-A +A

Pegada Hídrica e a produção de bovinos de corte

Em qualquer fórum nacional ou internacional em que esteja sendo discutida a competitividade da agropecuária brasileira, o recurso natural que aparece como grande diferencial de competitividade é a água. A América do Sul e o Brasil são ricos nesse recurso natural. Preservá-lo e conservá-lo em quantidade e qualidade é estratégico para a manutenção da competitividade e para a sustentabilidade de nossa produção de proteína animal.

Historicamente, a relação da produção animal brasileira com a água é de exploração do recurso. Isso se deve à perpetuação da ideia de que o país é rico em água, por isso, ela nunca irá faltar. Essa ideia não é totalmente verdadeira.

Possuímos muita água, mas grande parte dela está na região Norte do país (Bacia Amazônica). Portanto, já temos diversos conflitos pelo uso da água, pois a necessidade dos usuários é maior do que a oferta de água em determinadas regiões.

Com o objetivo de reduzir esses conflitos é que a Política Nacional de Recursos Hídricos, instituída em 1997, traz como um de seus instrumentos de gestão a outorga de direito de uso. De acordo com a Agência Nacional de Águas (ANA), esse instrumento tem como objetivo assegurar o controle quantitativo e qualitativo dos usos da água e o efetivo exercício dos direitos de acesso aos recursos hídricos.

Uma pergunta simples, mas ainda difícil de ser respondida é: quanto de água consome meu rebanho? Essa resposta deve ser dada pelo produtor, por exemplo, no momento em que ele for requerer sua outorga. Uma pergunta ainda mais difícil e que começa a ser feita pela sociedade e por aqueles que têm como missão gerenciar os recursos hídricos é: quanto de água se consome para produzir um quilograma de carne?

Estudos com o objetivo de responder a essas perguntas começaram a ser feitos nos últimos anos. Existem vários métodos que podem ser utilizados. Um dos que têm tido maior aceitação pela comunidade científica e governos e destaque na mídia é o método da pegada hídrica.

A proposição de cálculo da pegada hídrica surgiu no início do século (2001/2002). Ela foi proposta pelo pesquisador Arjen Hoekstra, da Unesco, sendo aprimorada por pesquisadores da Universidade de Twente, na Holanda. Atualmente, grande parte dos estudos é feita pela Water Footprint Network.

A essência do cálculo da pegada hídrica é a mesma que já vinha sendo desenvolvida pelas pegadas ecológica e de carbono: entender os sistemas de produção como elos de uma cadeia produtiva que se inicia na geração de insumos e termina na oferta de produtos ao consumidor.

Esse tipo de entendimento significou uma ruptura em relação à visão ambiental vigente naquele momento e ainda hoje. Entendia-se que o manejo ambiental deveria ser feito da porteira para dentro. Essa visão não é adequada, pois a propriedade sempre se relacionou com o entorno, com a região e com o território.

Por exemplo, uma propriedade que capta água de um rio que passa por ela se relaciona com tudo que estiver à montante (acima) no rio – o uso que está sendo feito pelos usuários acima irá determinar a quantidade e a qualidade de água dessa propriedade; se uma propriedade utiliza insumos nutricionais produzidos em outra região com escassez hídrica, esses insumos terão maior custo e sua oferta diminuirá; uma propriedade que compra animais de outra está comprando água na forma de animal, pois a maior parte de qualquer ser vivo é água.

Esse é o principal motivo do conflito que a divulgação da pegada hídrica da carne bovina causou no setor pecuário brasileiro e mundial – trata-se de uma nova forma de entender a cadeia de produção. O problema é que essa novidade não foi explicada para o setor produtivo e para a sociedade. Simplesmente, foram divulgados altos valores.

Divulgou-se que para produzir um quilograma de carne bovina são consumidos 15.500 L/kg/carne. Mas não foi divulgado que para se chegar a esse número o sistema produtivo padrão foi: sistema industrial, média de três anos para o animal ser abatido e produzir 200 kg de carne. Nesse sistema o animal consome: 1.300 kg de grãos, 7.200 kg de volumosos, 24 m3 de água de bebida e 7 m3 de água para serviços.

