A indústria de carne bovina pode colaborar com a sustentabilidade?

Em novembro de 2010, os principais líderes da indústria de carne bovina do mundo se encontrou em Denver, Colorado. Cerca de 350 deles: pecuaristas, confinadores, frigoríficos, processadores, atacadistas, varejistas, donos de restaurantes, acadêmicos, oficiais do governo e ativistas de todas as espécies. Sua meta audaciosa: determinar se existe um consenso comum sobre o que define “carne bovina sustentável”.

Jason Clay, que é vice-presidente sênior de transformação de mercado da WWF, foi quem convocou o evento, chamado de Conferência Global sobre Carne Bovina Sustentável. Junto com Clay na mesa redonda estavam executivos de Cargill, Merck Animal Health, JBS, McDonald’s e Wal-Mart. Cada companhia tinha uma participação multibilionária no futuro da carne bovina.

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“Havia pessoas que nunca pensaram que estariam na mesma sala juntas, muito menos conversando”, disse Clay. Porém, “uma vez que a discussão começou, ficou um pouco mais fácil.”

O evento impulsionou um diálogo em toda a indústria sobre o que significa e o que seria necessário para produzir carne bovina sustentável. Desse evento, veio uma mesa redonda global para discutir o assunto, os esboços de um padrão de sustentabilidade e confiança suficiente por parte do McDonald’s, a maior companhia de fast food do mundo, para anunciar seu compromisso nessa semana em comprar carne bovina sustentável globalmente, seguindo prinícipios e premissas alinhados em todo o mundo, começando em 2016.

O McDonald’s, junto com o restante da indústria, tem visto os fatos: alertas de saúde pública contra gordura saturada, preocupações sobre imunidade humana a antibióticos, resíduos de drogas usadas para alimentação e terapia de bovinos, protestos contra pecuária industrial e crueldade animal, surtos de encefalopatia espongiforme bovina (EEB), uma maior conscientização sobre o uso de água e energia na produção de carne bovina, a água e a poluição do ar produzidos no caminho.

“Uma das coisas que esse grupo tinha em comum era seu meio de sustento em risco”, disse a diretora de sustentabilidade e gerente da cadeia de fornecimento mundial do McDonald’s, Michele Banik-Rake. “Eles precisavam encontrar outra forma”.

Apesar do senso de urgência, encontrar soluções compartilhadas não era um caminho fácil. “A indústria de carne bovina não costuma colaborar e como existem todos esses passos diferentes, eles são todos economicamente sua própria fatia de bolo”, disse a diretora de cadeia sustentável para as operações do McDonald’s dos Estados Unidos, Jessica Droste Yagan. “Não há uma longa história deles se unindo por uma proposta comum ou entendendo quais são seus valores comuns”.

E, no entanto, isso é exatamente o que eles foram fazer em Denver. O evento de três dias foi composto de palestras e workshops de duas horas, falando sobre manejo de pastagem, medidas de pegadas de carbono, saúde e bem-estar animal, práticas pessoas, entre outros.

Houve muitas partes a serem consideradas. A cadeia de fornecimento de carne bovina é um ecossistema em expansão de participantes. “Basta olhar a forma como as organizações são criadas”, disse o diretor de sustentabilidade da JBS USA, Cameron Bruett. “Você tem uma associação de criadores. Você tem uma associação de confinadores de bovino. Você tem uma associação de frigoríficos. Raramente temos olhado para nós mesmos como uma cadeia integrada, pois somos uma indústria bastante segregada”.

Além disso, Bruett disse, existem alguns companheiros diferentes na sala. “A comunidade de Organizações Não Governamentais (ONG) nunca se uniu com essa parte da cadeia de uma maneira completamente produtiva. Ver a WWF, a Federação Nacional de Vida Silvestre e todas essas outras ONGs sentadas nessa sala com produtores, frigoríficos, varejistas, restaurantes e ter um diálogo construtivo, vê-los baixando guarda e discutindo como podemos melhorar isso”.

Uma percepção inicial do evento é que muitos na sala sentem que já são “sustentáveis”. Todo mundo estava falando alguma coisa, como técnicas de manejo de pastagem, engajamento com comunidades rurais e bem-estar animal. Como acontece frequentemente quando grupos de companhias se reúnem, de qualquer setor, cada um chegou à mesa com sua própria definição de sustentabilidade e o que seria o sucesso.

“Para muitos criadores de bovinos, a carne bovina é uma forma de vida”, explicou Bruett. “Para eles não é simplesmente um negócio. É uma operação que vem passando por gerações. Eles são administradores da terra. Eles sentem que são a personificação da sustentabilidade, mas uma vez que o animal deixa a fazenda, eles frequentemente sentem que sua participação na cadeia termina”.

