[VÍDEO] Confira entrevista com Marcelo Pimenta, da Exagro sobre mercado do boi e mundial e seu impacto na cria

Marcelo Pimenta, consultor sênior e diretor executivo da Exagro, concedeu uma entrevista a Miguel Cavalcanti, do BeefPoint, com o tema Gestão da Produção.

Confira abaixo um resumo da entrevista, bem como o vídeo com ela completa:

Miguel Cavalcanti: Agora, estamos no ciclo de produção, quando há aumento da mesma, aumento do abate de fêmeas e uma tendência de diminuição de preços. O preço esse ano está pior do que no ano passado. Você que tem uma experiência grande de consultoria em fazendas, inclusive, de pecuária de cria, qual o impacto dessa mudança de ciclo para baixo para quem faz pecuária de cria?

Marcelo Pimenta: Antes de entrar especificamente no momento do ciclo de baixa, acho importante a gente dar uma refletida sobre o entendimento sobre o mercado de um modo geral. No fórum Exagro, vamos tentar entender como o mercado mundial tem funcionado, qual o impacto do mercado mundial no mercado brasileiro, o que isso reflete no preço do meu produto, na minha rentabilidade, no meu fluxo de caixa, no dia-a-dia da fazenda; o que preciso entender disso para poder tomar minhas decisões, fazer meus planejamentos, etc.

A gente é afetado basicamente por duas correntes de mercado: uma é o mercado em si, mesmo, de compra e venda, preço da mercadoria, que tem o componente mundial que afeta as exportações e que, por consequência, afeta o valor da arroba, e tem o componente do mercado interno, que é muito importante nisso, sendo o maior componente do preço da arroba no Brasil.

Então tem a demanda e a oferta, o preço do dólar, todos esses fatores de mercado internacional e brasileiro que afetam diariamente o nosso negócio, e temos também o ciclo da pecuária brasileira, que é o ciclo demandado pela maior oferta de bezerros, que é um reflexo da maior ou menor retenção de fêmeas, que é um looping. O gatilho, tanto a alta quanto da baixa do ciclo é o volume de bezerro ofertado e, por consequência, o preço do bezerro.

Miguel Cavalcanti: Fazendo um gancho aqui, é importante lembrar o que causa o ciclo. É que produzir gado é uma coisa que demora. Do dia que você toma a decisão de começar a produzir um bezerro até o dia que esse bezerro vai estar pronto para ser abatido, por mais rápido e intensivo que seja seu sistema, tem o período de estação de monta, de prenhez, até a desmama e depois tem a recria/engorda. Por mais intensivo que seja, você vai abater esse animal com um ano de idade, no mínimo do mínimo, mais os nove meses de gestação, pelo menos mais dois meses de estação de monta, dá quase dois anos do dia que você escolheu produzir um animal até o dia que você pode abater.

Se esse animal for abatido com dois anos de idade, são quase três anos. Ou seja, você toma uma decisão hoje que vai impactar a oferta do produto carne daqui a dois, três anos. Por isso, as decisões geram esses fluxos, esses ciclos de alto preço e baixo preço, de alta oferta e de baixa oferta, porque o dia que você toma a decisão, demora bastante tempo para que ela influencie no aumento e na diminuição da oferta.

Marcelo Pimenta: É exatamente por isso que a gente escolheu esse tema do entendimento do mercado, o reflexo do entendimento do mercado no planejamento do negócio. A gente escolheu esse tema para conversar e abordar no fórum justamente por causa desse efeito de longo prazo que o planejamento da fazenda tem. Se eu não entender no médio e o longo prazo como o mercado funciona, como vou planejar meu negócio que, por essência, é de médio e longo prazo?

O entendimento do mercado mundial, mercado nacional e o ciclo da pecuária, e a inter-relação entre as duas coisas, é de fundamental importância. Não sei se todo mundo já pensou nisso, se já refletiu, se já se atentou para isso, mas o período de recessão que o Brasil começou a viver nos últimos dois anos ou um pouco mais de dois anos, onde houve uma queda absurda no consumo de carne por parte do brasileiro, e isso é um impacto muito grande no nosso mercado, nós só não tivemos uma derretimento no valor da arroba, tendo uma manutenção e até uma correção do valor da arroba, porque coincidiu que a gente estava na fase de alta do ciclo.

A gente estava com falta de mercadoria; o bezerro estava em um ágio muito grande, e o valor da arroba do boi, puxado por uma menor oferta de vacas e os fatores inerentes do ciclo, é porque estava faltando mercadoria para os frigoríficos e isso manteve a questão do preço em alta.

