Agronegócio só apoia Marina se ela reescrever programa – entrevista com Roberto Rodrigues

O coordenador do Centro de Agronegócio da Fundação Getúlio Vargas, Roberto Rodrigues, diz ainda haver desconfiança a respeito de Marina Silva. Para que a candidata a presidente pelo PSB dissipe dúvidas, terá de “reescrever” parte do seu programa antes do final da campanha eleitoral.

Rodrigues foi ministro da Agricultura de 2003 a 2006, durante o primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva. Em entrevista ao programa Poder e Política, da Folha, aponta dois aspectos principais que considera necessários para Marina conquistar o apoio mais amplo do setor de agronegócio.

Primeiro, esclarecer que a meta de “desmatamento zero” no programa de governo do PSB se refere a “desmatamento ilegal zero”. Para ele, zerar o desmatamento é “um pouco utópico”. Acredita que seja necessário “abrir algum cerrado” no Brasil para garantir o suprimento de alimentos no futuro.

Segundo, que o índice de produtividade de propriedades rurais (usado em casos de desapropriações) sirva para premiar quem consegue bons resultados, e não punir os que ficam para trás.

Rodrigues diz ter expressado essas condições nesta semana para Beto Albuquerque, candidato a vice-presidente na chapa com Marina Silva. “Ele concorda que o tema [desmatamento] deve ser trabalhado na linha da legalidade  [Sobre o índice de produtividade], foi mais enfático: disse que houve uma má interpretação. Falou que o objetivo é dar prêmios aos mais produtivos, em vez de castigo aos menos. O índice de produtividade será um bônus, não um ônus ao produtor”.

Seria “ótimo” se Marina vocalizasse essas propostas, mas insuficiente para convencer o setor, diz Rodrigues. Para ele, “tem que reescrever o programa”.

No primeiro turno da eleição presidencial, Roberto Rodrigues afirma que votará em Aécio Neves (PSDB). No segundo turno, se a disputa ficar entre Marina e Dilma Rousseff (PT), não revela sua preferência. Dá a entender que ele e muitos empresários do agronegócio vão aguardar mais compromissos de ambas as candidatas.

Diz que Dilma “não é” campeã de popularidade do setor. E que a petista e Marina Silva “têm que olhar para o setor com especificidades”. Acha que a candidata do PSB parece ter demonstrado “uma disposição ao diálogo muito maior que no passado. (…) As pessoas aprendem mais, isso é possível, todo mundo vai para a frente”. Mas ressalta: “É importante que a candidata [Marina] diga de maneira clara o que ele [Beto Albuquerque] está dizendo”.

Com mais de 50 anos de atuação no agronegócio, Roberto Rodrigues defende fundir os ministérios da Agricultura, do Desenvolvimento, da Pesca e do Meio Ambiente em apenas um: o Ministério da Agricultura, Floresta e Pesca. O objetivo seria reduzir a “dispersão de recursos” e harmonizar estratégias. Afirma ter ouvido uma concordância a respeito por parte de Beto Albuquerque.

Indagado sobre a antiga rixa entre ruralistas e ambientalistas, Rodrigues acredita que a aprovação do novo Código Florestal, em 2012, “arrefeceu” os ânimos ao estabelecer regras claras. Hoje haveria mais conhecimento sobre a importância do meio ambiente. “O produtor rural tem convicção de que se não preservar o solo, tem erosão, se não cuidar na beira de rio, vai ter problema de desagregação. Então, ele virou um ambientalista”, diz.

Rodrigues, que também preside a Unica (União da Indústria de Cana-de-Açúcar), afirma que o setor passa por uma crise devido ao preço desfavorável do etanol em relação à gasolina. A solução, defende, passa pela retomada da Cide (Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico), empréstimos do BNDES para modernizar as caldeiras e uma política governamental de longo prazo.

Para Rodrigues, a magnitude da ajuda necessária para o setor é equiparável ao Proer [Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional], implementado em 1995 no início do governo de Fernando Henrique Cardoso para sanear bancos em dificuldade.

Folha/UOL – O ex-presidente Lula, no seu primeiro mandato, falou muito no desenvolvimento de biocombustíveis. A partir de 2007, quando a Petrobras confirmou a existência do pré-sal, o tema foi relegado a segundo plano. Como essa guinada afetou o setor de cana-de-açúcar?

