A maior desordem mundial no negócio de carne – Por Blasina y Asociados

O cisne negro, evento inesperado que pode mudar tudo, entrou em erupção na sexta-feira (17) no Brasil. O maior exportador mundial de carne, principal concorrente para a carne uruguaia, também aquele que tem capturado a maior parte da capacidade de abate do Uruguai comprando de vários frigoríficos locais, o principal fornecedor da China, nosso principal mercado tem visto sua reputação manchada.

O caso do Brasil não poderia ser mais grave. Mas o tropeço do grande concorrente não implica necessariamente benefícios para o gado uruguaio. Apenas aumento das oportunidades e ameaças.

Embora a consultora Steiner argumente que a Austrália e o Uruguai podem se beneficiar com a crise brasileira, as consequências são complexas e podem trazer mais uma dor de cabeça ao sul do rio Cuareim.

As denúncias de alteração de rótulos e venda de carne estragada no exterior e no mercado interno no país vizinho são capazes de mudar um dos equilíbrios fundamentais que foram instalados na agricultura uruguaia.

O preço de exportação de carne bovina uruguaia permaneceu quase sem variação nos últimos 18 meses, em US$ 3.400 por tonelada. E a partir daí derivam em cascata todos os preços pecuários.

Isso foi um pouco alterado um ano atrás, quando surgiu uma mini crise de saúde para a carne uruguaia pelo aparecimento de Ethión, um produto comumente utilizado contra moscas e carrapato, na carne enviada aos EUA. Isso puxou para baixo o preço um pouco, mas, em seguida, como uma boia, a exportação voltou a US$ 3.400 por tonelada. O preço vinha de US$ 4.000 durante o auge das commodities e US$ 1.500 no século XX.

Pode este problema gigantesco no Brasil mudar o preço de exportação do Uruguai? A questão é importante porque também, nas últimas três semanas, os frigoríficos têm pressionado para baixo os preços locais dos animais e uma recuperação no preço seria boa para os produtores.

Esse equilíbrio pode romper-se e talvez para cima, porque o nosso principal concorrente ficou de fora de nosso principal mercado: China e Hong Kong proibiram a carne brasileira.

O escândalo tem sido de uma proporção tal que o público está ciente, em toda parte, que os frigoríficos brasileiros subornavam os inspetores, mudavam as datas de validade dos rótulos, colocavam produtos para disfarçar o odor e adulteravam com celulose e água a carne de frango. Nesta época de redes sociais, as notícias têm sido um incêndio. Memes, piadas, o ridículo, a indignação, se misturam com a defesa de empresas que buscam minimizar a magnitude do que aconteceu.

A possibilidade da carne em mal estado chegar à Europa é a manchete dos jornais de todo o mundo. A carne brasileira não somente ficou com má fama, como pouco confiável em termos sanitários, mas também, foi vinculada a um emaranhado sem fim de corrupção e propinas que, como uma hidra, envolvem a política e a economia brasileira. A Carne Fraca se soma ao Lava Jato e os respingos são infinitos.

Além da oportunidade que possa surgir na China, a frente europeia para o Uruguai pode ser interessante já que surgem vozes que pedem rastreabilidade individual para a carne do Mercosul, algo que só o Uruguai pode oferecer. Mas também surgem vozes que pedem que a carne saia da negociação de um acordo de livre comércio entre os dois blocos.

Neste caos evidentemente há uma oportunidade para que o Uruguai faça ouvir sua voz e diga “eu sou diferente, detalhista, transparente, cumpridor de compromissos e rastreado.” Tudo parece delinear uma grande oportunidade.

O Brasil atrasará ainda mais a entrada em mercados pendentes: México, Coréia do Sul, Japão. Vá convencer um japonês de que o país que enviou carne podre para suas próprias escolas é confiável.

Mas existem várias ameaças também. O desprestígio que volta a golpear toda a carne como um produto, a dificuldade em diferenciar a carne do Mercosul do Uruguai com relação ao resto, a possível saída de carne negociação por um mercado comum entre o Mercosul e a União Europeia (UE). E, em termos mais práticos, a baixa que irá ocorrer no preço de todas as carnes brasileiras e que permitirá talvez uma receita muito maior ao território uruguaio de carne bovina, suína e de frango.

Golpe à frágil economia

O agro vinha resgatando a economia brasileira de uma profunda recessão; neste trimestre, o Brasil deve crescer um pouco. O golpe pode ser muito duro. O Brasil exportou em 2016 carne fresca por US$ 4,349 bilhões. Hong Kong e China foram os principais destinos, que na realidade, são praticamente o mesmo, porque uma grande parte da carne entra por Hong Kong termina destinada ao mercado chinês. Ambos os mercados compraram quantidades similares, totalizando US$ 1,425 bilhão.