Só para entender a importância disso, se a gente tivesse pego essa recessão interna com essa diminuição de consumo e do poder de compra do brasileiro com o período de ciclo de baixa, com super-oferta de animais, de bezerros, de vacas e de boi gordo no mercado, teria sido um caos a pecuária nos últimos dois anos.

Agora, a gente continua com o fator de recessão, mas parece que isso começa a mudar, já tem indicadores na economia de que isso está melhorando, a gente espera que melhore o poder de compra do brasileiro, e isso sustente o valor da nossa arroba, mas a gente agora está começando um novo ciclo de baixa, com a maior oferta de bezerro, diminuição no preço do bezerro, maior oferta, por consequência, de vacas, o mercado enche de carcaça de fêmea, e isso joga o preço do boi para baixo, é o gatilho do ciclo da baixa.

Mas é só cria? Óbvio que não! Quem faz recria/engorda claro que é afetado integralmente pelo ciclo da pecuária. Só que a cria é o mais afetado em função do ágio do bezerro, o preço do bezerro, que é decorrência da oferta, do volume de bezerro ofertado no mercado, que é o gatilho do ciclo pecuário, tanto quando ele cai, como quando ele sobe.

Então, ela é o gatilho e, ao mesmo tempo, dentro dos sistemas pecuários, é o mais afetado por isso, porque o fator do ágio do preço do bezerro em relação à arroba do boi gordo é um fator muito importante na rentabilidade e na composição de resultados da cria.

Miguel Cavalcanti: E não tem como você corrigir isso, né, porque na recria/engorda, se você comprou o bezerro mais caro você tem estratégias para diluir esse bezerro mais caro e poder ter um resultado positivo mesmo comprando bezerro mais caro. Na cria, não. Você vende o bezerro e se você está vendendo mais barato porque o mercado está pagando menos não tem muito como você mudar sua receita.

Então, o tema chave da nossa conversa aqui é o que você pode compartilhar de boas práticas, bons exemplos, sacadas de clientes Exagro que fazem cria e têm alta rentabilidade. Como eles estão se preparando para esse cenário, para essa situação atual, para esse momento? O que eles estão fazendo que está protegendo, minimizando os maus resultados e gerando bons resultados. O que você pode compartilhar com a gente sobre isso?

Marcelo Pimenta: Basicamente, se eu tiver que lhe dar uma resposta em um fator, falaria que é a mudança de modelo mental. O que chamo de mudança de modelo mental? Se eu sou criador e o meu foco é sempre o bezerro, sempre serei refém do preço do bezerro. Se sou criador e o meu foco é produção de arrobas por hectare, vou enxergar meu negócio de uma maneira muito mais abrangente, vou ter muito mais recursos para trabalhar o meu sistema de cria, para produzir mais por hectare, e para tirar mais receita, mais renda e mais lucro na minha fazenda. Essa é a mudança de modelo mental.

Quando o criador foca em produzir muito bezerro, em emprenhar o máximo de vacas, em produzir os bezerros de melhor qualidade, melhor peso, é claro que isso tudo está certo; do ponto de vista zootécnico, da produção, tudo isso está certo, mas do ponto de vista mercadológico, de negócios, se meu foco é só o bezerro, não vou enxergar mais nada no meu sistema de produção, a não ser a produção de bezerro e vou ser sempre refém do mercado. Quando o mercado estiver bom, o ágio alto e o preço alto, vou ganhar dinheiro; quando o mercado virar e o preço estiver baixo, vou tomar prejuízo.

Miguel Cavalcanti: Vou até fazer um gancho aqui, porque isso é muito importante. Deve-se ficar atento, porque se seu foco é rentabilidade, geração de lucro líquido na pecuária de cria, fique atendo que a métrica principal de seu negócio em produção, não é o número de bezerros por vaca, não é qualidade dos bezerros, é produção de arrobas por hectare. A gente esquece, quando usa a métrica errada, que você vende vaca, novilha, que tem outras fontes de receita que não são os bezerros.

Marcelo Pimenta: Você não só vende vacas, mas você tem o maior estoque do seu rebanho em vaca, que é um animal adulto que não apresenta ganho de peso. Então, quando você passa a enxergar como produção de arroba por hectare começa a enxergar todos os componentes do seu sistema de produção, a enxergar todas as categorias animais como possibilidade de produção de arrobas, que depois podem ser indexadas em arrobas de boi por hectare, para ficar uma comparação justa de um sistema para o outro.

