Como enfrentar a crise da Carne Fraca (parte 1)

Os últimos dias foram intensos e cheios de viagens.

Estive nos EUA por quase uma semana, para uma reunião de mastermind, e estava por lá durante o início da crise Operação Carne Fraca.

A notícia realmente correu o mundo.

Pessoas de fora do agro, vinham me perguntar no evento nos EUA, sobre as denúncias, sobre o caso.

É verdade, nossa imagem ficou arranhada mundo afora.

Dos EUA, voltei para São Paulo, e em seguida já fui para Uberlândia, fazer uma palestra e moderar uma sessão de palestras no famoso evento Novos Enfoques, que é realizado há 21 anos seguidos pelo Prof. Zequinha.

Casa cheia, cerca de 1.800 pessoas participavam dos dois auditórios (carne e leite) com dezenas de palestras.

Em Uberlândia, percebi mais a fundo os impactos que a Operação Carne Fraca está causando no nosso setor.

– paralização
– medo
– incerteza
– pânico
– raiva
– prejuízo
– sentimento de injustiça

Tudo isso eu vi nas pessoas que vinham me perguntar sobre os impactos dessa crise no nosso negócio.

Esse é o primeiro texto que escrevo sobre o assunto, depois de ler muito sobre o que está acontecendo.

Nossa equipe está produzindo um compilado (resumido e completo) sobre os acontecimentos. Link completo e atualizado constante aqui.

Tem inclusive observações muito sensatas do nosso querido Prof. Pedro de Felício.

Pedi inclusive que preparassem um material sobre o JBS nessa operação, pois não estava claro sobre o envolvimento da empresa. Você pode ler o texto completo aqui.

Vale a pena ler a análise da MB Agro sobre o caso, e seus possíveis impactos na exportação. Link aqui.

Pontos importantes:

– nenhuma das denúncias trata sobre carne bovina, em especial carne bovina in natura (apesar de grande parte das reportagens colocar fotos de carne bovina).

– as denúncias são principalmente sobre produtos processados e embutidos, em especial de suínos e aves.

– a pecuária é um negócio muito importante para o Brasil, e os impactos estão comprovando essa importância

– carne bovina in natura é um alimento muito nobre, nutritivo e rico

– alimento é algo sagrado, é o que damos aos nossos filhos, e qualquer ameaça a sua segurança é muito sério (e não podemos deixar isso passar batido)

– a pecuária continua se comunicando muito mal, sem presença, sem efetividade, e muitas vezes, dando tiro no próprio pé

– não podemos tolerar ou minimizar fraudes, corrupção, e baixa segurança do alimento

Sobre a grande maioria da pecuária:

– eu faço parte da grande maioria de pessoas ligadas a pecuária, que tem orgulho do que faz, preza pela qualidade, tem seriedade, dedicação

– eu faço parte da grande maioria das pessoas ligadas a pecuária, que são honestas, trabalhadoras

Perguntas importantes, para nossa reflexão:

– como queremos ser lembrados, quando formos questionados sobre segurança?

– de que lado vamos ficar, de quem quer qualidade, segurança, honestidade?

– qual é a melhor forma de comunicarmos sobre qualidade do nosso produto, e do nosso trabalho, quando o consumidor está em dúvida?

– a pecuária de corte e a carne bovina vem sendo injustiçada nessa crise, mas como é que vamos lidar com isso?

Porque pergunto isso?

– A melhor estratégia nesse momento, na minha opinião é, nessa ordem:

1- exigir punição e investigação precisa e no ponto sobre corrupção e fraudes

2- mostrar que não somos coniventes com esse tipo de conduta

3- reforçar que a grande maioria dos produtores, profissionais e empresas fazem um trabalho muito sério, e por com base nisso conquistamos o espaço que temos hoje no mundo. Não é por acaso.

Mas inverter essa ordem enfraquece nossa posição.

O fato é que o consumidor está na dúvida. Está incerto. Está se perguntando se a carne que ele oferece a família dele é segura.

E hoje, a melhor maneira de reconquistar essa confiança, é mostrar que não somos coniventes com fraudes e corrupção.

Para que alguém acredite na mensagem, é preciso primeiro que acredite no mensageiro.

Reforçar nosso desejo de punição contra fraudes e corrupção, mesmo que isso cause prejuízos momentâneos, é essencial para sermos ouvidos pelo consumidor.

Quando cometemos algum erro, a melhor estratégia, comprovada é:

a- reconhecer que erramos

b- pedir desculpas

c- agir

Estou positivamente impressionado com as respostas do presidente Michel Temer, e do ministro Blairo Maggi.

O posicionamento e em especial ações do ministro e do presidente foram rápidas e poderosas. Hoje chega a notícia de que a China reabriu as exportações, e que Hong Kong deve reabrir na segunda.

Mas, infelizmente, as respostas das duas grandes empresas envolvidas no escândalo, JBS e BRF, deixaram a desejar na minha opinião.

As declarações foram vagas, e pouco precisas. Ficou com um ar de “não é bem assim”. Se você analisar as respostas, e comentários de consumidores, não “colou”.

Por serem grandes empresas, e terem um grande aparato de comunicação e relações públicas, eu tinha alta expectativa em relação a qualidade das respostas e posicionamento.

Por fim, quero te convidar a:

– relembrar nosso propósito de produzir alimentos de alta qualidade e seguros. Reforce, reviva, celebre isso.

– pense sobre suas ações hoje e como você vai se lembrar delas daqui 10 anos, como você vai contar sobre esse episódio para seus netos.

E uma recomendação importante:

– não entre em pânico

– não leve para o lado pessoal

– reclamar não traz resultados, e ainda detona com sua energia e capacidade de trabalho

– exercite sua resiliência e capacidade de ficar calmo e sereno na adversidade

– não compre e venda com base no medo, notícias sem fonte ou boatos

– não se deixe iludir pelos mercadores do desespero

– aguarde, analise, reflita, pratique o pensamento acurado

No próximo email, escrevo sobre gestão de riscos do preço do boi e reposição em momentos de crise.

Vamos que vamos!

Conte comigo.

Abraços, Miguel Cavalcanti


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