Por quilograma de carne: 6,5 kg de grãos, 36 kg de volumosos e 155 litros de água. Vê-se que o sistema tido como padrão não representa o padrão brasileiro. Os autores do método sempre reforçam que os valores obtidos com o cáculo da pegada hídrica não devem ser comparados, pois a água tem um forte componente local, ou seja, o entendimento do valor deve estar relacionado à oferta hídrica da região produtora.

Para Chapagain & Hoekstra (2003; 2004), a pegada hídrica das atividades pecuárias varia muito entre países e sistemas de produção. O sistema de produção é altamente relevante para o valor da pegada, composição e distribuição geográfica desta. Da mesma forma, o país em que o produto é feito influencia o valor.

O Brasil deve ter estudos que avaliem as demandas hídricas de suas commodities agropecuárias, caso contrário, o país sempre será refém de estudos internacionais.

O cálculo da pegada considera os seguintes consumos: água para produção dos alimentos que serão fornecidos aos animais; dessedentação e serviços (limpeza e resfriamento das instalações); água necessária para diluir os efluentes da produção; água consumida no processamento e abate dos animais. O método entende consumo como: captação de águas superficiais e subterrâenas; água evaporada e transpirada na produção das culturas vegetais (processo de evapotranspiração); água que retorna para outra unidade hidrográfica que não a sua unidade de origem ou para o mar e quando está incorporada a um produto. A pegada pode ser expressa em: m3/ano/animal, m3/animal e m3/kg de produto.

O cálculo também diferencia a demanda de água verde (água da chuva, não considerando a água que escorre ou infiltra, que não é utilizada pela cultura agrícola); água azul (extraída de fontes superficiais e subterrâneas e utilizada na irrigação das culturas, dessedentação dos animais e serviços); água cinza (definida como o volume de água necessário para diluir os efluentes da atividade pecuária, considerando os padrões ambientais e legais dos corpos d´água). Portanto, a pegada hídrica é composta por componentes indiretos (água utilizada na produção dos alimentos) e diretos (água consumida na dessedentação e serviços).

É possível que a pegada seja calculada sem considerar todos essas demandas, podendo ter como “fronteira” a fazenda, a região, o Estado ou país. Portanto, na interpretação do valor deve estar claro o que foi considerado no cálculo e qual é a “fronteira”. Por exemplo, pode-se ter uma pegada de 150 L/kg de carne produzida – certamente, neste caso a “fronteira” utilizada foi reduzida, limitando-se a parte de uma fazenda. Sem esses esclarecimentos a interpretação do valor conduz a erros. A Figura 1 representa a “fronteira” de cálculo para a cadeia produtiva de bovinocultura de corte. Essa “fronteira” pode ser reduzida, considerando-se somente o cálculo da pegada do abatedouro, mas isso deve estar explícito nos resultados.

Os autores do método possuem vários estudos para as cadeias de produção animal. Na Tabela 1 observa-se a quantidade de água consumida para várias espécies e para três sistemas de produção. Os valores da Tabela 1 são médias mundiais, portanto, para calculá-los foram feitas muitas inferências e determinadas médias nacionais. Certamente, para países com dimensões continentais e diversos sistemas de produção como o Brasil, o melhor valor será aquele que considere as realidades produtivas brasileiras. Isso não invalida as médias globais, pois um dos objetivos do cálculo da pegada é atingido: explicitar a íntima relação entre produção de proteína animal e recursos hídricos.

Figura 1- “Fronteira” de cálculo da pegada hídrica na cadeia de bovinocultura de corte.

Tabela 1- Valor da pegada por categoria animal e sistema de produção (Gm3/ano).


*Sistema de produção que envolve pastejo e confinamento dos animais.
Fonte: Mekonnen & Hoekstra (2010)

Atualmente, as limitações para cálculo da pegada da pecuária de corte brasileira são:
1. Inexistência de cultura hídrica na cadeia produtiva;
2. Falta de informações para o cálculo aumenta a necessidade de inferências, as incertezas e os conflitos;
3. Pouca interação entre pecuária e agricultura;
4. Pecuária de corte, fonte de poluição pontual e difusa; por isso, é preciso dimensionar essas duas fontes para ter um cálculo mais robusto;
5. Determinação das fronteiras do cálculo (sistemas de produção e áreas geográficas);
6. Ausência de visão e políticas sistêmicas dos atores das cadeias e tomadores de decisão;
7. Aversão de alguns atores da cadeia à metodologia, portanto, baixa cooperação para trabalhos conjuntos;
8. Baixo entendimento do método pelos atores e pela sociedade;
9. Sensacionalismo da mídia na divulgação da pegada e poucas ações que visem o esclarecimento da sociedade quanto ao método.