Então, a gente fala, por exemplo, de rebanhos mais jovens, de maior venda de vaca, de ter uma meta de número de porcentagem de vacas adultas por ano para serem abatidas, para você diminuir o peso médio do seu rebanho, diminuir a idade média do seu rebanho, aumentar um pouco a recria e o ganho de peso nas fêmeas, porque isso tudo, quando o pensamento é arrobas por hectare, você vai enxergar que isso tudo agrega, não só o bezerro.

Miguel Cavalcanti: Esse é um tema chave e que faz muita diferença e, inclusive, gera resultados contra intuitivos. Ainda bem que você começou falando que a mudança é de modelo mental, que é como sua cabeça funciona, o que você olha, o que você presta atenção, o que você dá foco. Se você der foco em máxima produção de bezerros, vai produzir o máximo número de bezerros e isso não quer dizer que você vai maximizar a produção de arrobas por hectare. Se você realmente focar em maximizar a produção de arrobas por hectare, você vai ter outras variáveis e, inclusive, sua cabeça vai ficar mais aberta para ver outras oportunidades e possibilidades.

Você pode dar algum outro exemplo de ação, alguma coisa prática, alguma coisa para compartilhar com quem está assistindo aqui sobre coisas ou exemplos, práticas que fazendas de cria têm feito e têm dado resultado nesse ano?

Marcelo Pimenta: Tem muita coisa para ser feita. Dentro de um sistema de produção são “n” variáveis e cada variável tem seu jeito de tratar e cada fazenda tem o seu perfil, cada proprietário tem seu perfil, cada um tem sua condição. Então, não tem uma receita para a gente falar, mas se a gente tiver que eleger alguns pontos, é, pensando no tópico de focar primeiramente na produção de arrobas por hectare, já citei um brevemente que é prezar não só pela produção de bezerros, mas pela recria e produção de arrobas por hectare no rebanho de fêmeas, incluindo a recria de fêmeas, incluindo as matrizes. Aí, tem todo um planejamento, uma inserção de aspectos técnicos, fluxo de caixa e planejamento alimentar que dentro da fazenda têm que entrar.

Uma outra coisa, para citar outro fator, que é quase que 100% usado nas fazendas mais eficientes, é adotar as tecnologias que já estão disponíveis para poder se produzir mais, com mais eficiência, adotando técnicas de manejo, maior precocidade no rebanho de fêmeas, de cruzamento industrial, ou até questões de melhoramento genético do Nelore, que já está produzindo tanta eficiência, precocidade, ganho de peso, carcaça, então, o uso dessas tecnologias, não só as de genética, mas as reprodutivas em si, para poder fazer uma estação de monta mais curta possível, para poder desmamar sua vacada o mais cedo possível, antes da seca começar, que isso é fundamental, no Centro-Oeste, pelo menos; com isso, você consegue vender suas vacas de descarte antes da seca, sem gastar dinheiro com suplementação, aliviando a fazenda, e isso tem a ver com planejamento alimentar, ou seja, como tudo dentro de uma fazenda, todas as variáveis são interligadas.

Então, esses aspectos que acabei de dizer, uso das tecnologias reprodutivas, uso da genética, estação de monta bem direcionada, com certeza são pontos que devem ser planejados para cada sistema, para cada realidade, para cada fazenda, focando sempre no seu indicador. Você tem que eleger qual é o seu indicador. Se seu indicador é produção de bezerros, beleza! Se você tem seus argumentos e tem dentro do seu planejamento e é isso que lhe interessa, vai firme e produz seus bezerros. Porém, você tem que estar ciente que vai ficar refém do mercado.

Se seu foco é produção de arrobas por hectare, mesmo em um sistema de cria, e margem de lucro por hectare, aí você tem que abrir seu leque e trabalhar essas variáveis em um planejamento mais abrangente.

Miguel Cavalcanti: Uma coisa chave que você colocou e que quero destacar aqui é essa adoção ou avaliação, escolha de qual tecnologia você vai usar e quão acelerado você vai usar aquela tecnologia, se vai ser genômica, se vai ser de produção, de suplementação, acelerar a recria de fêmeas, como você vai fazer isso, mas sempre pensando que é um sistema integrado e cada mudança gera impactos em outras áreas da fazenda, em outras áreas do sistema produtivo, e também pensando se seu negócio é ser um negócio, mesmo, ter rentabilidade e lucro, pensando em como cada uma dessas escolhas vão impactar a rentabilidade, a última linha do negócio.