Roberto Rodrigues – Duramente. E não foi o pré-sal o ponto de inflexão desse processo de desprezo pelo setor. A crise de 2008 também afetou o setor fortemente, por causa da equação de preços entre gasolina e etanol. Naquele tempo, nós estávamos crescendo 10% ao ano, de 2003 a 2009. Depois, começou a cair 1% ao ano, uma situação horrorosa. Muitos investimentos nacionais e estrangeiros atraídos para o setor pelo próprio presidente Lula, pois o etanol era a menina dos olhos dele, se endividaram com a redução da renda, secas sucessivas e a redução da Cide [Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico]. E com a manutenção da gasolina com preços estabilizados para combater a inflação, gerando prejuízo também para a Petrobras. Houve um desastre brutal. Hoje há mais de 60 usinas paradas, das quais mais da metade está em recuperação judicial e 50 mil empregos perdidos na cadeia produtiva.

O que precisaria ser feito para recuperar esse setor?
Isso pode ser feito em duas etapas. A primeira é recuperar a renda com a volta da Cide. Isso resolve o problema da renda, mas não a retomada de investimentos, porque a dívida do setor hoje total é igual ao valor de uma safra inteira. Não se consegue investimento só com a retomada da renda. Tem que ter um programa de investimentos.

Por exemplo, hoje praticamente 80% da safra de cana no centro-sul é colhida mecanicamente, quando a cana é crua. Antigamente, o corte manual exigia a queima da cana. A cana cortada crua deixa no solo uma quantidade enorme de palha seca, que fica no terreno. A palha do Estado de São Paulo e de Minas Gerais somadas, queimadas em caldeiras de usina, que já estão disponíveis, representa energia igual a uma Belo Monte, sem nenhum problema ambiental, sem nenhum problema de índio, ninguém atrapalhando o processo.

Um programa de financiamento de mudanças nas caldeiras das usinas daria uma injeção de energia extraordinária, exatamente entre maio e outubro, quando as represas são mais vazias.

Mas para fazer isso do que depende?
Tem que ter um plano de investimento. Vamos financiar via BNDES quem quiser trocar a caldeira. A proposta já está pronta.

Quanto custaria isso para o BNDES?
É muito difícil dizer, porque há usinas e usinas. Há usinas que moem 10 milhões de toneladas e usinas que moem 1,5 milhão de tonelada. A caldeira para cada uma é diferente. E já existem usinas com caldeiras preparadas. Tem que fazer um estudo mais preciso para dar uma resposta de quanto vale isso.

Mas mesmo isso é apenas um começo de conversa. É preciso olhar no longo prazo um Proer [Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional], porque tem hoje empresas que nem com a Cide, nem com investimentos em caldeira talvez não consigam sair da crise. Então, é preciso olhar de uma maneira muito mais abrangente com especificidade para cada região do país.

Há muitos anos há animosidade entre o agronegócio e o setor ambientalista. Como está a disputa política?
Talvez o símbolo dessa animosidade seja o Código Florestal. É uma discussão de mais de 10 anos que confluiu numa legislação que não era a melhor possível. Mas tem uma característica positiva: ninguém gostou, nem ambientalistas nem agricultores.

Desagradou-se a todos?
Todo mundo ficou infeliz. Eu acho isso ótimo, porque se só um lado achasse isso, o outro teria sido prejudicado no processo. Como ficou equilibrado houve um arrefecimento na animosidade entre os setores.

Agora, todos trabalham, ambientalistas e produtores rurais, para implementar as decisões do Código Florestal. A implementação do CAR [Cadastro Ambiental Rural], que é um avanço espetacular porque garante a legalidade de todas as fazendas brasileiras que estavam praticamente na ilegalidade com a legislação anterior.

E, sobretudo, um tema que para mim é fundamental, o PSA [Pagamento por Serviços Ambientais], que é uma mudança conceitual relevante.

Explique o que é isso.
Antes, todo mundo que cometia um erro pagava multa, pesados tributos, e era jogado no inferno. Com o Código Florestal, regulamentando o que ainda está no Congresso [Nacional], os produtores que andarem bem terão prêmios, bonificações, inclusive em dinheiro, porque estarão sequestrando carbono com seus mecanismos de pagamento ambiental.

