O mercado pecuário está mudando muito rápido e de uma forma que pode beneficiar muito os produtores de carne de alta qualidade. Ao mesmo tempo em que passamos por um período de ajuste de oferta, com retenção de matrizes, depois de um longo período (2002-2007) com abate elevado de fêmeas, é fácil perceber que a demanda segue em crescimento no Brasil e no mundo.
As previsões da consultoria européia Gira, que estuda o longo prazo de consumo de carnes em geral, indica que em 2020 o mundo vai comer mais carne de aves, suína, bovina e ovina. Todas as carnes vão crescer, puxadas pelo aumento da demanda mundial, em especial países emergentes como Brasil, Rússia, China entre outros.
O ponto chave é que a carne bovina vai crescer, mas muito menos do que o frango e o suíno. Isso vai acontecer porque no mundo todo, os países que produzem gado de corte percebem que carne bovina é cara, difícil e demorada de se produzir. Por mais tecnologia que se usa, uma vaca ainda leva 9 meses para gestar um bezerro, e mais 8-9 meses para desmamá-lo.
A conclusão desse cenário é que a carne vai se tornar cada vez um produto mais especial, mesmo com o consumo crescente. A carne bovina não vai ganhar nunca a corrida pelo menor custo. Frango e pescado vão sempre ter custos de produção mais baixos, pela velocidade do ciclo produtivo e também pela conversão alimentar.
Mas ninguém consome carne bovina por ser mais barata. Há décadas, no mundo inteiro a carne bovina é mais cara. O mundo consome carne bovina pelo sabor, pela qualidade. A escolha é pelo melhor, não pelo mais barato.
O desafio aqui é aprender cada dia mais, a vender a carne bovina com base nisso. Pensar em produzir, vender e lucrar com base na qualidade, na diferenciação, no sabor, na experiência de consumo. “É mais caro?”, podem perguntar. “Sim, mas é muito melhor!”, vamos responder.
E o mundo e o Brasil estão pedindo esse tipo de produto. Não é muito difícil encontrar cortes nobres de marca premium com preço na casa de R$50/kg aqui no Brasil. No varejo de alto luxo da cidade de São Paulo há cortes porcionados sendo vendidos por mais de R$150/kg, preço igual ao dos lugares mais caros de Nova Iorque. Ou seja, há mercado no Brasil para carnes especiais e super especiais, pagando o mesmo preço que nos melhores e mais famosos lugares do mundo.
A pirâmide social brasileira mudou muito. Mais e mais gente está tendo renda para consumir carne e carne de qualidade. Entre 2005 e 2010, a população nas classes DE diminuiu em 45 milhões de pessoas, enquanto que a classe C aumentou em 39 milhões e as classes AB em 16 milhões de pessoas. Além do aumento da população, muita gente subiu de faixa de renda, consumindo mais e melhor. Isso refletiu muito no aumento de demanda por mais carne e por carnes especiais.
No mundo, o fenômeno é similar. Em 2014, a China terá 200 milhões de pessoas nas classes AB, ou seja, um Brasil inteiro de gente rica, com renda para gastar com produtos de luxo. E a classe C contará com mais de 300 milhões de pessoas. Mesmo ainda tendo muita gente com pequeno poder de consumo, a China tem uma população muito grande e crescente de pessoas consumindo cada vez mais e melhor.
Há inúmeros exemplos de iniciativas brasileiras que estão surfando essa oportunidade de mercado e colhendo frutos. O mais interessante é que uma maior maturidade do mercado leva a mais ofertas de produtos especiais, com apelos bem distintos. Há consumidores diferentes, e cada segmento entende qualidade de forma diferente, pagando mais por tipos diferentes de produtos. Podemos citar uma linha Grill com muito sabor e maior teor de gordura, ou uma carne mais magra, tenra e de coloração mais clara e até uma carne orgânica do Pantanal, onde o apelo é a forma de produção e história do produto, sistema de produção e localização geográfica. Ou seja, há muitos espaços, diferentes, a serem explorados.
Reforço também a necessidade e grande oportunidade de tratar a pecuária como mais do que um negócio. Pecuária é tradição, cultura, história e emoção. Há um vínculo muito forte do pecuarista com a atividade que garante seu sustento e isso está permeado em toda nossa sociedade. Esses elementos culturais e emocionais podem ser pensados de forma a preservar nossos valores ao mesmo tempo em que promovemos um produto especial e diferenciado.
Nesse cenário, uma associação tem um potencial enorme. E também uma grande responsabilidade. Pode ser um grande catalisador desse avanço da pecuária moderna, produtiva, focada em produzir carne com sabor, maciez, história e experiência. Pode fazer isso festejando a pecuária que junta tradição e modernidade e que celebra não apenas os produtores da melhor genética, mas celebra e premia os produtores da melhor carne. Até porque a melhor genética só será melhor se realmente entregar, lá na ponta, no prato ou no espeto do consumidor, a melhor carne, a melhor experiência de consumo.
Aproveito essa oportunidade para relembrar que a melhor carne que já comi na vida, não foi no Uruguai, nos EUA ou na Argentina. Mas no interior do RS, um ótimo assado de tira, de gado especial, criado de forma especial e assado de forma especial. Continua inesquecível. Espero poder repetir a dose e quem sabe experimentar outros melhores. E fica o desafio para os produtores a fornecerem para fora do RS carnes como essa. Com certeza há muita gente querendo provar, e repetir. Preciso confessar que contar essa história da melhor carne que já comi tem me gerado bons convites para churrasco…
Repetindo a pergunta do título, vamos vender uma quantidade maior de carne, mas teremos uma fatia menor do mercado total de proteína animal. Dessa forma, o caminho para o lucro estará em vender melhor, em vender sabor, maciez, história da produção e experiência de consumo.
Esse artigo foi escrito a convite da associação de criadores de Hereford e Braford, para o anuário da entidade. Mas gostaria de expandir essa provocação e reflexão. A responsabilidade de fazer a pecuária do futuro acontecer, ao mesmo tempo que celebramos nosso passado, nossas tradições, é de todos nós que queremos uma pecuária forte.
