pronta para uso, de modo que qualquer pessoa possa encontrar;
– Vantagens: Facilidade de encontrar objetos, economia de tempo e diminuição na ocorrência de acidentes.

3. LIMPEZA:

– Significa: Que com ela, identificam-se defeitos, peças quebradas, vazamentos e outros problemas que possam ocorrer com maior facilidade;
– Vantagens: Melhoria do local de trabalho, satisfação dos colaboradores, maior segurança e eliminação de desperdícios.

4. CONSERVAÇÃO OU PADRONIZAÇÃO:

– Significa: Arrumação e limpeza de forma contínua, padronizando os procedimentos a serem executados;
– Vantagens: Equilíbrio físico e mental, melhoria das áreas em comum (banheiro, refeitório) e das condições de segurança.

5. DISCIPLINA, AUTODISCIPLINA OU OBEDIÊNCIA:

– Significa: Fazer as coisas como elas devem ser feitas, mesmo que ninguém veja; cumprir regularmente os padrões éticos, morais e técnicos; fazendo-se tornar um hábito, é o compromisso pessoal;
– Vantagens: Trabalho diário agradável, melhoria nas relações humanas.

Em momentos de crises sempre é notória a velha discussão: “TEMOS QUE CORTAR DESPESAS”, porém o que precisamos fazer é evitar desperdícios, isto é: “OBTER MAIS RESULTADO COM MENOS DESEMBOLSO”, o que nada mais é do que melhorar a eficiência na utilização dos recursos financeiros, infraestrutura – capacidade instalada de produção, insumos, mão de obra e etc. Para que isto aconteça, devemos estar de olho nos setores que mais necessitam desta atenção:

1. Almoxarifado;
2. Depósito para defensivos agrícolas;
3. Depósito para fertilizantes;
4. Depósito para produtos veterinários e sementes;
5. Depósito de rações, suplementos minerais e energéticos – proteicos;
6. Oficina;
7. Galpão de máquinas, equipamentos, implementos e utensílios;
8. Galpão de arreiamentos e selas;
9. Baias; currais; cercas; sistema de recalque, armazenamento e distribuição de água;
10. Residências;
11. Equipamentos e móveis para escritório;
12. Máquinas, equipamentos, implementos e utensílios;
13. Veículos;
14. Rebanhos;
15. Áreas com culturas permanentes, culturas temporárias, pastagens e capineiras;
16. Mão de obra direta e indireta, e prestadores de serviços – empreiteiros.

A observação que faço, para que o processo de gestão inicie com o pé no chão, é importante que a EQUIPE DA EMPRESA esteja coesa, isto é, falando a mesma linguagem, como também a casa – EMPRESA esteja arrumada. Esta é chave do sucesso ou não para se implantar o referido processo.

Para que possamos iniciar um processo de gestão numa propriedade rural ou empresa, antes de tudo, se faz necessário conhecer a real situação da mesma – DIAGNÓSTICO, somente assim poderemos discutir: A FINALIDADE, MISSÃO E VISÃO DA EMPRESA; OBJETIVOS E METAS; sempre pensando no “CURTO, MÉDIO E LONGO PRAZO”.

O diagnóstico é composto pelo levantamento da situação atual da propriedade rural ou empresa dos seguintes itens:

1. Apurar o patrimônio da empresa – valor:

– Terra nua;
– Culturas permanentes;
– Pastagens e capineiras;
– Reflorestamentos;
– Benfeitorias e melhoramentos;
– Cercas para pastagens e capineiras;
– Equipamentos e móveis para escritório;
– Máquinas, equipamentos, implementos e utensílios;
– Veículos;
– Animas de produção e trabalho;
– Materiais e produtos em estoque;
– Saldo de caixa em aplicações financeiras, conta corrente, valores em espécie, outras fontes de valores;
– Saldo das dividas contraídas por empréstimos, financiamentos, outras fontes e recurso próprios;
– Saldo de contas a pagar e a receber.

2. Levantar a mão de obra direta / indireta e prestadores de serviços:

– Por função, quantidade e remuneração mensal.

3. Levantamento das atividades exploradas;

– Nível de produtividade;
– Nível de tecnologia;
– Condições de clima, solo e relevo;
– Logística e localização da propriedade rural;
– Mercado.

