Manejo racional: controle de procedimentos de pré abate

Anos atrás, quando começamos a auditar plantas frigoríficas para manejo racional, as plantas estavam satisfeitas em fazer a auditoria e voltar logo ao trabalho. É ao mesmo tempo fascinante e gratificante ver como a aceitação e o interesse em manejo humanitário aumentou, o que Temple Grandim descreveu como uma chegada ao ponto de desequilíbrio (the tipping point).

Produtores e processadores agora empregam uma variedade de controle de procedimentos para assegurar que os bovinos recebam o cuidado necessário para produzir carne com qualidade superior. Uma mudança drástica na palatabilidade da carne pôde ser notada durante minhas duas visitas este ano ao Brasil.

Como é de costume, eu fui servida de carne bovina em churrascarias e jantares. A carne estava macia e saborosa, muito diferente da que o Brasil produzia há dez anos atrás. As mudanças na qualidade da carne podem ser atribuída às diversas melhorias que os produtores brasileiros tem feito. Essas mudanças incluem a implantação de fortes programas de manejo racional. Esse artigo irá resumir alguns dos muitos controles de processos de produção e de abate que podem ser implantados no manejo racional garantindo o aumento da qualidade da carne.

Uma das últimas inovações para melhorar a produção do rebanho é o uso de sombras nas fazendas e nos currais de espera dos frigoríficos. Um estudo da Universidade da Califórnia, em Davis indicou que o oferecimento de sombra adequada em toda a vida do animal, aumenta a eficiência alimentar, reduz o escurecimento da carne e melhora sua qualidade. A vantagem financeira é de aproximadamente US$ 18 por animal.

As atividades de manejo racional são consideradas Bem Estar Animal, mas de maneira geral, elas também tem um grande sentido nos negócios. As fotos a seguir mostram como o sombreamento pode ser implantado em confinamentos e no curral de espera, a fim de prevenir o estresse pelo calor e melhorar o conforto dos animais.

Foto 1. Sombreamento em confinamento


Foto 2. Sombreamento e semi-confinamentos


Foto 3. Sombreamento em currais de espera de frigoríficos


O manejo racional começa dentro da fazenda. No Congresso Internacional da Carne, este ano em São Paulo, um produtor me contou que o rebanho brasileiro é tratado de forma humanitária, já que 95% é alimentado por pastagens e criado de forma extensiva. Esta oportunidade de viver livremente nas pastagens, como é da sua natureza, vem de encontro com as expectativas do bem estar animal. Entretanto, também é importante o manejo racional durante os trabalhos de identificação do animal, reprodução, vacinação e embarque.

Um dos pontos mais críticos no manejo é acostumar os animais com os humanos e certificar-se que o gado veja os homens no chão e não apenas quando eles estão em cima de um cavalo. Qualquer interação com os humanos deve ser calma, sem agitação e sem estresse. Se houver gritaria, agressões durante as rotinas de vacinação ou o uso de choque elétrico, os animais terão medo dos humanos e esse medo tornará o manejo mais difícil.

O curral deve ser projetado de modo que o chão seja antiderrapante, para que os animais se sintam seguros enquanto se movimentam e com poucas distrações. Eliminando as distrações, os animais irão entrar no curral livremente sem medo e sem esforço. Quando os animais lembrarem que o manejo foi calmo e a experiência positiva, eles irão ter maior confiança nos tratadores.

Os frigoríficos estão começando a medir a excitabilidade dos animais para dar um retorno aos produtores sobre os animais que tiveram dificuldade de manejo, por não estarem acostumados com pessoas. Animais nervosos tem uma zona de fuga maior (flight zone). Freqüentemente, eles irão correr para longe do tratador e em alguns casos, o animal fica tão apavorado que se joga de encontro com a cerca na tentativa de fugir. Essas atitudes dos animais podem resultar em hematomas ou fraturas. Os frigoríficos preferem animais mais calmos e podem penalizar carcaças de animais nervosos que apresentarem hematomas, carne escura ou ossos quebrados.

Mantendo os animais calmos, primeiramente acostumando-os aos humanos e depois com um manejo tranqüilo nos frigoríficos, o processo de abate será mais organizado. Os animais irão entrar no box de insensibilização calmos, e será mais fácil para o operador insensibiliza-lo. Auditores de bem estar animal revisam os currais de espera e a operação de atordoamento para observar o temperamento dos animais e reconhecer aqueles que são mais calmos e mais acostumados com o manejo.

Observando as cabeças dos animais após o abate, o frigorífico pode rapidamente determinar se os animais estavam calmos durante a operação. Muitas indústrias estão utilizando um mapa (foto 4) para registrar o local da introdução do dardo cativo. Em situações onde os animais estão calmos, o operador é bem treinado e o equipamento funciona adequadamente, a chance de se acertar o local correto do dardo é de 95%. Mapeando o local da introdução do dardo cativo, o frigorífico pode analisar se o gado está sendo manejado e insensibilizado corretamente.

Foto 4. Mapeamento do local de introdução do dardo cativo


Se os resultados dessa avaliação indicarem que houve variação no local de acerto ou se foi preciso utilizar mais de um golpe para insensibilizar o animal, ações corretivas devem ser tomadas para melhorar a eficiência da insensibilização. Essas ações incluem treinamento do operador, melhorias no manejo dos animais e talvez mudanças para facilitar o manejo (providenciar piso antiderrapante e reduzir possíveis distrações).