Assim como os criadores, a maioria daqueles que participaram do evento em Denver não tinha olhado para todo o espectro das questões sobre sustentabilidade e carne bovina.

“Quando você fala sobre sustentabilidade com a indústria de carne bovina, você está falando sobre recursos naturais, uso da terra, da água, da energia”, disse Bruett. “Você está falando sobre o processo biológico natural do animal, porque eles são ruminantes, de forma que naturalmente produzirão metano. Você está lidando com cultivos em fileiras e como esses cultivos são manejados, particularmente em ambientes onde estamos fornecendo grãos aos bovinos nos últimos 70 a 90 dias de sua vida. Acompanhando a cadeia, você também está lidando com as pegadas ambientais dos estabelecimentos que estão produzindo o animal”.

“E então estamos agora mais ao lado do negócio desses caras”, disse ele, referindo-se aos executivos do McDonald’s sentados na sala do evento. “O que acontece com a disposição final do produto, com o desperdício de alimentos, como o produto é embalado e apresentado aos consumidores”.

A companhia de Bruett, JBS, começou nos anos cinquenta em uma pequena fazenda familiar. Seu atual diretor executivo, Wesley Mendonça Batista, é filho do fundador. Apesar do capital aberto, a família ainda tem o controle.

O JBS tem uma ampla experiência com questões de sustentabilidade em seu país de origem. Suas iniciativas de sustentabilidade, disse Bruett, foram “lideradas por nossos estabelecimentos em São Paulo e foram baseadas em várias questões, mas o desmatamento da Amazônia foi certamente uma delas. A Amazônia é um ícone cultural e essa cultura precisa ser protegida. Obtemos muitos de nossos produtos em áreas ao redor da Amazônia. Então, garantir que tivéssemos um sistema rastreável para nos certificar de que não estava sendo feito o desmatamento era uma prioridade para a família”.

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O Brasil é o segundo maior produtor mundial de carne bovina, e tem o maior rebanho comercial do mundo, cerca de 200 milhões de cabeças. O país tem mais vacas que pessoas. A Índia tem mais vacas, mas não as abate devido às restrições religiosas.

Os produtores de carne bovina do país começaram a pensar sobre carne bovina sustentável no ano de 2007, disse Daniel Boer, diretor de proteína para a América Latina do McDonald’s. Isso foi na época que o Grupo de Trabalho de Pecuária Sustentável foi formado. “O grupo de trabalho foi criado basicamente para divulgar a pressão sobre o desmatamento no norte do Brasil, na região da Amazônia”, disse Boer. Com a crescente pressão de ativistas e clientes, “a indústria criou esse grupo de trabalho para começar a falar sobre carne bovina sustentável”.

Cerca de 70% da carne bovina do Brasil fica no país. Os 30% que são exportados vão principalmente para a Europa. Os Estados Unidos proíbem a carne bovina brasileira por causa de diferenças na vacinação contra febre aftosa. No mês passado, entretanto, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) propôs abrir para importações limitadas do Brasil. Cerca de 96% de todos os bovinos brasileiros são criados totalmente a pasto durante suas vidas.

Boer disse que demorou um tempo para que os produtores participassem do grupo de trabalho. “No começo quando o grupo foi criado no Brasil, tivemos muitos empurrões dos produtores, porque eles estavam no campo e diziam, ‘você nunca veio aqui. Você não sabe como criar gado de corte e vem aqui com uma lista de verificação’. É fácil criticar e difícil produzir. Eles nos disseram, ‘nós não queremos mais uma regra. Estamos cansados’”, disse Boer. “Tivemos realmente grandes conflitos dentro do grupo de trabalho”. O grupo de trabalho tinha cinco subequipes focando em bem-estar animal, técnicas de agricultura intensiva, manejo de pastagens e outras questões.

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As questões podem ser difíceis. “O desmatamento no Brasil é legal”, explicou Boer. “E você tem diferentes biomas, o bioma Amazônia, o bioma Pantanal, onde você tem diferentes leis para desmatamento. Dentro do bioma Amazônia, por exemplo, você pode desmatar 20% de sua terra de acordo com a lei. Você precisa manter 80% de sua terra como floresta, mas o Greenpeace está pressionando por desmatamento zero”.

À medida que o grupo deu continuidade a seu trabalho, as atitudes foram mudando. “Temos associações de produtores que viram o futuro”, disse Boer. “Eles viram que isso trará benefícios a eles e estão realmente engajados. Eles perceberam que a sustentabilidade é importante para promover a carne bovina brasileira e ter acesso a mais clientes”.

