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O desafio de produzir e vender carnes nos Estados Unidos continua

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Esta seção é reservada a artigos com a opinião dos nossos leitores.
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Por Hudson Silveira, consultor internacional do segmento de alimentos.

Em 2010 e 2011, comentei sobre a recuperação das exportações norte-americanas de carne bovina e o esforço que faziam para reconquistar os mercados perdidos após o aparecimento da BSE [mal da “vaca louca”] no rebanho americano em 2004.

Eles efetivamente cresceram muito em 2011, fechando o ano com crescimento de 22% sobre 2010 em volume – foram 922,58 mil toneladas contra 759,32 mil toneladas em 2010, segundo a Federação dos Exportadores de Carne dos Estados Unidos (Usmef, na sigla em inglês). Em valor, o crescimento é maior, atingindo 34%, com vendas de US$ 4,735 bilhões contra US$ 3,538 bilhões em 2010. Entre os mercados importantes, o Japão cresceu 32% em volume, chegando a 139 mil toneladas; Coreia do Sul com 33% de incremento, atingindo 136 mil toneladas; Rússia com 82%, totalizando 48 mil toneladas; União Europeia, 33%, com 28 mil toneladas; e Hong Kong, com 20% e 46 mil toneladas. Números expressivos de crescimento para um mundo em crise econômica. A maior elevação em valor advém dos preços maiores de venda da carne, reflexo direto da alta dos custos de produção dos últimos dois anos nos Estados Unidos. Para se ter uma ideia do valor da carne exportada em 2011, esta equivaleu a US$ 197,95 por cabeça contra US$ 170,10, em 2010, na mesma unidade.

Para este ano, o mercado exportador é ainda mais promissor que no ano passado, mesmo com a crise econômica na Europa; é de lá que vem um grande impulso para a carne bovina norte-americana.

Em março, o parlamento europeu finalmente aprovou os acordos com os Estados Unidos e Canadá sobre a ampliação dos volumes de cotas de importação para carne bovina sem hormônios. Uma negociação que se arrastava desde 2009, quando o aumento de cota foi acertado, e somente agora foram ratificadas e estabelecidas as novas quantidades de carne a serem importadas na referida cota, que passam de 20 mil toneladas para 48,2 mil toneladas, tornando-se efetivas a partir de agosto. A proibição de importar carne dos Estados Unidos e Canadá com uso de hormônios continua válida. Dessa forma, os europeus expandem uma alternativa de compra na qual a carne brasileira sofrerá maior concorrência, principalmente nos cortes nobres, pois a União Europeia é o maior mercado de carne de alto valor do mundo.

Nesse novo cenário de cotas, os Estados Unidos poderão dobrar o valor de suas exportações para o bloco que, em 2011, alcançou US$ 243,5 milhões, mas não chegou a atingir as 20 mil toneladas da cota permitida por conta da recessão no mercado europeu.

E falando de aberturas, os Estados Unidos também aproveitaram muito bem a oportunidade de expansão na Rússia, apesar de ela ter eliminado a tarifa de cota específica por país nos suínos, o que beneficiava diretamente os norte-americanos. No mercado russo, a cota em 2012 para carne bovina congelada subiu para 60 mil toneladas, ante as 41,7 mil toneladas de 2011.

Se no mercado externo os americanos vão bem obrigado, no mercado interno eles ainda têm um longo caminho a percorrer. Em recente conferência aberta, Jim Lochner, COO [diretor de Operações] da Tyson Foods, uma das maiores empresas globais de produção de proteína animal, fundada em 1935, com sede em Springdale, Estado do Arkansas, afirmou que a quantidade disponível de proteína para os americanos está diminuindo e que esta tendência continuará pelos próximos anos.

Essa afirmação é muito forte, tratando-se de um mercado grande e maduro que, por décadas, vem sendo um dos motores do comércio de carnes, e ainda mais vindo da Tyson Foods, segunda maior empresa de produção de proteínas animais do mundo, atrás apenas da brasileira JBS SA, empresa que faturou, no ano passado, R$ 62 bilhões (equivalente a US$ 34 bilhões).