Isso muda completamente o cenário, dando ao produtor rural, com uma visão ambientalista, muito mais condições de crescimento econômico e social do que no passado. Junta ambientalistas e produtores, porque produtores farão cada vez melhor para receberem vantagens e esse mercado, cada vez melhor, atenderá aos ambientalistas. O Código Florestal é uma inflexão dessas relações.

O que havia no passado, eventual desmando do produtor rural em relação à questão ambiental, devia-se fundamentalmente a dois fatores. Primeiro, a ignorância. O tema não era conhecido. Segundo, falta de regras, de legislação. Agora existe. O produtor rural hoje tem convicção de que se ele fizer bem feito, ele terá benefícios. Mais do que isso: estará preservando o patrimônio dele que é a terra. Se não preservar o solo, tem a erosão. Se não cuidar da beira de rio, vai ter problema de desagregação. Então ele virou um ambientalista.

Quanto o setor agropecuário representa na composição do PIB hoje?
23,5% do PIB.

E nas exportações, o que representa?
No ano passado o saldo comercial do agronegócio brasileiro foi de US$ 83 bilhões. E o saldo comercial no Brasil foi de US$ 2,6 bilhões, incluindo o agronegócio. Os demais setores tiveram déficits de US$ 80 bilhões.

Nos últimos 20 anos o saldo do agronegócio é sistematicamente positivo e crescente, o que tem garantido o saldo comercial do país e a preservação das reservas cambiais.

Outro número, em 2003, 10 anos atrás, o agronegócio exportou US$ 30 bilhões. Dez anos depois, 2013, ano passado, US$ 100 bilhões, três vezes e meio a mais num período sobre o qual metade foi vivida dentro da maior crise financeira dos últimos 50 anos no mundo. O comércio mundial refluiu e o agronegócio triplicou as suas vendas. É muito competitivo.

O prazo estipulado para os produtores se adequarem ao Cadastro Ambiental Rural, processo no qual todas a propriedades rurais terão que ser mapeadas, é maio de 2015. Esse prazo é exequível?
Difícil.

O tem que ser feito então?
Tem que treinar gente para fazer isso. Defendo que o sistema cooperativista deveria se responsabilizar por isso num convênio com o Ministério do Meio Ambiente, formando gente. Tem que treinar. Não é uma coisa trivial. São 5 milhões de propriedades no Brasil e algumas não têm acesso.

O cadastro tem que dizer quanto cada propriedade tem de floresta, de reserva nativa, de reserva natural, de APP [Área de Preservação Permanente], toda a definição ambiental. Isso dará segurança institucional ao agronegócio brasileiro.

Quanto tempo o sr. acha que vai ser necessário para que isso esteja preenchido?
Difícil dizer, mas se houvesse um esforço concentrado numa parceria público-privada, acredito que em um ano e meio, dois anos, a gente dê um grande salto. Pode ficar um pedacinho sem fazer, mas será um pedaço pequeno.

O que o governo brasileiro pode fazer para superar as barreiras internacionais ao agronegócio?
Talvez as barreiras mais complexas estejam dentro do país.

Por exemplo?
É o custo do Brasil. Logística. Um saco de soja no Mato Grosso custa tanto quanto transportá-lo para o porto de Santos ou de Paranaguá. Isso tira a competitividade.

O segundo problema é a política de renda [garantia de preços mínimos aos produtos]. Qualquer país do mundo desenvolvido com agricultura importante tem política de renda muito clara, seguro rural que garante rendimento ao produtor, independente de preço de mercado ou de condição de clima. E por que isso é relevante lá fora? Porque os governos de países desenvolvidos entendem que o produtor tem que produzir para garantir o abastecimento interno e para exportar, ajudando o saldo comercial. Aqui, esse negócio não funciona ainda, embora haja esforços sucessivos de governos para melhorar isso. O atual ministro da Agricultura [Neri Geller] faz um esforço louco para melhorar o seguro rural, mas nós temos hoje menos de 10% da área brasileira coberta.

E política comercial. Hoje, 40% do comércio mundial de alimentos se dão no âmbito de acordos bilaterais entre países. Dois países fazem acordo bilateral para quê? Para aumentar o comércio entre eles, e com isso aumentar a riqueza, emprego e renda.

