Agricultura Digital: o sonho da fazenda conectada já é possível no Brasil?

Texto por Maria Fernanda Espinosa e Mayara Soares / Vídeo por Bruno Favery e Ellen Simão , paro blog ti + simples.

Antes de falar sobre como foi o Colloquium, encontro entre acadêmicos, profissionais do mercado e experts do laboratório de pesquisas da IBM Brasil, vamos contar uma história. Mariana Vasconcelos, uma menina de Itajubá, Sul de Minas Gerais, filha de produtor rural, foi criada vendo todos os desafios do campo, a necessidade de mão de obra e de estar na labuta no dia a dia para entender o que acontece com as plantações e criações. Durante o tempo em que estava na fazenda do pai, começou a perceber a necessidade de otimizar processos e reduzir custos – a maioria das tomadas de decisão no campo é feita por intuição, sem saber se está correta ou não.

Mariana foi uma das desbravadoras da tecnologia. Formada em Tecnologia da Informação pela Universidade Federal de Itajubá, ela, que trabalhava com a Internet das Coisas, se questionou “por que não aproveito esse conhecimento e aplico em um problema que está dentro de casa?”

Foi o que ela fez!

Não sem passar “uns maus bocados” com o pai. Segundo nos cont2016_08_30_colloquium-23ou, ele foi muito resistente no início, pois achava muita loucura a agricultura caminhar com a tecnologia, além de alegar que ela não tinha tanta experiência e talvez não conseguisse lidar com os desafios do campo. Entretanto, mesmo com a barreira da geração, ele começou a acreditar nela e nos seus sócios. Inclusive, os primeiros testes foram feitos dentro da própria fazenda!

A quebra de paradigma é um dos desafios dos produtores rurais atualmente. Quando a questionamos sobre o assunto, ela nos disse que eles até possuem conhecimento e interesse na tecnologia, mas que a questão do acesso não é um facilitador para chegarem às ferramentas que podem lhes ajudar no dia a dia.

Quando finalizamos nossa entrevista, pedimos para a Mariana dar um toque para a geração nova que está tentando engajar a tecnologia e o campo. “A nova geração, de tecnologia, acredita que sabe tudo, mas deve ainda acreditar na experiência de quem está no campo. A tecnologia faz o papel de ajudar as pessoas a tomar decisões, e não a tomar seu lugar”, explica. Ela acredita que todos devem levar em consideração o conhecimento dos produtores. “Eles têm tradição, observação, anos de experiência e isso tem ser aliado da tecnologia”, afirma.

No caso da Agrosmart, empresa da qual Mariana é CEO, eles transformaram aquilo que tinham no campo em um modelo. Foi uma combinação do que sabiam a partir de pesquisas, conhecimento e prática como produtor para inserir como referência e transformar isso em tecnologia.

Depois de toda essa história, vocês imaginam o que aconteceu, não é mesmo?

Hoje, a Mariana lidera a Agrosmart, startup com sede em Campinas que criou um aplicativo que conecta o agricultor à sua plantação, reduzindo o consumo de água na irrigação. Além disso, a mineira foi selecionada entre mais de 500 pessoas para representar o Brasil como bolsista na Singularity University, universidade da Califórnia ligada a Nasa (a agência espacial americana).

Na verdade, iniciamos esse post com a história da Mariana para ilustrar uma realidade atual. O que está acontecendo hoje é que um número maior de empresas está interessada em descobrir inovações tecnológicas para o dia a dia no campo. Por outro lado, assim como pontuou a mineira, ainda existem algumas barreiras para chegar aos produtores: culturais e de acesso à tecnologia.

