Cientistas brasileiros desenvolvem rebanho musculoso com 10% a mais de carne

Numa fazenda de Araçatuba, em São Paulo, vive o primeiro rebanho de uma variedade brasileira de nelore nascida com a promessa de aumentar a produtividade e reduzir os custos ambientais da pecuária de corte.

Parte do doutorado do veterinário Rodrigo Alonso, o estudo é resultado de 12 anos pesquisas. Uniu seus conhecimentos sobre nelore com o que se sabia a partir dos testes genéticos do pesquisador Amílcar Tanuri, professor da UFRJ e co-orientador do doutorado de Alonso no Departamento de Reprodução Animal da USP.

Foto: Facebook

Alonso explica que a supermusculosa variedade, batizada de Nelore Myo, é mais produtiva porque tem mais carne – e carne mais macia.

“O que o consumidor chama de músculo é o corte de menor qualidade, das partes mais duras do animal, mas isso não é o correto. Para o produtor, músculo é toda a carne. No caso da Nelore Myo, ela também é muito mais macia porque há menor deposição de colágeno. Há ainda aumento das carnes nobres do traseiro.”

Um nelore em ponto de abate pesa cerca de 500 quilos. Desse total, em torno de 265 quilos são carne e osso, as partes efetivamente pagas pelos frigoríficos. No Nelore Myo, chega-se a 300 quilos de carne e osso.

“Passamos de 53% a 55% para 60%, em termos de aproveitamento. No primeiro abate técnico, houve um ganho de três arrobas. Pela cotação atual do boi gordo, isso dá um ganho extra de R$ 365 por animal. O Nelore Myo parece mais pesado, mas ele tem mais massa magra, muscular. Por isso, tem mais carne com o mesmo peso.”

Os pesquisadores destacam que a maior produção por animal significa ganho ambiental.

Foto: Facebook

“Você reduz a necessidade de mais pastagens. A pecuária brasileira é muito improdutiva. O que propomos é aumentar a produção sem aumentar pastagens”, salienta Tanuri.

Os dois pesquisadores deram ao nelore as características e o porte do gado de corte europeu, que é mais produtivo, mas incapaz de se adaptar ao clima tropical da maior parte do Brasil. O nelore, originário da Índia, está mais do que em casa por aqui, representando cerca de 80% das 200 milhões de cabeças de gado de corte locais.

Resistente e bem adaptado, ele ganhou porte atlético graças a uma mutação que normalmente não apresenta, no gene da miostatina, associado ao desenvolvimento muscular. Essa modificação pode ocorrer naturalmente em todos os vertebrados, de seres humanos a peixes. Ela confere uma aparência extremamente musculosa e já foi identificada em crianças que nascem muito fortes. Com a mutação, a miostatina não inibe o crescimento de músculos e confere a seus portadores a chamada dupla musculatura.

Vacas de raças europeias, em especial a belgian blue, foram selecionadas por terem essa mutação e serem muito musculosas.

“A belgian blue, assim como outras semelhantes, não se adapta ao clima do Brasil. Se fôssemos fazer somente a seleção tradicional por cruzamentos pouco específicos, levaríamos cerca de 30 anos para chegar ao resultado que obtivemos em 12”, explica Alonso.

A primeira etapa foi cruzar o nelore com a belgian blue, por inseminação artificial. Com testes genéticos, selecionaram os filhotes que tinham a mutação e estes foram usados para a reprodução. A partir daí, somente embriões de nelore com mutações foram escolhidos.

“Após cinco gerações, obtivemos animais que são quase 100% nelore, mas têm a mutação. Eles já nascem mais musculosos”, diz Alonso.

Hoje o rebanho de Nelore Myo tem cerca de 500 animais de diferentes idades e graus de pureza nelore, todos com a mutação.

“Cinquenta bezerros já são da quinta geração, 100% nelore e com a mutação. Há também 20 mil doses de sêmen para distribuir para produtores interessados no projeto.”