O Mercosul mais ajuda ou atrapalha o agronegócio no Brasil?
Atrapalha.

Por quê?
Porque o Brasil é 70% do agronegócio do Mercosul. Um acordo do Mercosul com a União Europeia seria fundamental para o Brasil e para o Mercosul. Nós não conseguimos fazer porque a Argentina não deixa. Então nós temos que ter uma posição diferente. Temos que ter acordos bilaterais, avançar em novos mercados, agregar valor ao produto agrícola.

E tem um monte de outras coisas. Uma estratégia articulada. No mundo inteiro, o Ministério da Agricultura se chama Ministério da Agricultura, Floresta e Pesca. Nós temos dois Ministérios da Agricultura -o MDA [Ministério do Desenvolvimento Agrário] e o Mapa [Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento]-, um de Floresta, o de Meio Ambiente, e um de Pesca. São quatro ministros disputando o mesmo espaço, o mesmo prestígio na mídia, o mesmo prestígio junto ao presidente da República, ao Parlamento. Há uma dispersão de recursos, e às vezes até de interesse, que podem ser conflitantes. Harmonizar isto é fundamental.

O sr. acha que um só bastaria?
Sim. A essência disso é que a estratégia seja do Estado brasileiro. De forma que o ministro seja o gestor dessa estratégia.

O Ministério da Agricultura é bem administrado hoje em dia e tem técnicos da melhor competência. A política agrícola está pronta no Ministério da Agricultura. Qual é o problema? Logística. Quem cuida? O Ministério dos Transportes. Comércio? O Itamaraty e o Ministério da Indústria e do Comércio Exterior. Meio Ambiente? Ministério do Meio Ambiente. Agroenergia? Ministério de Minas e Energia, Petrobras, ANP. A questão sanitária? Anvisa, Ibama. A questão dos Índios? A Funai. A questão dos orçamentos? Ministério do Orçamento, Ministério do Planejamento. O problema tecnológico? Ministério da Ciência e Tecnologia. Os instrumentos estão dispersos entre ministérios, agências e empresas do governo, e se não houver estratégia una nunca teremos uma agricultura crescente no país.

Como o sr. compara a gestão do Ministério da Agricultura na atual administração federal da presidente Dilma Rousseff à gestão da administração do ex-presidente Lula?
Sinto-me constrangido sobre uma comparação dessa. Acho que até por questões éticas eu não deveria fazer essa comparação. Mas o que se reclama é que houve uma espécie de partidarização do Ministério da Agricultura e isso criou uma certa barreira com o setor. Que não existe mais hoje, faço questão de frisar, porque o atual ministro é um homem do setor, conhece o assunto, inclusive montou um plano de safra para este ano que é muito bom do ponto de vista de Orçamento, [com] recurso para o crédito rural e financiamento para armazenagem. Então, tem uma nova visão, mas foram três anos com dificuldades nessa direção. Sem falar na agroenergia, que perdeu completamente a interlocução com o governo.

Temos três candidatos mais competitivos que disputam a Presidência da República. A presidente Dilma Rousseff, do PT, a candidata do PSB, Marina Silva, e Aécio Neves, pelo PSDB. Qual é o juízo que o sr. faz das propostas de cada um dos três para o agronegócio?
Eu tenho 50 anos de vida na agricultura sempre em órgãos de classe. Em eleições nesses 50 anos sempre o setor se organizou e levou aos candidatos propostas e planos de ação. Nunca houve a menor reação em relação a isso. Nesta eleição, os três candidatos procuraram o setor em busca de sugestões para um plano de governo.

Nós montamos um plano e enviamos aos três candidatos. Eles responderam. Aécio Neves e Eduardo Campos foram muito próximos do que nós pretendíamos. A presidente Dilma aproximou-se muito da presidente da CNA [Confederação Nacional da Agricultura], nossa maior líder, senadora Kátia Abreu (PMDB-TO), e o programa foi costurado entre ambas também com aproximação muito grande dos interesses do setor.

Os três candidatos, Aécio, Eduardo e Dilma, estavam muito próximos dos sonhos da agricultura. A tragédia de Eduardo Campos mudou um pouco o cenário. A candidata Marina Silva introduziu no programa alguns temas que não são tão afeitos aos interesses do setor.

