Por Miguel Cavalcanti, BeefPoint (www.beefpoint.com.br)
O movimento dos pecuaristas para se discutir a concentração do setor frigorífico, que incluiu manifestações, reuniões e eventos transmitidos pela TV está começando a surtir efeitos, positivos. Os primeiros movimentos de algumas entidades de pecuaristas chamaram a atenção para o assunto. Pode se criticar que pareciam estar “jogando para a torcida”, mas foi importante para um primeiro momento.
Agora vejo um amadurecimento das conversas e acredito que estamos começando um longa jornada, mas estamos no caminho certo.
O JBS recebeu no dia 4 de junho uma série de representantes de entidades ligadas a pecuária. O BeefPoint teve acesso ao documento apresentado na reunião e é animador ver a pauta do que foi discutido.
A conversa girou em torno de 6 pontos, visando criar uma agenda positiva na relação pecuarista e frigorífico. São elas:
1- como acabar com o problema rendimento e peso de carcaça?
2- como criar um sistema de tipificação de carcaças?
3- como acabar com os calotes dos frigoríficos?
4- vale a pena criar um fundo de marketing para a pecuária?
5- como abrir novos mercados para a carne brasileira?
6- vale a pena criar uma agência reguladora da cadeia da carne?
Eu acredito que todos os temas são relevantes, mas de importância diferente e nem todos precisam necessariamente passar por uma discussão pecuarista-frigorífico nesse primeiro momento. Os três primeiros pontos discutidos na reunião são os mais relevantes e urgentes, na minha opinião. Acredito que valha mais a pena focar nesses pontos inicialmente e não se perder em muitos temas.
A questão do rendimento e peso de carcaça é muito séria e antiga. Peso é básico e mostra como a confiança anda desgastada entre esses dois elos da cadeia. Além do peso de carcaça, é fundamental criar um padrão brasileiro de toalete, de limpeza de carcaça. Na viagem do BeefPoint a Austrália em maio desse ano, tomamos conhecimento de que lá existe um padrão nacional. Ou seja, qualquer pessoa tem uma base, uma baliza para comparar o que está sendo feito. Isso seria muito bom para o setor. Transparência, informação e padronização dão mais confiança e tranquilidade para todos.
Já conversei com o Prof. Pedro de Felício da Unicamp e Alexandre Raffi do Novilho Precoce MS publicamente pelo twitter sobre o tema. Ambos tem muito interesse em desenvolver esse trabalho. Além disso, tenho certeza que entidades como a Acrimat e o Prof. Roberto Roça da Unesp topariam entrar nesse projeto. Pela ata da reunião do JBS com pecuaristas em 04/junho, a empresa também estaria aberta a participar. Está na hora de darmos o primeiro passo e começarmos a fazer esse trabalho. O BeefPoint tem todo interesse de apoiar e divulgar maciçamente esse projeto, que vai ser um marco para a pecuária de corte nacional.
O segundo ponto, a criação de um sistema de tipificação de carcaças já foi amplamente discutido no BeefPoint. Realizamos inclusive um evento reunindo os 20 principais especialistas do Brasil para debater e trocar experiências. Há muita coisa boa já sendo feita, há muito interesse em fazer, em especial por pecuaristas de ponta. E agora, parece haver um interesse claro de um grande frigorífico em ajudar a tocar esse projeto.
A tipificação de carcaças vai nos ajudar simplesmente a aumentar a transparência. Será possível ver o que é bom e o que não é bom e separar de forma clara. Como disse Eduardo Pedroso do JBS em comentário no BeefPoint há poucos dias: “O maior motivador desta agenda é o fato de a demanda por qualidade, ser hoje, maior do que a oferta. Promover o diálogo na cadeia produtiva é a forma mais inteligente de construir e compartilhar resultados. A tipificação é apenas uma métrica para facilitar este diálogo (Pecuarista – Indústria – Consumidor)”.
Como há demanda por qualidade não atendida, há um estímulo real para a indústria promover a transparência, informar o padrão de gado quer comprar e até pagar mais por gado de maior qualidade. Tudo isso para poder atender um mercado que não consegue suprir hoje. E um mercado que paga mais, um mercado de maior lucratividade. Ou seja, mais uma vez, é o consumidor que está direcionando a produção pecuária brasileira. O que precisamos fazer é que essa “comunicação” entre consumidor e toda a cadeia seja mais rápida e eficiente. Hoje é muito longa e demorada, com isso perdemos tempo e oportunidades, enquanto outros setores, próximos como a carne de frango e mais distantes como o de celulares são mais rápidos em responder ao mercado, ao consumidor. E geram valor pela velocidade.