Fonte: O Globo, resumida e adaptada pela Equipe BeefPoint.

14 opiniões sobre “Cientistas brasileiros desenvolvem rebanho musculoso com 10% a mais de carne”

  • José Carlos de Souza Crespo Neto - 12/07/2017

    ja existem exemplares a venda ? como faço para fazer uma visita a esta fazenda para poder conhecer o Nelore Myo?

    • Rodrigo Alonso - 13/07/2017

      Boa noite! Meu nome é Rodrigo Alonso. Sou um dos pesquisadores responsáveis pelo Nelore Myo. Ainda não temos exemplares adultos à venda. Mas temos 20.000 doses de sêmem que serão distribuidas para os criadores que fizerem parte do nosso programa. Também podemos multiplicar a genética atravez de transferência de embriões. Será um prazer recebê-lo em nossa fazenda. Estamos em Araçatuba/SP. Por favor, envie seus contatos para neloremyo@gmail.com que nossa equipe técnica entrará em contato com você. Um grande abraço! Rodrigo

  • Dyogo Rodrigues Ribeiro - 13/07/2017

    Bom dia
    Meu nome é Dyogo Rodrigues Ribeiro, sou zootecnista, moro atualmente em Morrinhos e gostaria de fazer parte deste processo de seleção de animais nelore com musculatura diferenciada. Como pode ser feito para eu poder ingressar neste projeto?

  • Sulu - 13/07/2017

    Como eu digo que o animal produtivo tem que ser espandido p que os custos de emgorda diminua para pecuária brasileira

  • Rodrigo Alonso - 13/07/2017

    Sou Rodrigo Alonso, pesquisador responsável pelo Nelore Myo. Para mais informações, favor escrever para neloremyo@gmail.com
    Obrigado!!

  • Jeferson de Araujo - 14/07/2017

    Boa noite! Rodrigo tenho um plantel de 400 fémeas Nelore para produção de bezerros,como poderia obter um ganho no meu caso,os touros na vacada são P.O selecionados,qual seria sua sugestão para meu caso? Obrigado,bom trabalho para vc!

    • Rodrigo Alonso - 17/07/2017

      Olá Jeferson, pelo que eu entendi, seu negócio é produzir bezerros de corte para venda na desmama, certo? Atualmente usa touros Nelore PO na vacada. Você já faz IATF? Onde fica a fazenda? Temos uma boa proposta para te fazer usando nossa genética. Nos mende seus contatos por favor. Abraços!! Rodrigo Alonso

  • Modesto - 14/07/2017

    Boa noite,
    Sabidamente a eficiência reprodutiva é o mais importante fator a considerar em um rebanho produtor de carne.A raça Blue Belgian é famosa por partos distócicos e necessidade de cesarianas para viabilizar partos. Estas características não aparecem nestes animais da linhagem Nelore Myo?

    • Rodrigo Alonso - 17/07/2017

      Olá Modesto. Suas observações são muito pertinentes. Estamos avaliando a fertilidade e a facilidade de parto e peso ao nascimento dos bezerros há mais de 4 gerações. Os animais heterozigotos (que é o que vamos produzir a campo) nascem com média de 37Kg, 5Kg acima do Nelore Padrão que tem média de 32Kg. Não tivemos problemas de parto com bezerros heterozigotos. Temos muita segurança em levar isso para o rebanho dos nossos parceiros.

  • Diego Rodrigues Pereira - 18/07/2017

    Como faço para ter acesso a esse sêmen?

  • José Henrique - 18/07/2017

    Gostaria de conhecer esse trabalho.

    • José Henrique - 18/07/2017

      Sou de Piacatu – Sp estou bem próximo de Araçatuba.

  • Joaquim Carlos Lacerda - 19/07/2017

    Parabéns Rodrigo e a todos os cientistas responsáveis pelo Nelore Myo
    É de pessoas como vocês que o Brasil precisa
    Vocês conseguiram um ganho de carcaça mantendo o padrão racial do nelore
    Esse é o futuro desta raça

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