Entende-se que o conhecimento da demanda hídrica dos vários sistemas de produção de bovinocultura de corte presentes no país é uma oportunidade para:

1. Assegurar a disponibilidade de água em quantidade e qualidade para a sustentabilidade do complexo de carnes brasileiro;
2. Internalizar a água em suas três dimensões (recurso natural, insumo e alimento) na cadeia produtiva de bovinocultura de corte;
3. Conhecer o consumo das águas verde, azul e cinza pelos diversos sistemas de produção e nas diferentes regiões a fim de facilitar a gestão desse recurso natural;
4. Promover a eficiência do uso da água e o estabelecimento de boas práticas hídricas, principalmente, nas áreas de concentração das produções;
5. Reduzir a vulnerabilidade mercadológica dos produtos brasileiros;
6. Reduzir os conflitos entre a cadeia produtiva e a sociedade e com os atores externos;
7. Detectar áreas vulneráveis, identificando onde a demanda tem o maior impacto ambiental, social e econômico;
8. Formular políticas e estabelecer metas de redução da demanda hídrica (aumento da eficiência hídrica);
9. Auxiliar na formulação de zoneamentos e programas de gestão da água;
10. Conhecer os fluxos de água virtual do complexo de carnes;
11. Identificar a dependência hídrica de outros países pela importação de nossos produtos.

Como dito, a metodologia da pegada não é a única existente para calcular a demanda hídrica de um produto. Por ser uma metodologia nova, está em construção e deve sofrer ajustes. Mas o resultado mais importante desses conflitos iniciais foi a discussão que ocorreu em torno da necessidade de água para a produção de carne. Seu aprofundamento permitirá ao setor pecuário brasileiro gerar seus próprios resultados, não ficando refém de estudos internacionais.

A avaliação da demanda hídrica traz à discussão outros conceitos que cada vez mais estarão presentes no dia a dia das produções e serão questionados pela sociedade. O conceito de produtividade de água – relação entre a quantidade de produtos e a quantidade de água utilizada para gerá-los – é o de maior importância, entendido como um indicador de desempenho hídrico da atividade.

Possuir a informação da demanda hídrica permitirá implementar ações, práticas, políticas e programas para melhorar a eficiência hídrica e, por consequência, trará segurança hídrica para o setor e o Brasil.

Evoluímos em nossos sistemas de produção e em nossos manejos reprodutivos, nutricionais e sanitários. Internalizamos novos conceitos e valores como a rastreabilidade e o bem-estar animal. Agora é o momento de darmos um novo salto, entendendo que manejar ambientalmente a atividade é conhecer os seus fluxos de nutrientes, energia e água (NEA).

O conhecimento desses fluxos proporcionará uma produção animal ambientalmente mais equilibrada, rentável e socialmente valorizada, pois a produção será entendida não como uma exploradora de recursos naturais, mas sim como uma transformadora eficiente e eficaz de elementos em alimento.

A Embrapa Pecuária Sudeste irá realizar em março de 2012 o II Simpósio Produção Animal e Recursos Hídricos – II SPARH. Um dos temas do evento será a pegada hídrica das produções animais. Informações podem ser obtidas no endereço www.cppse.embrapa.br/II-simposio-em-producao-animal-recursos-hidricos-IISPARH

Julio Cesar Pascale Palhares é Pesquisador da Embrapa Pecuária Sudeste, zootecnista formado pela Unesp, com mestrado em energia na agricultura (Unesp) e doutorado em ciências ambientais (USP). Atua na área de avaliação de impacto ambiental e manejo de recursos hídricos com bovinos de corte e de leite.

Literatura Citada

CHAPAGAIN, A.K.; HOEKSTRA A.Y. Virtual water flows between nations in relation to trade in livestock and livestock products. Netherlands: UNESCO-IHE, 2003. 198p.

MEKONNEN, M.M.; HOEKSTRA, A.Y. The green, blue and grey water footprint of farm animals and animal products. Disponível em: http://www.waterfootprint.org/Reports/Report-48-WaterFootprint-AnimalProducts-Vol1.pdf. Acesso em: jan. 2011

email

Assine nossa newsletter!

Enviar