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Austrália: confinar sabendo para quem vender

Entre os dias 4 e 14 de maio, o BeefPoint realizou uma viagem técnica (junto com a CAEP) à Austrália para conhecer a pecuária do país, visitando algumas fazendas e também a feira nacional de pecuária, a Australia’s National Beef Exposition, em Rochampton no estado Queensland (nordeste do país) que acontece a cada três anos. O grupo da viagem estava formado por 26 pessoas, entre pecuaristas, consultores e professores. Suas experiências com pecuária eram diversas, já que havia desde gaúchos a tocantinenses ou mato-grossenses entre os viajantes.

Na primeira visita, o grupo foi ao confinamento Drassdale localizado entre os municípios de Brisbane e Toowoomba. A empresa controladora chama-se Mort & Co, é proprietária de três plantas confinadoras e possui um sistema de venda de cotas para investidores, pagando dividendos a cada trimestre. O valor total informado do investimento para construção do confinamento visitado foi de AUS$ 40 milhões.

O confinamento Drassdale tem capacidade estática para 32 mil animais, sendo que no dia da visita a lotação era de 31 mil e contando as outras duas plantas da empresa, a capacidade total é de 80 mil animais. Como mão-de-obra, são 55 funcionários no total, revezando para manter um homem a cada 1000 animais no dia-a-dia.

Na Austrália, o rebanho total é de 26 milhões de animais, 50% deste número fica no estado de Queensland e 53% dos animais abatidos no país são terminados em confinamento. A capacidade estática de todos os confinamentos do país é de 1,28 milhão de animais, anualmente são confinados 2,5 milhões e 58% destes são terminados no estado de Queensland. Um dado interessante é que 20 anos atrás, somente 10% dos animais abatidos na Austrália eram terminados em confinamento.

Logo ao chegar à fazenda, fomos recepcionados por Jordan e seguimos de ônibus para visitar o confinamento. A primeira diferença vista pelo grupo comparando com o Brasil foi o embarcadouro com um corredor sobre o outro, em dois andares. A presença de dois embarcadouros também chamou a atenção, um para chegada de animais e outro para saída, que segundo o funcionário, além de questões sanitárias, o embarcadouro de saída é mais estreito que o de chagada de animais, evitando pancadas e lesões nos animais terminados.

O curral de manejo fica ao lado do confinamento, com capacidade de operar 1.200 animais/dia. Na entrada dos animais, os principais procedimentos utilizados nesta planta são a pesagem, a aplicação de implante, de brincos de rastreabilidade, a verificação da dentição (para confirmação da idade) e leitura de ultra-som somente em animais Wagyu para verificar condição corporal e estimar quantos dias de confinamento serão necessários. Durante o período de cocho, é realizada somente uma pesagem 10 dias antes do embarque para apartação e seleção dos animais a serem abatidos.

Apresentando o confinamento, Jordan explicou que a empresa tem animais próprios e também presta serviço de boitel. A seleção de animais para serem confinados depende do mercado para qual será ofertado, e os animais utilizados são taurinos ou zebuínos, sem restrição quanto ao grau sanguíneo, 100% castrados. Os taurinos mais utilizados são o Angus, Hereford, Charolês, Shorthorn ou cruzamentos com o zebuíno Brahman: Charbray, Brangus ou Santa Gertrudes. A empresa têm três principais mercados como objetivo:

1) Japanese OX: 80% dos animais confinados são terminados para o mercado japonês, dentro dessa classificação: 100 dias de cocho, peso de entrada entre 420 e 470kg com 20 meses de idade, peso de saída entre 650 e 700kg.

2) Mercado interno: 15% da planta é destinada para terminação de animais exclusivos para o mercado australiano, com nível de acabamento menor do que o Japanese Ox. Os animais ficam 60 dias no cocho, tem peso de entrada de 350kg com 18 meses, e saída com 500kg.

3) Wagyu Long Fed: 5% dos animais confinados são destinados para o mercado japonês específico de alta gastronomia do país, que busca carne da raça bovina Wagyu, com alto teor de marmoreio. Esses animais ficam confinados de 400 a 500 dias, entram com 350kg de peso e são abatidos com 700 a 800kg. O Grassdale não possui animais próprios para este mercado, por decisão estratégica a empresa somente presta serviço neste caso por se tratar de um mercado muito específico e de baixo giro. A empresa prefere operar em ciclo mais curto com gado próprio.

Em relação à alimentação, o Grassdale possui dois floculadores de milho, servindo como base da dieta. São oferecidas três dietas de adaptação sendo a dieta final constituída de 60% de concentrado. Como volumoso são utilizados silagem de sorgo e resíduos da indútria cervejeira. O caroço de algodão também é utilizado, respeitando o limite de 7% da matéria seca segundo Jordan.

Os lotes são de 350 animais e como espaçamento, cada animal tem 15m2  de área, 2,7m2 de área de sombra e 24cm de linha de cocho. A ração é fornecida duas vezes por dia por um caminhão misturador/distribuidor, sendo os ingredientes todos colocados em uma caixa pré-mistura antes de serem transferidos para o caminhão. Desta forma, o veículo recebe todos de uma vez, ficando menos tempo parado esperando o carregamento de cada componente.

Questionado sobre o preço médio dos animais de reposição e de venda do boi gordo na Austrália, Jordan respondeu que o valor de compra é em torno de AUS$ 1,85/kg de peso vivo e o preço de venda médio é de AUS$ 3,60/kg de carcaça. Como objetivo, o confinamento busca resultados entre AUS$ 30,00 e 60,00 de lucro por animal. O rendimento de carcaça médio é de 55%, tanto animais taurinos ou zebuínos.

Como forma de negociação, na Austrália não há contratos de boi gordo no mercado futuro, por isso a empresa trava o preço de venda de 70% em média de seu rebanho diretamente com o frigorífico. Nos casos de boitel, os parceiros pagam o custo da alimentação e qualquer medicação necessária.

Como percepção geral do grupo, o confinamento Grassdale é de alto nível, capacitado e profissional. No entanto, são encontrados confinamentos no Brasil com o mesmo nível de gestão e tecnológico, não surpreendendo assim os brasileiros visitantes.

O ponto mais importante observado e que geralmente não se encontra no Brasil é a proximidade do produtor com seu mercado consumidor. O confinador sabe para quem quer vender, qual animal precisa oferecer e qual o sistema de produção precisa utilizar para produzir o produto demandado pelo mercado escolhido.

Desta forma, verifica-se a estruturação da cadeia produtiva de carne bovina da Austrália. Como em qualquer outra cadeia produtiva, o fornecedor deve planejar sua produção de acordo com seu mercado consumidor, independentemente se há ou não indústrias processadoras entre o produtor e consumidor.

Matéria escrita por Marcelo Whately, analista da Equipe BeefPoint.

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