Passado o debate acalorado sobre a revisão do Código Florestal, a principal entidade ruralista brasileira prepara-se para lançar um documento mostrando o tamanho do impacto à produção agrícola europeia caso regras ambientais vigentes no Brasil fossem aplicadas também àquele continente.
O foco da ação da Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) está nas chamadas matas ciliares, a cobertura vegetal que margeia os cursos d’água. Nos próximos dois meses, técnicos da entidade mapearão, através de imagens de satélite, propriedades que beiram cinco grandes rios da Europa – Reno, Danúbio, Tâmisa, Sena e Douro – e simularão quanto os produtores rurais perderiam em valor bruto de produção se tivessem de dispor de áreas semeadas para recomposição florestal.
A conclusão desse relatório será a carta na manga da senadora Kátia Abreu (PSD-TO), presidente da CNA e mentora da ideia, a ser puxada sempre que o momento político exigir. Há anos, ela defende que o Código Florestal, hoje cumprido à risca por pouquíssimos produtores, imporia uma perda de competitividade do campo brasileiro em relação a seus concorrentes. Transpondo o cenário nacional a outros países, a senadora ruralista tenta agora dar números a isso.
Com esse argumento, a CNA lançou no início deste ano, no Fórum Mundial da Água, em Marselha (França), uma campanha em defesa da recomposição global de matas ciliares. Na Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, a entidade voltou a jogar a proposta. O discurso oficial, nas duas ocasiões, foi o de preocupação com o ambiente associado à necessidade desse bem precioso às lavouras e, portanto, à segurança alimentar. A campanha foi amarrada com outras duas entidades brasileiras, na tentativa de dar um caráter menos político e mais técnico à discussão – Embrapa e Agência Nacional de Águas (ANA).
O relatório da CNA sobre o impacto aos bolsos europeus se fossem sujeitos às mesmas exigências de matas ciliares que os brasileiros (que chegam a 100 metros para cada margem do rio) vem no momento em que a Comissão Europeia rediscute as bases de sua Política Agrícola Comum (PAC). Reformulada a cada sete anos, a cartilha de regras para concessão de US$ 75 bilhões ao ano em subsídios rurais propõe atrelar até 30% dos aportes a contrapartidas ambientais.
A ofensiva pelas mata ciliares globais será trabalhada por equipes de comunicação contratadas nos Estados Unidos e em Londres, como parte da estratégica de ampliação do lobby agrícola brasileiro no exterior. Além disso, a entidade deverá inaugurar no segundo semestre escritórios em Bruxelas e Pequim, “porque é lá que está o mercado e o dinheiro do mundo”. Kátia Abreu explica ser prioritário abrir novos mercados mas também mudar a imagem do agronegócio brasileiro lá fora.
Segundo ela, paralelamente a essas ações para “encurralar” adversários, uma campanha de marketing de três anos terá início este ano para promover carros-chefes da pauta agrícola brasileira, como o café, o suco de laranja e as carnes. O garoto-propaganda será Pelé.
Fonte: jornal Valor Econômico, resumida e adaptada pela Equipe BeefPoint.