Boer citou a história de sucesso de um fornecedor de carne bovina do McDonald’s no estado brasileiro do Mato Grosso, uma das principais áreas de produção pecuária. “Você vê uma propriedade com 80% de conservação da terra, com os índios que vivem lá, com animais”.

“Há muito trabalho agora no Brasil para desacoplar a produção de carne bovina do desmatamento”, explicou Clay, do WWF. “O governo anterior do Mato Grosso mostrou que no Brasil, você pode dobrar a produção de carne bovina e dobrar a produção de soja na terra que já foi desmatada. Você não precisa desmatar mais terras. É mais sobre eficiência e o que é chamado de intensificação sustentável, é realmente trabalhar a terra mais eficientemente e produzir mais com menos”.

Boer acredita que o mundo está pronto para ouvir mais histórias sobre carne bovina sustentável, pelo menos do Brasil. “Eu acho que nos próximos dois anos, o Brasil começará a falar alto sobre o trabalho que estamos fazendo aqui. Estamos preparados e agora eu acho que o momento chegou para contar ao mundo e convidar a todos para ver nosso trabalho. E todos estamos realmente orgulhosos disso”.

O trabalho inicial para reduzir o impacto da carne bovina no Brasil, Austrália, Europa e outros locais criou uma oportunidade óbvia para o McDonald’s e outros: alavancar e propagar o bom trabalho que já vem sendo feito e impulsionar ainda mais colaboração. “Nos reunimos com várias pessoas e dissemos, ‘vamos criar um fórum onde possamos ter um diálogo transparente e aberto para quem quiser vir e discutir esse assunto”, disse Bruett. “Isso inclui agitadores e pessoas que não acham que devemos consumir carne bovina. Convidamos todos eles para uma conferência global em Denver e vamos identificar as questões principais que estão impactando na sustentabilidade da carne bovina agora e no futuro”.

Uma coisa que Bruett entendeu no começo é que “queremos evitar o erro que vejo em muitos outros grupos globais que estão tentando dialogar sobre esse assunto: serão somente corporações ou somente ONGs e os produtores não serão convidados a participar. Eles foram convidados a fazer mudanças em sua operação, mas não foram convidados a participar do processo. Não faremos nenhum progresso, a menos que toda a cadeia esteja envolvida. Então, não pode ser somente os McDonald’s e os JBSes do mundo e decretaremos o que significa sustentabilidade. Isso tem que envolver aqueles que criam, alimentam e aqueles que processam os animais, aqueles que consomem os animais e então aquelas ONGs e grupos ambientais, grupos sociais, que têm interesses no assunto que diz respeito à cadeia de fornecimento”.

Saindo da reunião de Denver, o grupo deu passos para formar uma organização, a Mesa Redonda Global para Carne Bovina Sustentável, ou GRSB. O grupo buscou esforços similares em outras commodities – Mesa Redonda sobre Soja Sustentável e Mesa Redonda sobre Óleo de Palma Sustentável, por exemplo, mas existem algumas grandes diferenças entre a carne bovina, por um lado, e a soja e o óleo de palma do outro.

“Essas commodities podem somente ser produzidas em certas partes do mundo com climas muito parecidos”, disse Bruett, que é presidente do GRSB, junto com seu trabalho no JBS USA. “Então, seus sistemas são muito parecidos, não importa onde estão no mundo. A diferença entre nosso grupo e alguns desses outros grupos de trabalho é que sua meta final era criar um padrão ou um selo ou algo onde você possa dizer, ‘Isso é sustentável. Isso não é’. Essa realmente nunca foi nossa meta”.

Ao invés disso, disse ele, “queremos traçar algumas linhas limites sobre o que pensamos que significa sustentabilidade e capacitar pessoas com as ferramentas para melhorar suas operações, melhorar seu sustento, melhorar seu desempenho social para, finalmente, melhorar todo o valor da cadeia”.

O GRSB começou sua vida em 2012, mas demorou mais de um ano para se organizar com relação à sua situação legal. As coisas realmente deslancharam em 2013, à medida que o grupo de trabalho fez worshops regionais de sustentabilidade em regiões produtoras de bovinos dos Estados Unidos, em Billings, Montana, Lubbock, Texas e Omaha, Nebraska, visando expor aos participantes as perspectivas de várias partes do ecossistema da indústria de carne bovina. Os workshops incluíram visitas de campo aos criadores de bovinos, confinamentos e operações de frigoríficos e processamento da cadeia de fornecimento de carne bovina.