Quais são eles?
Dois temas centrais. Primeiro ela ressuscitou o índice de produtividade como instrumento de medir a capacidade do produtor de produzir adequadamente num nível que atenda à determinação constitucional, segundo a qual toda propriedade rural tem que cumprir a sua função social, produzir, gerar emprego e proteger o meio ambiente. Quem não cumprisse isso ficaria sujeito a desapropriação.

E o outro item é o do desmatamento zero, que eu acho que é um pouco utópico. O mundo terá [mais] 2 bilhões de pessoas nos próximos 30 anos. Vamos precisar comer. 80% do crescimento da produção virá de produtividade, mas 20% virão de novas áreas no Brasil e em outros países do mundo.

O Brasil tem hoje 61% do território com florestas nativas do tempo de Adão e Eva. Abrir algum cerrado será necessário. A minha tese é desmatamento ilegal zero. Ou faz com legalidade, com autorização do Ibama, do Meio Ambiente, ou não pode fazer. Mas desmatamento zero eu acho que é um exagero.

O sr. conversou com o candidato a vice-presidente na chapa de Marina Silva, Beto Albuquerque, do PSB do Rio Grande do Sul. O que ele disse para o sr.?
Ele foi muito enfático.

Sobre desmatamento zero, o que ele fala que será de fato o programa num eventual governo Marina Silva?
Ele concorda que o tema deve ser trabalhado na linha da legalidade.

Ou seja?
O que for legal, o que for desmatamento autorizado legal, tudo bem. Ilegal, sem contemplação. O que eu concordo plenamente.

Ele disse que essa deve ser a linha de um eventual governo Marina.
[Disse] “concordo com a sua tese”.

E quanto ao índice de produtividade?
Ele foi ainda mais enfático. Disse que houve uma má interpretação desse tema. Que o pensamento da Marina, e sobretudo o dele e o do Eduardo, é que o índice de produtividade tem que ser usado como uma medição da competência dos produtores.

Como assim?
Aquele que for mais produtivo terá prêmios, em vez de castigo porque foi menos produtivo. De modo a estimular os que têm menos produtividade a serem também premiados no futuro. Então, o índice de produtividade terá um bônus e não um ônus para o produtor. Essa é a visão que ele me transmitiu claramente.

Algum outro aspecto que ele esclareceu para o sr. a respeito do programa de Marina Silva?
Não em relação ao programa, mas a uma visão dele e de Marina de que o Ministério da Agricultura teria a mesma visão colocada por Aécio Neves. Será um ministério fortalecido perante o conjunto dos ministérios. Ministro com meritocracia, que conheça o assunto e que tenha o respaldo da categoria, dos produtores rurais. São três pontos muito interessantes que mudam, digamos assim, a tática do programa da Marina.

O sr. deu uma declaração pessoal a respeito da sucessão presidencial, dizendo que deve optar pelo voto em Aécio Neves no primeiro turno. Tudo indica, entretanto, nas pesquisas, que o segundo turno possa ser apenas entre Dilma Rousseff e Marina Silva. Num eventual segundo turno entre Dilma e Marina, que dúvidas vão permanecer e que tipo de debate vai ter que acontecer a respeito do agronegócio entre ambas?
Essa é uma questão muito complexa e ainda no primeiro turno está indefinida. Por quê? Dilma Rousseff é respeitada pela CNA, tem o apoio da senadora Kátia Abreu, que consta que seria a ministra da Agricultura do segundo mandato da Dilma -o que seria ótimo para nós. Mas ela é muito benquista na fronteira agrícola, onde a logística e o crédito são fundamentais. Ela é muito querida no Mato Grosso, Tocantins, Pará etc.

Marina Silva é muito benquista no setor sucroenergético porque o etanol emite só 11% do que a gasolina emite, gera emprego, riqueza, o que está muito de acordo com a visão de Marina e ela já disse isso claramente.

E o Aécio tem o apoio numa região desenvolvida de Paraná, São Paulo, Minas Gerais. O setor está dividido até no primeiro turno.

