Henrique Prata, o peão que salva vidas

Henrique Prata em uma das alas do complexo: “O hospital era a minha missão” (Ricardo D’Angelo/Veja SP)

O pecuarista paulistano Henrique Prata, presidente do Hospital de Câncer de Barretos, a 430 quilômetros da capital,  levantou o maior e um dos melhores centros de tratamento contra o câncer do Brasil, com atendimento gratuito — e pelo qual não ganha nem um centavo.

O complexo de saúde em questão é composto de três unidades com dezenove pavilhões em uma área de 120 000 metros quadrados. Há ainda oito filiais no interior paulista e em Mato Grosso do Sul, Rondônia, Bahia e Sergipe. Juntas, elas são responsáveis por 830 000 atendimentos por ano a pacientes de 2 000 municípios, dos quais cerca de 9 000 são da capital e da Grande São Paulo.

Dono de 30.000 cabeças de gado e de seis fazendas no norte do país, todas com nome de santo, como Tiago e Pedro, ele possui um patrimônio de mais de 260 milhões de reais. Já atuou como peão de rodeio, estudou só até os 15 anos e tem pavor de sangue e cirurgia.

Parte das despesas, incluindo cirurgias e salário dos profissionais, é bancada pelo SUS. Eventos e doações feitas por empresários e artistas complementam o orçamento da entidade. A nona unidade, em Campinas, deve ser inaugurada no próximo dia 18. Outras duas estão em construção, no Acre e no Amapá, com abertura prevista para 2018.

A equipe de 500 médicos tem especialização nas melhores instituições do mundo — entre elas, a Agência Internacional para Pesquisa sobre Câncer (Iarc), na França. Eles trabalham com equipamentos e procedimentos de ponta, como o dispositivo PET/CT (tomografia por emissão de pósitrons) e a cirurgia por robótica (o hospital foi o primeiro de atendimento gratuito do país a adquirir a aparelhagem, em 2014).

Essas qualidades contribuíram para que a fundação fosse reconhecida no exterior e obtivesse parceiros de peso como o MD Anderson Cancer Center e o St. Jude Children’s Research Hospital, nos Estados Unidos, considerados os maiores centros oncológicos do mundo. Tudo em Barretos é monitorado por computadores de última geração.

Uma das alas do Hospital de Câncer de Barretos (Ricardo D’Angelo/Veja SP)

A fundação também investe pesado em programas de prevenção entre a população atendida, com exames periódicos e diagnóstico precoce, sobretudo de tumores na mama e no útero. “Graças a essas ações, não registramos nem um caso sequer de câncer avançado na região de Barretos há cinco anos.”

Pelo trabalho, ele recebeu um certificado de qualificação do instituto holandês National Expert and Training Centre for Breast Cancer Screening (LRBC), renomada instituição de prevenção de câncer de mama no exterior.

Nascido no Jardim Europa, Zona Oeste da capital, Prata mudou-se para o interior paulista aos 4 anos, porque seus pais, médicos formados pela USP, queriam montar um hospital de tratamento de câncer em um lugar onde não houvesse atendimento adequado. Ele, no entanto, não quis seguir essa carreira.

Preferiu ficar ao lado do avô, fazendeiro bem-sucedido. Aprendeu, ainda adolescente, a negociar, comprar e vender gado. Nos anos 80, adquiriu terras desvalorizadas no norte do país e as transformou em fazendas lucrativas de gado de corte. Seu rendimento vem dessa produção.

Prata em seu rancho (Ricardo D’Angelo/Veja SP)

O hospital de seus pais, o São Judas Tadeu, foi aberto em 1962, em Barretos. Em 1989, no entanto, o negócio tinha acumulado tantas dívidas que a família decidiu encerrá-lo. Prata foi o escolhido entre os cinco irmãos para cuidar do fechamento do hospital. Mas, depois de conversar com médicos e sonhar, em uma noite, com a planta de um novo centro de saúde, mudou completamente de ideia.

“Percebi que pôr esse projeto de pé era minha missão.” O rapaz convenceu os pais a tentar sanar o empreendimento e passou a realizar festas e leilões de gado a fim de angariar fundos para quitar dívidas e ampliar as instalações. Aos poucos, conseguiu persuadir fazendeiros da região a fazer doações e, em 1991, inaugurou a primeira ala do complexo.

Um contratempo envolvendo Chitãozinho e Xororó, naquele mesmo ano, que o fez enxergar uma oportunidade. Os cantores foram à cidade para fazer shows por dias seguidos durante a Festa do Peão de Barretos.

Ao lado de Chitãozinho e Xororó no lançamento de seu primeiro livro, ‘Acima de Tudo o Amor’ (Arquivo Pessoal/Veja SP)

O pecuarista ficou sabendo que Xororó não gostava de dormir fora de casa. A intenção do cantor era voltar para Campinas, onde mora, após a apresentação, e retornar a Barretos no dia seguinte. Mas, na hora em que o espetáculo terminou, o aeroporto local estava fechado e seu avião não pôde decolar.

