Na quarta-feira, as cinzas da Imperatriz – Por André Bartocci

Por André Bartocci, pecuarista e formado em Direito. Realiza recria e engorda com Integração Lavoura e Pecuária na Fazenda Nossa Senhora das Graças, em Caarapó – MS.

Uma ESCOLA de SAMBA tem, entre suas missões, difundir a cultura e preservar a história do Brasil.

ESCOLA remete à didática, à orientação, à informação de um público interno, o seu povo, e também para um turista internacional. Além de envolver em emoções milhares de pessoas, a Escola de Samba passa, através da poesia e da fantasia, as realidades brasileiras.

Antes de definir um enredo, as Escolas realizam, ou elas deveriam realizar, pesquisas históricas para não sair do real, ou não “FALAR BOBEIRA” e levar nota baixa na avenida.

Portanto, apesar da Licença Poética concedida a estas entidades, é imprescindível que sua proposta seja legítima e ancorada em fatos coerentes com a realidade. E que tenham um mínimo de bom senso.

A Imperatriz é uma escola vencedora e muito competitiva. Desde a década de 80, sempre se posicionou entre as melhores, inclusive recebendo vários títulos do carnaval do Rio e o tricampeonato no século XXI.

Tem no seu currículo importantes Sambas como: “O teu cabelo não nega” e o clássico “Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós”.

Porém, no enredo criado para o carnaval de 2017, esta importante empresa carioca errou, perdeu a mão, está desinformada e muito desatualizada!

Mesmo se a intenção não fosse atacar o setor produtivo, eles pecaram, por culpa, ao não prever as reais conseqüências de abordar temas complexos sem a devida responsabilidade. Na melhor das hipóteses, foi leviana.

Logicamente, parte desta culpa se deve ao setor agropecuário que se preocupa pouco com sua imagem.

Mas isto não dá o direito de, no maior espetáculo cultural do Brasil, existir alas e fantasias com nomes pejorativos como estes:

  • Fazendeiros e Seus Agrotóxicos
  • Olhos da Cobiça
  • Doenças e Pragas

Ou estrofes, com fraca poesia, mas com um ataque generalizado à produção e ao progresso:

…”belo monstro rouba as terras dos seus filhos

devora as matas e seca os rios 

tanta riqueza que a cobiça destruiu.”

Será que o setor de pesquisa desta Imperatriz não se convenceu que os efeitos colaterais de uma produção agrícola pujante e do progresso são mínimos perto do atraso que seria se eles não existissem?

Inclusive, para a população indígena, que nos últimos vinte anos foi a etnia que mais cresceu dentro da população brasileira (de 294 mil para 734 mil pessoas em apenas nove anos, dados do IBGE).

Além disso, apesar de seus criadores afirmarem que o enredo se trata de uma exaltação da paz, estrofes como estas que em áreas de conflito iminente, são um convite para o confronto:

…”jamais se curvar, lutar e aprender…”

… o sonho de integrar uma nação

           o índio luta pela sua terra

da Imperatriz vem o seu grito de guerra.”

Lembrando que, no país, existem zonas quentes com muita insegurança jurídica no Mato Grosso do Sul, na Bahia, no Rio Grande do Sul, no Pará, no Paraná, em Roraima. Com certeza, em fevereiro todos estarão ligados na telinha enquanto o “Hino de Guerra” é entoado.

Será que os criadores do enredo não percebem que respostas simples para problemas complexos como a Causa Indígena, com séculos de política pública equivocada, só leva à filosofia barata e contribui com a ignorância? E o pior: este tipo de atitude, sem o real comprometimento com a causa, alimenta o preconceito e a intolerância e, definitivamente, os que mais sofrem com esta confusão é o lado mais fraco, no caso os indígenas!

Será que esta digna Senhora Imperatriz (eu disse imperatriz) não observou que o marketing populista do “nós os fracos contra eles os fortes”, do “nós os puros contra eles os monstros (belos!)”, do “nós do bem contra eles do mal” ficou no longínquo e fantástico ano de 2016 junto com uma reluzente Estrela!

E será que por esta falta a Escola de Samba será penalizada? Não sei.

Sei que nós produtores não nos ofendemos tanto com o apelo populista e leviano do enredo, pois sabemos que estamos mais próximos de Heróis do que de Monstros, mesmo que parte das pessoas ainda tenha dúvidas.