O terceiro ponto é o que causou mais trauma nos últimos anos aos pecuaristas. As diversas recuperações judiciais deixaram muita gente na mão. Desde 2009, mostro um slide “Só a Vista” nas minhas palestras. Isso tem causado um certo desconforto em muitas regiões e também tem evitado que algumas empresas contratem minha palestra. Mas eu preciso falar sobre um tema tão importante quando falo sobre mercado do boi e da carne. Meu argumento é simples: Qual empresa séria e organizada vende a prazo sem fazer análise de crédito? A resposta é óbvia: Nenhuma. Ou seja, se o pecuarista não tem capacidade de fazer uma excelente análise de crédito do frigorífico quando está vendendo um grande percentual de todo seu faturamento anual, a saída é vender apenas a vista ou vender a prazo com garantia real de recebimento.
Na reunião do dia 4 de junho, surgiu uma sugestão muito interessante, copiando um sistema americano que existe desde 1921. Todo frigorífico que compra mais de 500 mil dólares em gado por ano é obrigado, por lei, a contribuir para um fundo segurador do pecuarista. Esse dinheiro não pode ser incluído numa recuperação judicial e deve ser direcionado ao pagamento dos produtores. Ou seja, uma lei criou um seguro contra inadimplência. Como todos são obrigados a pagar, e o dinheiro é minimamente bem gerido, o valor cobrado por animal é baixo.
Os outros três pontos deveriam ser discutidos numa próxima etapa. Eu sou um grande entusiasta do marketing institucional da carne bovina, estudo isso há mais de 10 anos. Mas acredito que temos problemas, de marketing inclusive, antes de se criar um fundo como esse proposto. Na minha opinião, os dois grandes problemas atuais de marketing são: carne com gosto de fígado e abate clandestino.
O primeiro conseguiu gerar um receio muito grande junto aos consumidores de que a carne comprada terá sabor ruim, muito diferente do sabor esperado, do sabor de costume. Isso gera um descompasso enorme entre expectativa e realidade. A grande busca do marketing é criar expectativas e superá-las. Atualmente estamos entregando uma surpresa desagradável.
O segundo ponto fica claro quando você assiste o vídeo-denúncia do CQC sobre abate clandestino. Ao ver imagens tão negativas, será que a impressão geral sobre pecuária e sobre carne bovina não é afetada? Será que não vai gerar receio junto aos consumidores de que essa carne não é segura? Tenho certeza que sim, infelizmente. Me perguntaram o que achei do programa, minha resposta foi: “Ficou tão bem feito, que ficou ruim”. Temos um problema sério a resolver. O CQC não criou o problema, apenas trouxe a público o que muitas vezes queremos esquecer que existe. Ignorar um problema não o resolve, só aumenta.
Carne bovina é um alimento saudável, nobre e delicioso. Os dois problemas acima citados atacam diretamente todas essas premissas. O problema de marketing da pecuária atual é resolver esses dois pontos primeiro.
A questão da abertura de novos mercados passa, na minha opinião, por uma atuação mais intensa dos frigoríficos, MAPA e Itamarati nas negociações internacionais. Temos uma regra de rastreabilidade para UE diferente de outros países vizinhos. Em muitos casos, não temos uma imagem de alta credibilidade. Em problemas com a Rússia, a Austrália foi muito mais rápida e eficiente que o Brasil em resolver seus impasses. Acredito que não é a hora de envolver produtores nesse ponto, apesar de ser fundamental para aumentar a competitividade da carne brasileira.
O Brasil tem um cota Hilton muito menor do que a Argentina, mas não consegue nem atender esse minúscula cota. Pelo simples motivo de falta de coordenação entre produtores e frigoríficos.
Por último, a criação de uma agência reguladora, como acontece com a laranja e a cana seria muito interessante. Mas precisamos antes amadurecer e fortalecer mais nossas relações de confiança e também de governança do setor.
Acredito que seria mais prudente focar nos três primeiro pontos primeiros e trabalhar para que eles saiam do papel o quanto antes. Sou e continuo otimista em relação ao amadurecimento do setor, pecuaristas e frigoríficos, nessa relação de longo prazo. Os primeiros passos dessa longa jornada foram dados e estou vendo que os próximos vão ser muito positivos. A questão chave agora é transformar essas ideias e propostas em ações. O quanto antes tivermos resultados práticos, mesmo que pequenos, mais força esse movimento tomará. E essas ações são essenciais para modernizarmos nossa pecuária de corte.
Veja a apresentação da ata da reunião do JBS com diversas entidades de pecuaristas em 4 de junho de 2012.