Durante o ano passado, o grupo também começou a fazer a grande pergunta: Como você define carne bovina sustentável? “Nossa ideia era, vamos determinar de cinco a 10 áreas críticas importantes independente do local onde você esteja produzindo carne bovina no mundo ou da parte da cadeia de fornecimento que você esteja envolvido”, disse Bruett. “E se você está abordando essas áreas de qualquer maneira adequada para sua área, você está no caminho para uma melhora contínua. Você está no caminho da sustentabilidade”.

O próximo passo era ter uma definição ampla e capacitar áreas regionais para interpretar como esses princípios e critérios fazem sentido para um ecossistema em particular, considerando a estrutura regulamentadora e o ambiente social. A meta, disse Bruett, era um sistema “onde toda a cadeia dividisse responsabilidade, dividisse os custos e quisesse ajudar todos os segmentos a ter um melhor desempenho para, finalmente, melhorar a sustentabilidade geral da carne bovina”.

O grupo identificou seis princípios chave, junto com critérios que articulam a intenção de cada área. Então, por exemplo, um princípio sobre práticas que minimizam os impactos na qualidade do ar na cadeia de valor de carne bovina pode incluir critérios que estejam relacionados especificamente à redução das emissões de gases de efeito estufa de operações rurais.

Os membros do GRSB aprovaram os esboços do documento de princípios e critérios no meio de dezembro e o distribuíram internamente para comentários. O plano é revisar o documento baseado nos comentários e, então emitir uma versão para comentários públicos em março. “Entendemos que isso gerará muito interesse, mas estou pessoalmente comprometido em certificar de que olharemos cada comentário, responderemos a cada um para ver como podemos melhorar essa definição”, disse Bruett.

Após uma rodada final de revisões, o documento será enviado aos membros da GRSB para votação em agosto, na segunda Conferência Global sobre Carne Bovina Sustentável, em São Paulo. “E então começaremosa fase de aplicação disso em base regional”, disse Bruett. “É disso que se trata a mesa redonda. Se você somente estabelecer uma definição e colocá-la na Wikipedia, o que você fez?”.

Então, o McDonald’s será capaz de direcionar esse padrão em sua cadeia massiva global de fornecimento? Bruett acha que a companhia tem uma boa chance. “O que algumas organizações farão é pegar um conceito nebuloso como sustentabilidade e forçar isso na cadeia de fornecimento. Eu acho que como o McDonald’s tem uma relação tão boa com seus fornecedores, eles fizeram uma abordagem oposta. Em invés de olharem esse conceito grande e nebuloso e forçá-lo no negócio, eles olharem para isso do ponto de vista do negócio, ou seja, como a sustentabilidade pode fazer com que o negócio tenha um desempenho superior. Então, em vez de virem com sua lista de verificação e dizer, ‘ei, você tem que fazer isso, isso e aquilo, e então você será sustentável e poderá fornecer a nós’, foi mais ‘como fazemos seu negócio mais lucrativo, uma entidade mais responsável que esteja alinhada com nossos valores centrais?’ Isso melhorará toda a cadeia”.

“O McDonald’s está nas fazendas, nos confinamentos, estão nos meus frigoríficos. Eles estão tentando entender os direcionadores que tornam meu negócio um sucesso. Nem todos os meus parceiros fazem isso. Existem outras companhias que simplesmente você chamará e dirá, ‘ei, aqui está minha planilha de sustentabilidade. Eu preciso que você me dê essa informação até sexta-feira. É quinta-feira à tarde’. E algumas das questões que são feitas revelam o entendimento errado fundamental do que eu faço, o que me torna lucrativo, o que me torna um negócio viável. É a antítese da sustentabilidade”.

Muitas pessoas do setor disseram que é cedo para a indústria buscar a carne bovina sustentável. O McDonald’s e outros grandes compradores de carne bovina enfrentarão uma longa e provavelmente árdua estrada para alcançar suas metas de sustentabilidade, e até mesmo determinar quais seriam essas metas. Existem inúmeras incógnitas.

Essa realidade não parece preocupar Bob Langert, vice-presidente de sustentabilidade global do McDonald’s, quando questionado se a companhia de fast food se tornaria uma importante influenciador na promoção da sustentabilidade para as massas. Ele vê a busca de sua companhia por carne bovina sustentável como uma parte essencial da marca McDonald’s.

“A sustentabilidade não deve ser algum tipo de nicho, prêmio,  esforço com custo extra para um segmento muito estreito da sociedade que tem meios e dinheiro suficiente para comprar sustentabilidade”, respondeu ele. “O fato é que a sustentabilidade pertence às massas”.

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Fonte: Artigo publicado no site GreenBiz.com, escrito por Joel Makower, empresário americano, escritor e estrategista em negócios sustentáveis, traduzido e adaptado pela Equipe BeefPoint.


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