O que sei é que a Imperadora criou uma boa oportunidade para o Brasil mostrar que sua vocação é produzir Alimento, Fibra e Energia através de tecnologias tropicais desenvolvidas por brasileiros, respeitando o meio-ambiente e a diversidade étnica da sua população da forma mais Sustentável do Planeta.

Uma boa dose de informação real, para os foliões e para os turistas, além de textos informativos bem embasados para os juízes do Samba, poderão definir na quarta-feira de cinzas o destino da Inconsequente Imperatriz!

E, quem sabe, nós caipiras poderemos receber da população um sonoro NOTA DEEEEEZ!!!

Por André Bartocci, pecuarista e formado em Direito. Realiza recria e engorda com Integração Lavoura e Pecuária na Fazenda Nossa Senhora das Graças, em Caarapó – MS.

20 opiniões sobre “Na quarta-feira, as cinzas da Imperatriz – Por André Bartocci”

  • Silvia Morgulis - 09/01/2017

    Excelente texto André!

  • Paulo Laerte de oliveira - 09/01/2017

    Porque não falam sobre o desmatamento sub urbanos no Rio de Janeiro; áreas de APPs nos morros?
    Cadê as matas do Rio?
    Os desmatamentos lá foram pelos produtores ?
    Os índios de lá, onde estão?
    Cadê os córregos, nascentes,estúarios e lagoas?
    Quem fez e continua fazendo?Os imperadores ou “IMPERATRIZES”?

    • Elton John Sousa Bezerra - 10/01/2017

      Tá um milhão de vezes certo você.

  • Adenilce Ruzzon - 09/01/2017

    Parabéns pela iniciativa André !

  • Rodrigo Paniago - 09/01/2017

    André, excelente texto. Parabéns pelas colocações e pelo puxão de orelha.

  • Belkiss Gratão - 10/01/2017

    Disse tudo Bartocci, muito coerente e didático!! Nós produtores rurais ,temos que divulgar mais o nosso trabalho!!!
    Que venham as cinzas da Imperatriz…

  • Rodolfo - 10/01/2017

    Parabéns meu amigo André,cirúrgicas palavras em um contexto tão adverso para o produtor rural!!! O Brasil tem que conhecer de perto a verdade sobre os índios e os produtores rurais e não ouvir de 6 dúzia de palhaços certamente comprados com dinheiro de Ongs por certo até financiadas com verba pública !!!! Um abraço e Tamo junto !!!

  • Paulo Belluzzo Genta - 10/01/2017

    Sou pecuarista, porém não agricultor.o que se deveria fazer é uma estátua em praca pública,por uma classe prospera,cada vez mais evoluída tecnologicamente, trabalhadores ao extremo(tenho diversos amigos que somem do convivio social no plantio e na colheita) a qual devemos a única atividade exportadora sólida nesses anos de commodities fracas. Fica meu apoio e admiração pela classe.

  • Ricardo Nicolau - 10/01/2017

    Excelente Bartocci, impecável!

  • Paula Nocera - 10/01/2017

    Parabéns pelo excelente texto! Vamos unir esta força produtiva que alimenta nações com o trabalho honesto de sol a sol, cuidando do solo e dos rios , mais do que tudo, pois deles depende para seu próprio ganha pão.

  • Flaviane Afonso - 10/01/2017

    Excelente texto André, parabéns! Abraços

  • Eng. Agr. Thomas Altmann - 10/01/2017

    Prezado André Bartocci, seu texto é o melhor que li desde o início dessa polêmica. Também concordo que isso aconteceu pela dificuldade crônica que o agronegócio tem de dialogar com a sociedade urbana. Por outro lado, li com atenção o texto em que o carnavalesco da Imperatriz, Cahe Rodrigues, tenta se explicar e tergiversa ao dizer que sua intenção não era criticar todo o setor, mas apenas aqueles que sabidamente usam agrotóxicos e não praticam a sustentabilidade. Acredito, portanto, que esta seja a questão central do debate: a ideia de que os agrotóxicos (e o Brasil é o único país do mundo que adota essa terminologia) são um mal em si mesmo, e as diferentes interpretações sobre a palavra sustentabilidade. Os agrotóxicos são uma das mais importantes ferramentas de preservação do potencial produtivo das plantas cultivadas. Sem eles, a produção agrícola diminuiria entre 30 e 40%, causando colapso na economia e na segurança alimentar da população. Possuímos a legislação mais rigorosa do mundo nessa área, os produtos são cada vez mais modernos e seguros, e todos os estudos sérios não registram casos de danos à saúde e meio ambiente quando utilizados de forma profissional e adequada. Com relação à sustentabilidade, penso que o simples fato de nos últimos 20 anos termos praticamente dobrado a produção de grãos, enquanto a área plantada cresceu apenas 20%, o maior exemplo de prática agrícola sustentável do agronegócio moderno. Essa eficiência salvou mais de 50 milhões de hectares do desmatamento. Vê-se claramente que o que existe, de fato, é uma mistura de desinformação e ideologia barata, e o resultado dessa equação é sempre negativo. Parabéns.