O sr. particularmente vê mais clareza em Aécio Neves?
Por uma razão. A melhor proposta, a melhor resposta dada ao nosso plano, oferecido aos três candidatos, foi dada por ele. Eduardo Campos, quase idêntico, Marina teve esse adicional de periculosidade a que me referi. Na hipótese de Marina e Dilma irem para segundo turno será necessário esclarecer pontos que hoje não estão ainda suficientemente claros.

Dilma terá que dizer o que ela pretende em relação à agroenergia. Qual é a matriz energética para o país? Qual é o papel do etanol na agroenergia? Qual é o mecanismo para a recuperação nesse setor que gera um milhão de empregos só em São Paulo? É preciso que ambas se debrucem sobre o agronegócio com mais especificidade e com mais respostas às perguntas colocadas.

O sr. foi ministro da Agricultura na mesma época em que Marina foi ministra do Meio Ambiente e havia muita fricção entre essas áreas. O sr. acredita que Marina consiga debelar a resistência que existe em relação a ela?
É difícil responder isso. Marina, houve um período, na discussão sobre a transgenia, no começo do governo Lula, mais tarde no Código Florestal, em que ela teve posições muito duras contra o agronegócio. Isso gerou uma desconfiança muito grande. O governador do Mato Grosso foi chamado de ‘motosserra de ouro’ por ela.

Hoje, converso com ela e a vejo muito mais flexível e disposta ao diálogo. As pessoas dizem: “Mas claro, está na campanha eleitoral”. Então, acredito que para o segundo turno ela precisa ter muita sensibilidade e clareza para eventualmente retomar a confiança do setor.

Quem conversa com empresários e políticos ligados ao agronegócio percebe que Dilma Rousseff também não é uma campeã de popularidade no setor.
Não é.

Então teremos duas candidatas que enfrentam resistências do setor?
Razão pela qual ambas têm que olhar para o setor com especificidades. Dizer: “No assunto tal minha posição é X, no assunto tal, minha posição é Y”. Para que haja uma posição muito definida e o setor possa também se posicionar também com mais clareza.

No caso de Marina Silva, se ela assume um discurso público falando sobre o desmatamento zero ilegal?
Desmancha qualquer resistência a ela nessa área.

E sobre o índice de produtividade como um fator de incentivo para produtores e não apenas como fator de punição?
Ótimo, mas o que está escrito no programa não é isso. Então tem que reescrever o programa.

Na eventualidade de ambas fazerem concessões, quem o sr. acha que tem mais músculo eleitoral para convencer o setor no segundo turno?
Aí eu me socorro de Niels Bohr [1885-1962], que dizia: “A coisa mais difícil é fazer previsões, especialmente quanto ao futuro”. Não entendo nada de política. Entendo de agricultura. Sou jejuno em política e acho que essa resposta é totalmente impossível de ser dada agora.

Uma das propagandas na televisão da campanha da presidente Dilma Rousseff fala que Marina Silva, se eleita, reduzirá os subsídios dados pelos bancos públicos e que isso afetará a agricultura. É uma inferência correta?
Os subsídios que existem para o agronegócio são muito pequenos. E se houver algum subsídio para a agricultura familiar, tem que ser mantido. Com a economia globalizada avançando, há uma regra muito clara na agricultura, a margem por unidade de produto é cada vez menor. O pequeno produtor não tem escala. Então é preciso ter uma política para eles, específica para que tenha escala no conjunto -por exemplo, via cooperativas, associações de classe que agreguem valor à sua atividade produtiva.

Há um estudo feito pela OCDE [Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico] que mostra [somente] dois países do mundo com menos subsídio que o Brasil, a Austrália e a Nova Zelândia. Nós estamos muito baixo nos subsídios. Se houver alguma redução da proteção ao pequeno produtor o desastre será muito mais importante do que a manutenção de eventuais proteções.

O sr. não está descartando nenhuma das duas candidatas no segundo turno. Mas o sr. conhece Marina Silva, foi ministro junto com ela. Acha que ela consegue dar esses passos para tentar conquistar o setor?
Sinto nela uma disposição ao diálogo muito maior do que havia no passado. As pessoas aprendem, acabam se envolvendo com discussões diferentes daquilo que acreditavam e isso é possível. Todo mundo vai para frente. Eu acho que ela está hoje muito mais flexível, muito mais disposta ao diálogo do que estava no passado. Isso como consequência do contato muito estreito que ela tinha com Eduardo Campos, que era um homem com uma visão abrangente dessas questões muito disposto.

