Um porta-voz para a crise da carne – Por José Luiz Tejon Megido

Aconteceu. O fiscal agropecuário federal Daniel Gouvêa, insatisfeito com o que acontecia no seu trabalho, delatou e entregou um esquema para a polícia. O sindicato dos auditores e fiscais agropecuários já se pronunciou como tendo sido, também, responsável por essa entrega. Outros segmentos da carne se manifestam e as próprias empresas mencionadas publicam seus manifestos. O ministro Blairo Maggi fala do soco na nossa imagem. Enfim, o que fica evidente nesta inesperada e megassurpreendente crise de que o agronegócio e o País não precisavam é a ausência de governança e de gestão da cadeia produtiva.

O que precisamos urgentemente é de um porta-voz da crise. Um fundamental comitê de gestão da crise. E que todas as informações e o verdadeiro tamanho e dimensão do real problema fiquem limitados ao seu espaço, e não amplificados pela comunicação ou pela manipulação de interesses predadores ou detratores dos interesses do País. A competição global vai tirar imenso proveito do fato, e os consumidores da carne brasileira levaram uma chifrada de desconfiança. O que era sadio ficou com percepção de insalubre. Enfim, realidade continua sendo aquilo que é percebido. A arte da venda continua sendo a de criar percepções futuras e entregá-las ligadas por um fio umbilical que jamais pode ser desligado do sonho de não ser sonho, e, sim, realidade. Como Raul Seixas disse: “Sonho que se sonha junto é realidade, sonho que se sonha só é só sonho”. Eu só mudaria o final: é só ilusão.

A cadeia produtiva inteira da proteína animal levou uma veemente pancada. Impossível negar. E nesse curral caímos todos. O antes, o dentro e o pós-porteira das fazendas. Como separamos o joio do trigo? Como separamos plantas e empresas éticas e corretas nas quais a menção à ilegalidade não é permitida em nenhum bastidor, de outras em que o “foggy business”, o nebuloso, é admitido, desde que utilizando faróis de neblina? Como separamos a categoria dos produtores rurais envolvidos com ciência, tecnologia, bem-estar animal, integração lavoura, pecuária e floresta, sustentabilidade, o boi verde e práticas íntegras em aves, suínos, que entregam produtos dentro das mais elevadas exigências globais, de outros “meia-boca”? Pelo menos cooperativas não estão no rol deste rolo. Talvez seja impossível separar essa mistura que, uma vez misturada, turve o copo, assim como uma gota de mercúrio cromo numa taça de água cristalina a manche inevitavelmente!

Mas crises existem, sempre existirão e esta é só mais uma. Aprender com ela, enfrentá-la e saber gerenciá-la podem significar um extraordinário salto na orquestração e liderança do agronegócio brasileiro da proteína animal, que consome o outro agro, o vegetal, e que tem trazido riquezas para o País e abastecimento seguro para o cidadão brasileiro.

Mas a hora agora é a de termos um comitê interdisciplinar, reunindo todos os elos da cadeia produtiva (menos aquela que já está na cadeia – na outra, a da lei), e criarmos uma central de reunião e integração dos dados e dos fatos. E, sim, um ser humano, um porta-voz ou uma porta-voz que tenha credibilidade e independência para poder significar um símbolo de ética e de respeito, no mar das lamas nacionais, feridas expostas a céu aberto da corrupção e fraqueza de caráter. Das carnes fracas precisamos ver surgir as carnes fortes elevadas com a alma legítima da evolução.

Podemos fazer e podemos sair desta crise fortes e muito melhores do que antes. Assim espero e assim o Brasil pode e deve agir. Qual Brasil? O nosso país, o nosso Brasil, claro. Meu, seu e de gente que, aos trancos e barrancos, o tem construído, lutado e vencido. Cooperação dos bons. A hora é agora. Presidente Temer, mande imediatamente constituir um comitê de gerenciamento da crise e mande eleger um porta-voz. Eu recomendaria “uma porta-voz”.

Por José Luiz Tejon Megido, Conselheiro fiscal do Conselho Científico Agrossustentável (CCAS), dirige o Núcelo de Agronegócio da ESPM, publicado no Estadão.

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