  • Americo de Almeida Santos - 10/01/2017

    Muito bom o texto do André, mas tem q ser dada uma resposta paupavel, mostrar quem de fato esta financiando essa escola, inserçao na TV, protesto durante o desfile etc… . As entidades do agro tem q se mecher!!! Alguma coisa real tem q ser feita.

  • alter picada souto - 10/01/2017

    garanto que muitos presidentes e poetas das escolas de samba, ajudaram a entupir os córregos e rios que atravessam as cidades de garrafas pet, pneus e merda etc. Moral de cueca.

  • Caetano. - 10/01/2017

    Nos do agronegócio deveríamos ir ao carnaval, na passagem da escola viramos de costa como sinal de protesto. 👍👍👍👍

  • Milton Gonçalves Dias Filhomil - 11/01/2017

    Infelismente fazemos parte de um país que as pessoas acham que o ovo é produzido no supermercado. Uma lastima este enrredo escolhido por esta escola de samba. Isto é o Brasil!!!!.
    Milton Gonçalves Dias Filho
    10.01. 2017.

  • Naldo rezende - 11/01/2017

    Wagner Lucena, seu comentário é de extremo equivoco, não imposição de opniao apenas respeito mútuo a cada classe lembrando que o agro negócio é a base de sustenção dá economia do país que você está inserido, além disso é sob a tributação desse imenso segmento econômico do país que saem as verbas destinada ao ministério dá cultura que patrocina a sua festa, que gera um impacto nocivo na educação de milhares e milhares de crianças e adolescentes que são induzidos aos “trabalhos paralelos” também gerados pela festa que você sugere mais patrocinio. Estude mais, leia mais, entenda mais do que está falando, pois a vida não é samba. Lembre do agronegócio quando você abrir sua geladeira e tente imaginar de onde veio, incluindo o leite que seu filho bebe.

  • Paulo Cesar Bastos - 11/01/2017

    Valeu o texto, oportuno e motivador. Precisamos e vamos avançar.

    Esse pretenso Carnaval Anti-Agro nos ensina muito, tanto A FAZER como a NÃO FAZER

    A FAZER

    O Agronegócio urge e precisa inovar e melhorar a sua estratégia de marketing institucional.

    Dizia o Velho Guerreiro Chacrinha: “Quem não comunica se trumbica”. A sabedoria popular, ainda, diz mais: “Quem não é visto, não é lembrado”.

    Posto isso, é indispensável que a sociedade saiba a verdade e compreenda a realidade sobre a produção rural. Enquanto o litorâneo pede sol brilhante, o produtor trabalha com sol escaldante e pedindo a chuva mais constante. Óbvio e elementar, mas falta divulgar e prestigiar quem abastece o Brasil e, ainda, vende para o além mar.

    Em lugar do momento da contrariedade, agora poderá ser a hora da oportunidade. Com as pedras atiradas poderemos construir uma ponte para unir a cultura rural com a urbana. É fundamental repensar o setor, revendo os conceitos e equacionando as divergências para romper os bloqueios que favorecem as análises equivocadas em relação ao agronegócio. Enfim, vale participar e comunicar, em alto e bom som.

    NÃO FAZER
    Ficar parado vendo a banda, a batucada e a escola de samba passar.

  • Luciano Araújo Fortes - 11/01/2017

    De grande valia o texto André, Parabéns e mais um aprendizado com o que o amigo Paulo Cezar Bastos mencionou, que tenhamos um farto ano.

  • PAULO SERGIO TELES - 20/01/2017

    Senhores ” ai do Carnaval” enquanto vocês brincam, bebem, e tem alegria no dia seguinte com a barriguinha quente é porque nos estamos trabalhando para alimenta-los quatro vezes ao dia. Imaginem um Supermercado Vazio… façam esse enredo.

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