Durante sua palestra, o pesquisador da Embrapa, Lúcio André, explicou que cerca de 70% dos pequenos agricultores ainda não estão engajados com a tecnologia. Segundo ele, a agricultura digital é realidade para uma parte dos produtores, mas ainda existem desafios quanto ao custo (dependência de sensores, computadores para processamento etc). Um olhar positivo para tudo isso é que os filhos dos agricultores já estão nascendo com o celular na mão, o que já ajuda no desenvolvimento da tecnologia. Lúcio acredita que, desta forma, o filho, que normalmente saía do campo para “tentar a vida na cidade grande”, a partir do conhecimento da tecnologia, aprende e volta para o campo para aplicar os conhecimentos. Para ele, o sonho da fazenda conectada não está longe de ser uma realidade.
Ok, mas o que o Colloquium 2016 apresentou que fecha a relação com tudo isso que falamos acima? Primeiro: tecnologia. Segundo: inovação em agricultura digital. As apresentações da Mariana e do Lúcio foram uma forma que encontramos para introduzir um assunto gigantesco e que, cada vez mais, estará no cotidiano dos produtores rurais.

O evento contou com palestras [excepcionais] sobre a importância da agricultura, como foi a da Robin Loungee, pesquisadora do IBM Research, que falou sobre os projetos e iniciativas da IBM neste campo. Além dela, Ado Jorio, doutor e coordenador do Laboratório de Nanoespectroscopia da Universidade Federal de Minas Gerais (LabNS/UFMG), explicou a modificação do solo da Amazônia, com alta concentração de carbono, a partir da queima de florestas pelos índios da região. E o diretor executivo da Agrosatélite, Bernardo Rudorff, também conquistou a plateia contando a atuação da companhia em mapeamento e análise geoespacial para bioma do cerrado.

Quem esteve no evento também pôde assistir a algumas demos (versões demonstrativas) de softwares desenvolvidos pelos pesquisadores do IBM Research Brasil, voltadas para o agronegócio. O Laboratório já possui alguns anos de pesquisa e desenvolvimento em plataformas capazes de integrar múltiplos sistemas cognitivos para a descoberta, desenvolvimento e produção sustentável de recursos naturais.

Algumas dessas tecnologias já podem ser usadas no campo, como:

Análise de imagens: chamado LandWatcher, essa plataforma permite que o usuário consiga selecionar várias áreas do seu interesse para serem monitoradas e coletadas, processando dados geoespaciais a partir de fontes público-privadas. Dessa forma, os módulos conseguem classificar cada elemento da cena, em diferentes categorias.

AgroVisual Drone, que une Cloud e Computação Cognitiva para auxiliar na tomada de decisão. Essa outra plataforma utiliza um drone, que sobrevoa a área de seu interesse, permitindo a visualização da imagem online e em tempo real, enviando as informações para a plataforma da IBM, que armazena, classifica e reconhece diferentes espécies da flora.

Além disso, os pesquisadores apresentaram um sistema de cálculo de irrigação para diferentes cultivos. Imagina que demais diminuir drasticamente o desperdício de água?

Outra proposta apresentada é baseada na plataforma de computação cognitiva da IBM, o Watson, capaz de ler informações públicas sobre o processo de produção agrícola, e assim, responder a perguntas de produtores sobre diversos temas, por meio da web e até aplicações para dispositivos móveis.

A agricultura digital é um conceito e uma prática que se tornou indiscutível. Ninguém negocia com esse fato: precisamos aumentar a produtividade no campo, eliminar desperdícios e reduzir custos de produção. O conceito envolve a coleta e análise de dados utilizando uma variedade de sensores, plataformas e aplicações. A tecnologia é sem dúvida uma ferramenta poderosa no processamento de todos esses dados. As tomadas de decisão, baseadas em evidências e insights para o negócio dependem ainda mais que os maiores envolvidos nesse processo conheçam e tenham acesso a essas tecnologias, que têm como objetivo principal melhorar cada vez mais o produto final do agronegócio, que está relacionado a milhares de pessoas, todos os dias.

Texto por Maria Fernanda Espinosa e Mayara Soares / Vídeo por Bruno Favery e Ellen Simão , paro blog ti + simples.


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