Oferecer um retorno do resultado dessa avaliação ao operador pode melhorar a acurácia do golpe de insensibilização. Também, alguns operadores podem informar em quais animais foram necessários dois golpes e qual a razão para isso. Esses dados podem ser utilizados pelo frigorífico para determinar quando é necessário mudar o processo ou se são necessárias ações corretivas.

Um exemplo de como esse processo é útil para o frigorífico ocorreu no Canadá. O frigorífico registrou a facilidade de movimento de cada lote e a quantidade de uso de choque elétrico requerida. Um dia, a empresa percebeu que os animais estavam mais agitados do que o normal. Uma investigação determinou que haviam colocado uma divisória de plástico perto do curral de espera. O plástico estava sacudindo e assustando os animais. Esse plástico foi rapidamente substituído por uma madeira compensada e os animais ficaram mais calmos, se movimentando calmamente nos corredores.

Foto 5. Relatório para monitoramento da facilidade de movimentação dos animais e utilização de choque elétrico


Um outro fator importante para a insensibilização adequada é a manutenção do equipamento. Para pistolas pneumáticas é importante manter as mangueiras de ar secas a fim de manter o bom funcionamento. Muitos frigoríficos registram a pressão do ar no início das operações e durante o dia. As mangueiras de ar são abertas durante os intervalos, para remover qualquer excesso de umidade e esse procedimento é registrado em um documento diário

Foto 6. Registros da pressão do ar durante as operações


Foto 7.Válvulas para limpeza das linhas de ar e compressores


Os compressores de ar devem ser independentes e fornecer ar exclusivamente para a pistola pneumática, não é recomendado compartilhar as mangueiras de ar com qualquer outro equipamento. O compressor de ar deve ser limpo semanalmente a fim de remover a umidade. Alguns compressores possuem válvulas automáticas para remoção rotineira da umidade.

Os filtros dos compressores devem ser substituídos freqüentemente com a anotação da data da troca. A pressão do ar deve ser ajustada de acordo com a sugestão do fabricante. O medidor da pressão do ar deve estar localizado perto do equipamento, para registrar a pressão recebida pela pistola. Os registros de manutenção do frigorífico deve refletir os resultados das manutenções e medições das mangueiras de ar, compressores e pistolas.

Foto 8. Medido de pressão do ar da pistola pneumática


Foto 9. Registros de manutenção da pistola pneumática


Os equipamentos devem ser habitualmente desmontados e inspecionados para assegurar que a pistola esteja em boas condições de uso. Algumas partes devem ser limpas e lubrificadas de acordo com as instruções do fabricante. Os cartuchos devem ser mantidos limpos e secos a fim de previnir que a umidade interfira no disparo, causando tiros fracos ou falhos. O operador ou a pessoa responsável pela manutenção da pistola deve anotar todas operações de manutenção e reparos realizados.

Foto 10. Manutenção da pistola pneumática


Foto 11. Separação de cartuchos novos e usados


Os auditores irão revisar essa informação juntamente com os relatórios de performance da pistola. Muitos fabricantes de pistolas fazem testes para medir a performance da arma e assegurar que ela tenha perfeitas condições de trabalho. O frigorífico deve testar a pistola todo final de expediente ou na manhã seguinte, após a manutenção, e os resultados dos testes devem ser anotados nos registros de manutenção.

Em muitas visitas a frigoríficos, a auditoria inicial de manejo racional indica resultados ruins em relação à eficiência da insesibilização. Freqüentemente, as principais causas são a umidade dos cartuchos e das mangueiras de ar ou falha na manutenção da pistola. Com a implantação de programas de manutenção e reparos, essas indústrias rapidamente conseguem melhorias na insensibilização dos animais.

O último ponto a ser discutido são os hematomas nos animais. É importante examinar as carcaças dos animais, após a retirada do couro para procurar hematomas. As causas dos hematomas podem ser muitas:

• Contusão durante o transporte ou no desembarque (ex; as portas dos caminhões não abrem totalmente durante o desembarque, ou a porta cai sobre o animal enquanto ele está saindo).
• Portões muito pesados podem contundir a paleta, costela, lombo e anca.
• Bater as portas do box de atordoamento na paleta, costas e lombo do animais.
• Compressão da paleta ou costelas nos troncos de contenção.

Devemos examinar as carcaças e procurar por sinais de contusão. Geralmente, pela avaliação dos locais de contusão e número de contusões por carcaça e diário o frigorífico pode identificar e eliminar a causa. A foto 14 mostra uma porteira de segurança no corredor de acesso dos animais que possui um contrapeso evitando que ela bata de forma brusca e barulhenta. A foto 15 mostra rolamentos que devem ser colocadas na porteira para evitar batidas do portão nos animais e tornar mais fácil sua entrada.

Foto 12. Contusão causada pela porta do box de insensibilização


Foto13. Contusão causada durante o transporte


Foto 14. Porteira com contrapeso para evitar batidas violentas


Foto 15. Porteira com rolamentos para evitar batidas e tornar o acesso mais fácil


Pela avaliação dos animais e dos procedimento de rotina, medindo os processos e analisando os resultados, o frigorífico pode assegurar consistência no manejo animal e eficiência na produção. Os controles de processos ajudam a facilitar a melhora contínua. Assim, consumidores, especialistas em bem estar animal e frigoríficos ficarão satisfeitos com o tratamento humanitário dos animais.

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