A Tyson Foods fechou o ano fiscal de 2011 com um faturamento de US$ 32,3 bilhões, 115 mil funcionários e com forte atuação no mercado de consumo americano, que representou 43% da receita, 34% no food service, segmento este de grande agregação de valor para os produtos, 17% nas exportações e 6% em outros mercados. Em 2011, abateu 42,3 milhões de aves, 141,75 mil bovinos e 398,72 mil suínos, distribuídos em 101 plantas de abate e processamento; uma empresa muito ligada ao mercado americano, apesar de sua atuação global.

Alguns fatores vêm trazendo intranquilidade ao mercado interno americano. O impacto da política do etanol do milho, que fez com que o custo de produção das carnes se elevasse acentuadamente e colaborou para a redução no consumo de carnes; e o abate de fêmeas de bovino no ano passado, um recorde para a pecuária americana, mas que diminuiu o seu rebanho e projeta, para os próximos anos, uma redução na disponibilidade de carne no mer- cado interno e para exportação.

O setor de aves também foi muito afetado e não teve o mesmo sucesso que os bovinos e suínos na transferência do aumento de custo para o consumidor final. Empresas em dificuldades e resultados negativos marcaram 2011 neste segmento. Um ajuste está em curso com redução de produção e adequação de custos, ajudado pela retração nos preços da soja e milho, principais insumos na criação de aves.

Outro desafio de ordem de produto é a recente controvérsia a respeito do LFBT – Lean Finely Textured Beef (Carne Magra Finamente Texturizada) –, uma carne obtida por processo de separação da gordura pelo uso de amônia, sobre a qual a mídia americana apelidou de pink slime (na tradução livre, algo como gosma rosada). A LFBT está em processo de banimento pelos consumidores, o que vai levar a indústria da carne moída, hambúrguer e almôndega – proteínas bovinas estas populares nos Estados Unidos – a elevar os seus preços ainda mais e diminuir a oferta destes produtos no food service e varejo em geral. Acho que vale a pena falarmos desse produto em um futuro próximo a vocês, caros leitores.

Como se já não bastassem tantos problemas, a administração Obama está orçando para 2013 um incremento de 91% nas taxas pagas pelos processadores ao Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), passando dos atuais US$ 139 milhões em 2012 (orçamento estimado) para US$ 266 milhões.

O secretário de Agricultura norte-americano, Tom Vilsak, em recente declaração à imprensa, temperou de forma bem salgada esse prato para os processadores e frigoríficos. Para se ter uma ideia, em 2011, foram faturados US$ 103 milhões em taxas pagas ao USDA pelos seus serviços de inspeção, portanto, estes custos extras vão entrar na cadeia das carnes e chegar ao consumidor final ou vão acabar por reduzir os lucros das empresas.

Além do aumento de taxas, o dinheiro a ser aplicado em marketing e programas regulatórios será reduzido de US$ 1,94 bilhão para US$ 1,84 bilhão. A justificativa do governo é que, com esse orçamento mais enxuto, serão poupados postos de trabalho. Mas isso não impediu que essas reduções de verba no departamento nos últimos dois anos tivessem o efeito de reduzir a força de trabalho em, aproximadamente, 7 mil homens e fechamento de 259 escritórios do USDA espalhados pelos Estados Unidos.

Por outro lado, as demais modificações no orçamento propostas são o aumento da verba para pesquisa, que sobe para US$ 2,6 bilhões, US$ 100 milhões a mais que 2012; US$ 6,1 bilhões em programas de energia limpa; e US$ 328 milhões em pesquisa para desenvolver alimentos que suportem a redução da obesidade infantil, segurança alimentar e bioenergia sustentável. Portanto nem tudo está perdido.

 

Hudson Carvalho Silveira é formado em Engenharia Química Industrial com MBA em Administração pela Fundace- USP. Possui experiência de 15 anos no setor, em empresas como Wal-Mart Brasil, Bertin e JBS-Friboi. Hoje, atua como consultor internacional no segmento de alimentos.

 

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