Também foram importantes compradores Rússia e Chile, onde o Uruguai também compete com o Brasil. Então, essas portas que se fecham para o nosso principal concorrente podem ser potencialmente portas que se abrem para o Uruguai.

Mas a perda de confiança no produto carne é um problema que se arrasta desde os tempos da doença da vaca louca e se acentua e os lobbies protecionistas europeus estão exercendo pressão para bloquear toda a carne.

Os produtores da França e da Irlanda, ferrenhos opositores a um acordo de comércio livre entre a UE e o Mercosul, têm aproveitado a situação para pedir que a carne fique de fora das negociações para o livre comércio entre os dois blocos.

Outros produtores indicaram que a carne do Mercosul é perigosa e – algo que pode ser uma oportunidade para o Uruguai – solicitaram que apenas chegue carne de países que tenham rastreabilidade individual.

Por agora, o que aconteceu é uma caixa de Pandora. As duas maiores empresas envolvidas – JBS e BRF – deverão lutar para amortecer o impacto que já resultou em um colapso das ações.

Em uma era Trump, o Brasil ameaça o mercado norte-americano e, acima de casos particulares, o produto vendido tem ficado com um dano de imagem que irá persistir.

O quanto será capaz o Uruguai de se diferenciar e capitalizar a rastreabilidade que já está implementada será chave. Além disso, para uma tecnologia que estava sendo questionada, pode ser uma oportunidade para demonstrar para sempre que pode dar benefícios tangíveis.

Mas, por enquanto, no preço do gado nada mudou, no preço em dólares que são trocados por alguns pesos. Para a carne bovina pode ser uma oportunidade. Para os produtores uruguaios de suínos e frangos é definitivamente uma ameaça.

Será que vai aumentar a importação de carne do Brasil?

Pode parecer paradoxal, mas o problema sanitário da carne no Brasil pode torná-la mais competitivo no Uruguai. Vai baixar o preço e o país somente desabilitou plantas onde houve problemas. O Brasil tem tudo para exportar carne para o Uruguai, em especial, carne de suíno e frango. Nestas duas áreas, o país é muito competitivo por escala, disponibilidade de milho e farelo de soja em quantidade. O Uruguai não tem como frear eventuais importações.

Com o bloqueio do mercado chinês – e o mercado interno ficará retraído diante da insegurança que gera a qualidade da carne – os excedentes exportáveis serão maiores. Se o dólar sobe no Brasil, os embarques de carne de porco que já são importantes podem crescer mais.

A exportação de frango do Brasil cresceu em alta velocidade e também enfrenta obstáculos. Suinocultores e avicultores do Uruguai podem ser vítimas ocultas da crise sanitária brasileira.

Fonte: Por Blasina y Asociados, especial para o El Observador, traduzida e adaptada pela Equipe BeefPoint.

Uma opinião sobre “A maior desordem mundial no negócio de carne – Por Blasina y Asociados”

  • Egberto Barros - 31/03/2017

    Olá Boa Noite.
    Há perigos a vista para a pecuária brasileira. Não há dúvidas quanto a isso.
    No entanto, não há nenhum outro País, além do Brasil, que reúna todos as condições necessárias para produzir carne no tempo necessário de crescimento da demanda mundial.
    O artigo mostra também, e muito claramente, a enorme RESPONSABILIDADE dos atores envolvidos no processo de industrialização e comercialização externa. A afirmação que se faz é que estes empresários “não estão nem aí” com esta história de responsabilidade, de compromisso com clientes, consumidores, fornecedores ou com o país, já que, responsabilidade empresarial não é somente uma questão técnica mas cultural e ética. E, estes últimos quesitos, cultura e ética, são atributos que são conquistados e cultivados ao longo do tempo, até por gerações por vezes. E, este grupo hoje envolvido na indústria da carne, é competentíssima e profissional MAS não entende nada de cultura e nem de ética, estes predicados não tem importância alguma para o seu negócio. Eles não tem orgulho do seu produto, nem se importam. Não se importam também com os meios para produzir. A finalidade desta grande indústria, que se verticalizou e tornou-se um monopólio, é bem outro, e, tem haver com a sua origem e com as finalidades da sua origem: financiar uma política que tem desonrado e que levou o país como o vemos hoje além de enriquecer um pequeno grupo.
    E qual o perigo disto tudo, onde não prevalece a cultura, a ética, a honra de um país? É explodir e deixar órfã, frustrada e quebrada uma atividade de tanta história e que tanto tem servido ao país como é e tem sido a Pecuária Brasileira. É uma pena.
    Egberto Barros- Pecuarista

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