Demanda pela carne reage à queda na oferta. E o boi? – Por Alberto Pessina

Por Alberto Pessina, engenheiro agrônomo e diretor da Agropecuária Pessina.

Em meu último artigo, Crise, demanda fraca e o mercado da carne. O que esperar do segundo semestre? levantei algumas possibilidades em relação à oferta de carne e à reação dos preços. Pois bem, ao analisarmos o Gráfico 1, também mostrado no artigo anterior, podemos perceber que houve, sim, uma redução na oferta de carne ao mercado. Algo ao redor de 860 mil toneladas de equivalente carcaça em agosto (projeção) contra 878 mil toneladas em junho, ou seja, uma redução de apenas 1,9% entre o pico em junho e agosto. Podemos perceber também que, apesar da queda, os preços caíram ao invés de subir.

Gráfico 1 – Produção de Carne (SIF) X Preços da Arroba do Boi Gordo (ESALQ)

grafico-1

No entanto, ao analisarmos o gráfico 2, onde observamos as cotações diárias, percebemos que a partir de meados de agosto, a carne começou a reagir à redução na oferta e que vem subindo fortemente desde então. Isto nos indica que o efeito da redução na oferta, que está se mantendo de forma mais significativa em setembro, já está impactando fortemente sobre os preços da carne, conforme havíamos comentado no artigo anterior. Esta redução na oferta deve ter se acentuado ao longo deste mês, pois os preços da carne já ultrapassaram o seu último pico R$ 155/@ em Jan/16 e R$ 154/@ em Mar/16. Destacando que a arroba do boi gordo também atingiu seu último pico a R$ 159,49/@ em Abr/16.

Este movimento também nos dá um bom sinal em relação à demanda, pois nos indica que o consumidor aceitou pagar mais caro com a redução na oferta. Se este movimento não ocorresse, seria um sinal muito ruim em relação à demanda.

Porém os preços do boi gordo ainda não reagiram ao aumento dos preços da carne, movimento este que já ocorreu no passado, conforme pode ser visto em alguns momentos do Gráfico 2 (linha azul ultrapassa a linha vermelha). Este movimento não é comum, pois a correlação entre a carne e o preço do boi é muito forte. Isto nos indica que os preços do boi devem reagir ao longo dos próximos meses, caso a oferta de animais continue reduzida.

Gráfico 2 – Preços do Equivalente Físico (carne sem couro nem sebo), Índice Esalq (coluna à esquerda) e Dólar (coluna direita) – ESALQ

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Os patamares da carne ao redor de R$ 157/@ no mercado físico hoje (Eq. Físico no Gráfico 2), já permitem a arroba do boi elevar-se para patamares atingidos em Abr/16, algo ao redor de R$ 158 a 160/@.

No entanto, temos que estar atentos ao movimento do dólar versus o valor da tonelada de carne exportada. No gráfico 3, podemos perceber que quando transformamos a tonelada de carne vendida ao mercado externo em R$/ton, esta apresentou uma perda em Reais, devido à valorização da moeda. Nos últimos meses, a indústria teve perdas em volumes vendidos devido à tentativa de repasse desses valores. Porém,  recentemente, com a queda na oferta, os mesmos estão melhorando, mas, ainda não retornaram aos patamares anteriores.

Gráfico 3 – Valores da tonelada exportada em Reais/ton

grafico-3

Estes cenários indicam que a demanda, tanto interna quanto externa, tem reagido à redução na oferta, porém ainda não indicam uma melhora da mesma. E, que um aumento na oferta pode voltar a trazer preços mais baixos.

Desta forma, enxergo apenas dois pontos que podem nos proteger de uma eventual retomada da oferta de gado. Em primeiro lugar, a retomada da economia brasileira traria um impacto maior sobre a demanda e, dependendo da sua força, poderia sustentar ou até elevar os preços da arroba. Em segundo lugar, a abertura de novos mercados auxiliaria a reduzir a oferta interna e também traria um alivio na pressão sobre os preços. Na falta dos dois pontos, um aumento na oferta de carne voltaria a pressionar os preços para baixo.

Por Alberto Pessina, engenheiro agrônomo e diretor da Agropecuária Pessina.


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