O preço do bezerro é um dos principais indicadores da pecuária de corte. É uma das moedas da pecuária. Seu valor também embasa a percepção de muitos pecuaristas sobre o preço do boi gordo. É a famosa relação de troca, quando mais alta, melhor para o invernista. Uma grande produção de bezerros de qualidade é a base da atividade pecuária.
Produzir bons bezerros não é fácil, nem barato. A Itália tem interesse em comprar bezerros de Santa Catarina, para engorda na Europa. O motivo? É muito caro produzir lá e seria uma mão na roda para os italianos comprar aqui e terminar lá.
Na África do Sul, os preços do bezerro são muito mais altos que no Brasil. Em 2006, Rafael Cervieri, colunista e parceiro do BeefPoint, além de instrutor de diversos cursos online da AgriPoint, esteve por lá, conhecendo o sistema de produção sul-africano. A constatação: os custos de produção de lá são muito similares aos do nosso confinamento, com a diferença de que o bezerro valia R$ 900,00/cabeça naquela época. No Brasil, em 2006, o preço médio foi de R$ 357,00/cabeça (indicador Esalq/BM&F, MS).
Gráfico 1. Preços médios do bezerro de janeiro a junho, de 2002 a 2009

Desde 2008, os preços do bezerro se recuperaram fortemente, passando de preços médios abaixo de R$400,00/cabeça para valores acima de R$500-600/cabeça. O motivo dessa mudança é conhecido de todos: elevado abate de fêmeas e expansão da atividade de confinamento, que acelerou a pecuária.
Produzir um bom bezerro é caro, difícil e demorado. É de se esperar que esse produto valha. A dificuldade gera escassez, que aumenta o preço. Historicamente a cria é a atividade com menor rentabilidade da pecuária, perdendo quase sempre em lucratividade para recria e engorda. Além disso, é a atividade que tem ciclo mais longo. Se leva menos de um ano para se terminar um boi gordo usando pasto e confinamento, e se leva quase dois anos para se desmamar um bezerro.
Calcular custos pode diminuir a produção de bezerros
A pecuária se torna mais competitiva, mais eficiente, com melhor gestão. Aos poucos, mais pecuaristas conhecem (ou estimam) seus custos de produção. Esse conhecimento do custo de produção deve levar a uma mudança interessante na pecuária. Se antes poucos calculavam seus custos de produção, mesmo com uma atividade de baixa rentabilidade, não havia uma pressão significativa para mudança de atividade (ou seja, deixar de criar bezerros), desde que o resultado fosse positivo. E muitos pecuaristas, mesmo com um elevado patrimônio (terras e rebanho) vivem com um padrão de vida relativamente modesto, com baixo custo pessoal.
Com mais produtores calculando custos e simulando resultados diferentes em outra atividade (pensando: ganho menos na cria, do que se recriasse-engordasse), existe uma tendência para que a oferta de bezerros se mantenha enxuta. Seja porque mais pecuaristas fazem ciclo completo, ou pelo menos cria-recria. Seja porque menos produtores se animam a ser criadores, se especializando na recria e/ou engorda.
Gráfico 2. Relação de troca média, de janeiro a junho, de 2002 a 2009

O bezerro está caro ou barato?
Na mesma linha, em minhas andanças pelo Brasil, fazendo palestras, sempre pergunto a invernistas que reclamam do alto preço do bezerro o seguinte: “Se você fosse começar sua atividade hoje, montando uma fazenda, entraria na atividade de cria para vender bezerros aos preços de hoje, ou preferiria entrar na atividade recria-engorda, comprando bezerros aos preços atuais?”. A esmagadora maioria me responde, às vezes surpreso consigo mesmo, que prefere comprar nos preços atuais. Ou seja, o preço do bezerro não está tão alto assim.
Gráfico 3. Margem bruta na reposição média, de janeiro a junho, de 2002 a 2009

A principal avaliação que o invernista precisa fazer é qual é sua margem na reposição, quanto sobra ao vender seu boi gordo e comprar um bezerro. Esse valor é mais importante que a relação de troca “pura”. Estimo que no futuro, a relação de troca deve diminuir, sem grandes mudanças na margem bruta da reposição.
Tecnologias inteligentes
O uso de tecnologias na recria também pode ajudar na recuperação da margem do invernista, mesmo com preços mais altos do bezerro, o que na nossa avaliação é uma tendência que veio para ficar.
Na cria, a adoção de tecnologias que permitam produzir: mais bezerros, melhores bezerros (genética) e bezerros mais pesados de forma economicamente viável serão os grandes destaques daqui em diante. Um exemplo de técnica que vem se expandindo rapidamente nos últimos anos, é a IATF. Em menos de 10 anos, o número de vacas dentro desse sistema se multiplicou por 20.
Mais bezerros melhores e mais pesados por área e por vaca
O grande desafio da atividade de cria é produzir esses bezerros mais pesados e com melhor genética, e em maior número, com o mesmo número de vacas, em uma mesma área. Essa tarefa não é fácil, e será desempenhada por pecuaristas diferenciados, com capacidade de execução, controle de custos, gestão eficiente e uso inteligente de tecnologias. Isso tudo, alinhado a expansão dos confinamentos e outras técnicas de engorda otimizada, além da vontade de outros mercados comprarem gado em pé do Brasil, indicam um cenário positivo para o bom produtor de bezerros no Brasil.
Qual sua opinião sobre o mercado de bezerros no Brasil, e sua tendência futura de preços e relação com os preços do boi gordo? Participe, dê sua opinião abaixo.