Após a realização do diagnóstico da situação da empresa, o passo seguinte é PROJETAR A SITUAÇÃO FUTURA, onde deveremos definir:

1. Plano de contas gerencial;
2. Plano de metas por atividade, onde definimos:
– As metas a serem atingidas;
– Os parâmetros para elaboração de orçamentos.

Em seguida, devemos “TRAÇAR OS CAMINHOS QUE DEVERÃO SER PERCORRIDOS”, para que possamos atingir os objetivos e metas traçados, levando em conta:

1. Cronograma das tarefas por atividade a ser explorada.

Concluído esta fase deveremos “LIGAR A SITUAÇÃO ATUAL COM A SITUAÇÃO PROJETADA”, e para que isto ocorra necessitaremos:

1. Elaborar o planejamento estratégico definindo “O QUE FAZER” E “QUANTO FAZER”, tendo como objetivo:

– Identificar as oportunidades e ameaças que possam surgir;
– Melhorar os pontos fortes, neutralizar os pontos fracos e ameaças;
– Visualizar os problemas internos e externos, priorizando alternativas com maior flexibilidade para solução dos mesmos;
– Administrar os custos e o capital de giro de cada atividade explorada, canalizando os recursos para as áreas de maiores resultados;
– Posicionar-se corretamente perante o meio ambiente, a sociedade, o mercado e o produto – visando o cliente;
– Ter competitividade = (produtividade + qualidade) x (criatividade + inovação);
– Isto é: “PLANEJAR”.

2. Elaborar o planejamento gerencial definindo “COMO FAZER”, com o objetivo de:

– Fornecer subsídios técnicos ao plano de ação da empresa;
– Dar suporte técnico no “O QUE FAZER” e “QUANTO FAZER”.
3. Elaborar o planejamento operacional definindo “QUANDO FAZER”, “ONDE FAZER” E “QUEM VAI FAZER”, com o objetivo de:
– Definir os prazos de execução e montar o cronograma das tarefas;
– Quantificar os recursos financeiros e materiais necessários existentes;
– Quem serão os responsáveis pela execução e fiscalização na realização das tarefas;
– Onde serão executadas as tarefas e os indicadores de produtividade das operações.

Assim que terminarmos o planejamento passamos para a fase de execução do mesmo, a fase seguinte será o acompanhamento da execução e coleta de dados – informações, a qual nada mais é do que “AVALIAR O SISTEMA DE COLETA E CONTRÔLE DAS INFORMAÇÕES”, onde deveremos:

1. Avaliar os formulários utilizados para a coleta de dados;
2. Avaliar a coleta de dados;
3. Fazer sugestões para melhorar o sistema.

Agora, após todo este dispêndio de energia e boa vontade na realização das tarefas incumbidas a cada colaborador, só nos resta “AVALIAR OS RESULTADOS”, onde teremos:

1. Emissão dos relatórios gerenciais;
2. Comparação do Orçado x Realizado – Metas e Objetivos Projetados;
3. Estabelecer sugestões para correção das Metas e Objetivos para o próximo período.

Assim, depois desta tremenda colaboração por parte da equipe, nada mais justo do que “CRIAR UM SISTEMA DE BONIFICAÇÃO TENDO COMO BASE AS METAS ESTABELECIDAS”, pois ninguém é de ferro.

E para finalizar:

1. Palavras que abrem porteiras: “POR FAVOR”, “DÁ LICENÇA” E “MUITO OBRIGADO”;
2. E como diz o ditado: “QUEM NÃO FAZ POEIRA, COME”;
3. A decisão está em suas mãos: “VAMOS AO TRABALHO”.

Atenciosamente, um grande abraço para todos e sucesso neste grande desafio que é implantar um sistema de gestão numa empresa agropecuária.

Por  Antonio Ledesma Neto, engenheiro agrônomo.

5 opiniões sobre “Minha experiência profissional em gerenciamento de fazendas – por Antonio Ledesma Neto”

  • Ronaldo Carneiro Teixeira - 03/09/2017

    Parabéns. Muita informação valiosa em um texto curto e didático.

    • Toninho Ledesma - 16/09/2017

      Obrigado Ronaldo. Um grande abraço

  • Antonio Celso Barbosa Lopes - 05/10/2017

    Excelente, conciso e preciso . Vamos replicar aos associados da Aprova , isto é se for permitido.

Deixe seu comentário

Todos os campos são obrigatórios


ou utilize o Facebook para comentar