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Qual o melhor cruzamento?

Por Miguel da Rocha Cavalcanti1

Nas últimas semanas o BeefPoint tem se tornado um centro de discussão sobre utilização de raças em cruzamentos. Vários artigos na seção Espaço aberto, o comentário do Prof. Celso Boin da semana passada, além de inúmeras cartas de leitores comentando esses artigos e com opiniões diversas sobre o assunto, que levanta tanta discussão por ser polêmico e muitas vezes por incluir paixão por determinada raça.

Existe um grande esforço por parte dos criadores de todas as raças para difundir suas qualidades características. E como todos sabem, todas as raças tem qualidades e defeitos, que se exprimem de acordo com o ambiente. Muitas vezes essas raças foram utilizadas fora do sistema de produção mais adequado ao seu biótipo e seleção. Antes de se falar qual é melhor ou pior, é preciso saber em que condições e com qual objetivo. Existem trabalhos técnicos da década de 60 publicados nos EUA mostrando que animais diferentes podem ter desempenhos opostos em ambientes diferentes, isto é, o melhor pode se tornar o pior em situação adversa.

Parece que isso está relativamente bem esclarecido, principalmente por erros cometidos em diversas propriedades quando utilizaram animais de alta produtividade e alta exigência em ambientes de média/baixa disponibilidade nutricional. Por outro lado será muito improvável ter animais de menor exigência desempenhando melhor que animais de alto desempenho com todas suas exigências atendidas.

Acredito que esse tem sido o grande problema hoje ao se decidir pela utilização de determinada raça. Mas se acreditamos que o Brasil vai se tornar realmente importante no mercado internacional de carne bovina e além disso acreditamos ser possível produzir carne de qualidade para o mercado interno (será que agrada ver a picanha argentina ser vendida mais cara que a brasileira no supermercado, pelo fato de ser argentina?) é preciso pensar em outro ponto bastante importante: a carne a ser produzida deve ser adequada ao seu consumidor. E esse consumidor é diferente em cada local e em cada mercado.

Existe hoje no Brasil genética disponível das mais diversas raças. E os exemplares de cada raça são de alta qualidade, pois temos adquirido os melhores exemplares no exterior. O nosso Nelore não é inferior ao indiano, Limousin não perde em nada para o francês, o mesmo ocorrendo com Angus, Marchigiana, etc.

A saída é criar a demanda ou encontrar o mercado que deseja determinada carne. De nada adianta falar que determinada raça é isso ou aquilo, sem mercado diferenciado.

O Aberdeen Angus é uma raça de extremo sucesso hoje nos EUA porque conseguiu provar que carne de Angus tem mercado garantido. Hoje são abatidos mais de 1 milhão de animais por mês sendo 170 mil animais classificados dentro do padrão da marca Certified Angus Beef. E, além disso, a carne desses animais dá mais renda para supermercados, confinadores, produtores e criadores de gado registrado. É vendida nos melhores restaurantes americanos e exportada para mais de 50 países. A demanda de reprodutores Angus aumentou muito nos últimos anos devido à carne Angus e isso pode vir a acontecer no Brasil também.

Para isso é preciso ter um número grande de animais abatidos (quem sabe 1 milhão por ano?) dentro de rígidos padrões de controle que vão garantir carne uniforme, de acordo com as exigências do mercado consumidor. Que mercado? Pode ser a carne natural do Nelore criado em Rondônia para consumidores preocupados com o meio ambiente, pode ser a novilha Limousin confinada superprecoce, para quem busca maciez extra. Pode ser o Angus com marmoreio superior para o mercado japonês ou a carne de Marchigiana extra magra para o mercado italiano.

É preciso oferecer um programa completo, envolvendo manejo nutricional, sanitário, genética, treinamento de mão-de-obra, normas de qualidade e padrões de idade, peso, acabamento de gordura que sejam adequados ao mercado tido como meta.

Organizar a produção de um número grande de animais dentro do mesmo padrão e conseguir colocar esse produto no nicho de mercado que deseja e paga mais por ele é bem mais difícil do que apenas dizer que determinada raça é melhor ou pior. Mas com certeza será bem mais eficiente no médio e longo prazo. E, com certeza, iniciativas bem sucedidas nesse sentido trarão benefícios para os produtores e para a economia brasileira, exportando mais e criando mais empregos.

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1Miguel da Rocha Cavalcanti é engenheiro agrônomo pela ESALQ/USP, pecuarista e coordenador do BeefPoint.

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