O próprio Beto Albuquerque, gaúcho, entende de agricultura. O Estado é eminentemente agrícola. Há espaço tanto para ela ampliar sua visão em relação ao agronegócio, quanto para Dilma Rousseff compreender que é preciso dar um novo tratamento, seja para agroenergia, seja para regiões do país que não sejam só fronteira agrícola.

No segundo turno considera viável votar tanto em Marina quanto Dilma dependendo do que cada uma calibrar no seu discurso?
Eu gostaria muito de votar no segundo turno no Aécio Neves.

Mas ele não estando, aí terá que escolher entre as duas?
É uma hipótese a ser considerada oportunamente.

Os passos dados por Beto Albuquerque ajudaram até agora?
Sem dúvida. Até agora tem desanuviado ambientes, mas acho que é importante que a candidata diga o que Beto está dizendo.

O sr. foi ministro do governo Lula. Imaginava, lá atrás, que em 2014 poderia votar até em Marina Silva para presidente?
Tem tanta coisa que eu nunca imaginava há 10 anos que é preciso fazer uma seleção dessas perguntas todas.

O sr. tem falado com o ex-presidente Lula?
Poucas, mas algumas vezes.

O que ele fala da sucessão presidencial para o sr.?
Para mim ele não fala nada não, ele sabe que eu não entendo de política então não fala nada.

Ele não pede “ajude a Dilma na eleição”?
Eu disse para ele que votaria no Aécio Neves.

Como ele reagiu?
Com uma simpatia enorme. Porque ele é um homem simpático, de bom senso, democrata. Ele é um democrata por definição.

Houve um tempo em que ele gostaria que eu entrasse em um partido político. Depois ele mesmo compreendeu que eu não tinha capacidade para fazer isso e me liberou desse processo. Então ele não trata de política, trata de agricultura comigo.

E em São Paulo? O sr. tem alguma posição formada sobre a eleição?
Sou muito amigo do Geraldo Alckmin, há muitos anos. Geraldo foi deputado federal constituinte quando eu era presidente da OCB, ca Organização das Cooperativas Brasileiras, tinha um contato muito estreito com o Congresso. E o Geraldo teve um papel relevante, ele e outro deputado paulista, o Mendes Thame, foram deputados muito atuantes na frente parlamentar do cooperativismo e da agricultura.

Em São Paulo o sr. deve votar em Geraldo Alckmin?
Tenho uma vinculação com ele. E sou amigo do Paulo Skaf [candidato a governador de São Paulo pelo PMDB], porque presidi a pedido dele o conselho do agronegócio da Fiesp [Federação das Indústrias do Estado de São Paulo], que ele criou e eu fui o implantador do processo. Tenho uma relação muito boa com ambos.

Mas deve votar?
No Geraldo, provavelmente.

Confira enquete BeefPoint:

Resultado da 2ª Enquete: Em quem a pecuária de corte vai votar para presidente do Brasil em 2014

Fonte: Folha de são Paulo, resumida e adaptada pela Equipe BeefPoint.

2 opiniões sobre “Agronegócio só apoia Marina se ela reescrever programa – entrevista com Roberto Rodrigues”

  • José Luiz Guimarães Souza - 22/09/2014

    Muito boa e esclarecedora essa entrevista, clara, franca e direta nas suas respostas.
    Só discordo quanto a sua afirmação de que não entende de política! Creio que quis dizer… “de política suja” e por isso saiu do governo Lula.
    Quanto a afirmação de que entende de agricultura isso sim e tenho grande admiração por ele e pelo trabalho à frente do Ministério da Agricultura.
    Concordo plenamente com suas colocações a respeito de como votar nas próximas eleições, tanto no primeiro como no segundo turno para a Presidência e também quanto para Governador de São Paulo e demais cargos.

  • Marcos Labury Gonçalves - 22/09/2014

    Parabéns ao Dr. Roberto pelas suas colocações. É muito gratificante “ouvir” uma pessoa com suas qualificações se expressar de forma tão clara sobre os assuntos abordados. Nos dá uma grande esperança de outros homens influentes como ele também se manifestarem!… Quem sabe eles não serão “ouvidos” pela classe política?

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