“Enquanto o Xororó estava bravo e angustiado, fui negociar com o empresário da dupla. Disse que conseguiria a abertura do lugar, e a única coisa que pediria em troca era uma visita ao hospital.”

Os músicos toparam. Prata cumpriu o combinado e, na manhã seguinte, cobrou a promessa. Os dois ficaram impressionados com o que viram e, a partir de então, começaram a fazer shows beneficentes para contribuir para a entidade.

Os sertanejos tornaram-se “embaixadores” de Barretos e instigaram outros artistas a se engajar na causa. Entre eles está a apresentadora Xuxa, que começou a ajudar na década de 90 e hoje é uma das maiores colaboradoras da instituição.  Depois disso, vieram outros famosos, como Ivete Sangalo, Victor e Leo, Gugu Liberato e Fernando e Sorocaba.

 

Henrique Prata e Xuxa, uma das maiores colaboradoras da instituição (Arquivo Pessoal/Veja SP)

Nos últimos anos Prata vem se dedicando a buscar parcerias internacionais para o hospital. Passou a viajar com médicos do complexo para visitar entidades de saúde e possíveis investidores nos Estados Unidos, Canadá, Japão e Europa. Com isso, obteve alguns financiamentos para ampliar e equipar suas instalações e fechou convênios com institutos de pesquisa.

Nessas viagens, aproveitou para ir atrás de celebridades que admirava. Uma delas é o cantor country americano Garth Brooks, seu maior ídolo. Prata embarcou em 2011 para Las Vegas, onde o astro faria um show, e ficou à porta do camarim esperando para conversar com ele. Como não fala inglês, levou seu filho caçula, Antenor, para servir de intérprete.

“O Garth questionou o motivo de o ter escolhido. Respondi que admirava o trabalho de caridade que ele fazia nos Estados Unidos. Falei ainda que ele era melhor que o Michael Jackson, o Elvis Presley e os Beatles.” O discurso acabou, de alguma forma, conquistando o músico.

O cantor veio ao Brasil em 2015, apresentou-se na Festa do Peão de Barretos e arrecadou 6,4 milhões de reais para a fundação. Prata presente também obter apoio da cantora Beyoncé.

Queridinho dos famosos, Prata também cultivou desafetos em sua trajetória, sobretudo para cobrir os custos altíssimos da megainfraestrutura da instituição, de 35 milhões de reais por mês, somando-se todas as unidades. Hoje, 14 milhões desse montante são bancados pelo SUS graças às parcerias com os governos, mas nem sempre foi assim.

O pecuarista teve de bater de frente com vários políticos para obter os financiamentos necessários.

Em 2016, Prata conseguiu incluir suas filiais paulistas no SUS ao fazer o pedido diretamente ao governo federal. Hoje, sua batalha é com o Ministério da Saúde.

“O centro de Porto Velho, em Rondônia, atende 700 pacientes por dia há seis anos, e até agora não consegui o credenciamento dessa unidade.”

“Apoiamos a iniciativa de Barretos”, afirma o ministro Ricardo Barros. “Nesse caso específico, estamos aguardando definições por parte do governo de Rondônia para aprovar o processo de habilitação.”

O pecuarista também administra uma faculdade de medicina, aberta em 2011, em Barretos, chamada Dr. Paulo Prata (em homenagem a seu pai), apresenta um programa semanal na Rede Vida, Acima de Tudo, o Amor, no qual dá dicas sobre gestão hospitalar, e tira ao menos uma semana por mês para visitar suas fazendas, a bordo de seu jato, um Cessna Citation, que ele mesmo comanda (é piloto comercial há mais de quarenta anos, com 15 000 horas de voo).

Sua nova empreitada é o lançamento de seu terceiro livro, a autobiografia A Providência, pela Editora Gente, no próximo dia 18, que conta a história de sua família. “Meus antepassados eram muito cristãos e humanistas. Eles me levaram ao caminho que optei por seguir, ajudando as pessoas.”

No futuro, ele pretende auxiliar ainda mais gente. Tanto é que ele acabou de assumir a gestão da Santa Casa de Misericórdia de Barretos. “Já tenho tudo o que quero na vida pessoal. Como descobri que meu talento para os negócios pode salvar vidas, é isso que quero continuar fazendo cada vez mais.”

Fonte: VEJA São Paulo, resumida e adaptada pela Equipe BeefPoint.

3 opiniões sobre “Henrique Prata, o peão que salva vidas”

  • karinne Oliveira Meneses - 04/07/2017

    Parabéns pelo ótimo trabalho!

  • Ricardo Leitao Camargo - 07/08/2017

    O Hospital de Barretos é um ambiente de sofrimento porém o amor que os funcionários médicos enfim todos que lá trabalham dedicam aos pacientes fazem com que essa dor e sofrimento seja extremamente amenizado , por isso esse Hospital é conhecido como o Hospital do Amor

  • Ricardo Leitao Camargo - 07/08/2017

    Pena não existir mais Pessoas como Henrique Prata

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