É muito comum a gente ver decisões e escolhas com a melhor das intenções, mas por não ter um olhar mais amplo e integrado, você até aumenta a produção, ou aumenta a produção de uma métrica que está medindo, mas na produção como um todo da fazenda, ou de arrobas por hectare por ano, não aumenta e você não tem o melhor resultado financeiro e fica até frustrado, porque você se esforçou, foi atrás, bateu a meta que colocou naquela métrica, mas tinha a métrica errada e não dá resultado.

O que você dá de recado, desafio, chamada para ação para quem faz cria em 2017 e quer maximizar sua rentabilidade?

Marcelo Pimenta: Nós já estamos em maio e a pessoa que trabalha com cria no mês de maio, 2017 já está feito, não tem muito mais o que mudar de resultado, porque a bezerrada já está sendo desmamada. Acho que dentro desse tema que a gente está falando, de mercado, ciclo pecuário, mercado internacional, e a cria inserida nesse contexto, é a pessoa procurar entender sobre isso.

A gente não pode achar que o preço do nosso produto é simplesmente uma consequência astral, de sorte ou azar, ou de alguma coisa que é tirada de uma cartola. Então, o recado que dou é procure entender um pouco mais o mercado na pecuária brasileira no longo prazo, quais são as variáveis, e assim, o fato de entender o mercado não significa que vai adivinhar o que vai acontecer no final do ano ou no ano que vem, mas é importante entender onde as cordinhas são puxadas para ver quais os efeitos que isso tem no mercado, para ver como posso me precaver e como posso usar isso no meu planejamento, para não ficar refém, boiando ao sabor das marés. Preciso entender em qual contexto meu negócio está inserido para poder me planejar.

Miguel Cavalcanti: E quanto mais boiando, mais refém de boato você fica, mais refém de notícia falsa você fica, então, isso muda muito a maneira de você avaliar.

E uma outra coisa que eu vejo, é um outro modelo mental que eu uso que tenho certeza que é muito valioso, é você, principalmente em momentos de incerteza, antes das coisas acontecerem fazer uma avaliação de qual o pior cenário possível. Não que você acha que vai viver em um mundo em que acha que tudo vai acabar e ser muito pessimista, mas ter a capacidade de encarar a realidade nua e crua e olhar para um possível cenário pensando: se o mercado mudar? Se seguir nesse caminho? Se ficar pior do que está hoje? Qual o pior cenário possível?

Partir do pressuposto de que aquela realidade muito ruim aconteceu e avaliar como isso impacta em seu negócio. Se você se preparar de uma determinada forma que no pior cenário você continue vivo, você se torna imbatível, imparável, indestrutível. Nada lhe afeta.

E quando você faz essa análise de qual o pior cenário possível e constrói na sua cabeça a possibilidade de aquilo acontecer com você, aquilo impacta menos em você daqui para frente, você se torna menos vulnerável ao emocional daquele desenrolar.

Se na sua cabeça seu negócio só vai funcionar se tudo acontecer perfeitamente, da melhor maneira possível, se todas as variáveis têm que acontecer no máximo do positivo para seu negócio ficar bom, primeiro, dificilmente isso vai acontecer e dificilmente seu negócio vai ficar bom, e também toda vez que vier uma notícia negativa, isso vai afetar negativamente o seu emocional, sua capacidade de enfrentar a realidade, de enfrentar os desafios, sua capacidade de viver de uma foram proativa, e isso muda muito o jogo.

Assista a entrevista completa:

Se você quer se aprofundar mais nesse tema, inscreva-se no Fórum Exagro 2017, um encontro de 2 dias (28-29 de junho), em Campinas, SP para debater e aprender sobre esse assunto e também sobre outros 3 temas chaves para a pecuária eficiente, produtiva e lucrativa: http://forumexagro.com.br.

Fonte: BeefPoint.

2 opiniões sobre “[VÍDEO] Confira entrevista com Marcelo Pimenta, da Exagro sobre mercado do boi e mundial e seu impacto na cria”

  • gilson dias de souza - 16/06/2017

    este comentario e muito importante para todos da cadeia porque mostra que nos temos que pensar em produzir arroba por hectare e a meu ver o mais correto e fechar o ciclo cria, recria e engorda

  • Luciano Nunes Ferreira - 20/06/2017

    E sobre o creepfeeding vale a pena fazer para quem esta pensando em cria com produção de @ por hectare?

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