O futuro da pecuária de corte passa pela qualidade de carne. Frango e peixe vão ser mais baratos que carne bovina daqui em diante. Na verdade, a carne já é mais cara há muito tempo. Logo, o consumo acontece pela preferência das pessoas: sabor, textura, tradição e cultura. Podemos ganhar a briga do sabor, não a do menor custo.
A pecuária já evoluiu muito nos últimos anos. A combinação de gente que realmente gosta do que faz, vocação da nossa terra, clima e um grande rebanho nos colocaram no patamar atual de maior exportador de carne do mundo e segundo maior produtor. Daqui em diante, nossa importância no mercado mundial só vai crescer.
Vai ser preciso ir mais adiante, de forma mais integrada. Produtividade, sustentabilidade, lucratividade e qualidade estão todos interelacionados. Precisamos avançar mais, fazer com que a realidade das melhores fazendas se espalhe pelo Brasil.
Para mudar a pecuária, precisamos modernizar também a comercialização. Precisamos fazer com que a forma como o gado é comercializado seja um forte indicativo de onde queremos levar a pecuária. Como muito se diz, o órgão mais sensível é o bolso. Precisamos fazer com que a comercialização na pecuária seja um vetor de modernização. E temos muito onde podemos melhorar, pois na grande maioria dos casos, o formato é muito antigo, o mesmo há décadas.
O relacionamento produtor-frigorífico é um tema muito ligado a comercialização. Ainda se faz muita coisa igual fazíamos há 30-40 anos e o mundo mudou muito nesse tempo. Vai ser preciso trabalhar de outra forma. Precisamos estimular um debate mais inteligente e aprofundar a discussão, com foco em soluções e no alto nível das conversas.
O ponto chave para se melhorar a comercialização é diferenciar o melhor do pior. Dar mais valor ao que vale mais e menos ao que vale menos. Preços diferentes para produtos diferentes. Há várias formas de se dizer a mesma coisa, que já acontece em inúmeros setores. Com a carne não é diferente, há produtos melhores e piores, que valem mais e menos.
Há casos de frigoríficos que não pretendem pagar premiação para diferentes tipos de gado. Alguns estão acreditando que vão conseguir comprar gado bom pelo preço do ruim. Isso vai ser cada vez mais difícil, em especial quando a oferta não é grande e os melhores produtores estão procurando as melhores opções para vender seu gado de qualidade. Não vai dar certo.
Outros frigoríficos podem querer seguir um caminho diferente, definir um padrão uniforme para o tipo de animal (carne) que desejam comprar e se tornar um parceiro do produtor, fornecendo serviços, tecnologia e até financiamento. Aqui a proposta não é pagar diferente, mas tratar de forma diferente o produtor diferente, com serviços, apoio e consultoria. Essa é uma outra forma de encarar a situação e que pode trazer bons resultados.
Outro exemplo desse impasse na comercialização é o debate boi inteiro versus boi castrado. A indústria tenta impor um deságio no boi inteiro. No geral, o boi castrado produz carne de melhor qualidade, com mais acabamento, com menos DFD (carne escura e seca) e têm menos lesões na carcaça. O problema são dois: primeiro uma super-simplificação: boi inteiro é ruim, boi castrado é bom. Não é sempre assim, há vários outros fatores que devem ser levados em conta: idade, manejo, acabamento de carcaça. Ou seja, é possível ter um determinado boi inteiro melhor que um castrado.
Outro ponto é o próprio relacionamento frigorífico-produtor. Como a relação não é boa, toda tentativa de imposição, de criação de nova regra é vista de forma negativa, ainda mais quando a proposta é de desconto no valor de um determinado produto. Relacionamentos são como contas bancárias: para fazer um saque é preciso ter crédito. E o crédito de confiança dos frigoríficos com os produtores é quase sempre muito baixo.
Para melhorar a comercialização de gado para abate, vale lembrar do impacto e efeito da transparência. Há muitos bons exemplos do que a simples visualização dos resultados traz.
Carros com um sistema de computador de bordo que mede (e mostra) em tempo real o consumo de combustível por km faz que o motorista mude a forma de dirigir, gastando menos combustível. Simplesmente porque você vê que se acelerar de forma mais suave, irá gastar menos. Outro exemplo ainda mais simples é o placar mostrando a todo momento o resultado parcial de um jogo. Visualizar que você precisa recuperar tempo perdido é uma força a mais. Em nossos cursos online, por exemplo, criamos um ranking que mostra sempre quem são os 10 melhores alunos da turma. Isso aumentou a participação de todos que fazem o curso, não só dos 10 melhores.
A pecuária poderia adotar esses “truques” psicológicos, que funcionam muito bem em tudo que fazemos. Mesmo que não exista uma pagamento financeiro diferenciado, é muito interessante que exista um ranking de resultados dos melhores abates, dos melhores lotes, melhores fornecedores. Se a relação entre as partes for boa (ou razoável) mostrar quem vai bem é um estímulo importante.
O ser humano não é movido apenas a dinheiro. Comemorar e premiar os melhores resultados com reconhecimento, troféus e homenagens, quando acompanhado com um relacionamento mais aberto e transparente podem trazer excelentes resultados para a compra do frigorífico e para a qualidade da carne produzida.
Precisamos encontrar, reconhecer e comemorar os melhores exemplos de pecuaristas nos mais diversos fatores ligados a carne de qualidade. Apresentar o que temos de melhor é uma forma de provar que é possível fazer. Uma maneira de estimular quem já faz e quem quer fazer. E também mostrar aos céticos que temos bons exemplos que funcionam aqui no Brasil, na sua região, no seu vizinho. Isso tem um poder muito grande.
Para melhorar a pecuária, precisamos melhorar a comercialização de gado.
Acreditamos que esse é um dos temas mais relevantes para a pecuária atual. Por isso, estamos preparando um série de webseminários sobre tipificação de carcaça, qualidade de carne e comercialização de gado para abate. Um dos pontos que mais interessa é como fazer com que a tipificação de carcaça seja adotada de forma mais ampla no Brasil.
Nos ajude a organizar e realizar um evento único. Gostaríamos de saber:
• Quem é o melhor produtor de gado de qualidade a pasto?
• Quem é o melhor produtor de gado de qualidade confinado?
• Quem é o melhor produtor de boi inteiro de qualidade?
• Quais projetos de produtores, frigoríficos, associações, supermercados e marcas de carne deveriam ser incluídos nesse evento do BeefPoint?
Muito obrigado. Pecuária moderna, nós podemos e nós queremos!
