
Depois de se manter em silêncio desde quinta-feira passada, seguindo pedido de seus advogados, os irmão Roberto Russo e Miguel Russo Neto, acionistas do Independência e Tobias Bremer, diretor financeiro da empresa, fizeram ontem no final da tarde uma apresentação na sede da ABIEC em São Paulo, sobre a situação atual da empresa, histórico recente e perspectivas.
Os irmãos Russo explicaram que tentaram diversas outras opções, antes de avaliarem a concordata, que é a melhor forma para preservar companhia e seu caixa e que pode permitir sua rápida retomada. No entanto, é a medida que mais trará efeitos negativos para a reputação e credibilidade da empresa.
O diretor financeiro da empresa alegou cinco fatores interligados e interdependentes que causaram um cenário nunca visto pela empresa. Esses cinco fatores são uma combinação de problemas operacionais e financeiros. Desde o início do ano, todos esses pontos se agravaram, gerando resultados muito negativos para a empresa, que no momento atual, alega vender abaixo do custo de produção e ainda tem alto custo financeiro e elevada taxa de inadimplência.
Os cinco fatores apresentados são:
• inadimplência por um percentual significativo de seus clientes no exterior
• maior necessidade de capital de giro, visto que seus fornecedores (pecuaristas) buscavam pagamento a vista e seus clientes pediam ampliação do prazo
• aumento da diferença entre o preço do boi gordo (que caiu pouco) e da carne (que caiu muito)
• falta de demanda por carne bovina, seja no mercado externo, seja no interno, o que causou maior concorrência entre as empresas, com guerra de preços
• falta de liquidez
Todos esses fatores são comuns a todas as empresas do setor de frigoríficos no Brasil. O que complicou e acelerou o processo de redução do caixa da empresa e, por consequência, a decisão de pedido de concordata foi o fato de 85% da dívida ser dolarizada, o que alavancou o endividamento após a desvalorização do Real, além do BNDES ter suspendido o aporte para o frigorífico de R$ 200 milhões.
O frigorífico Independência tem hoje capacidade de abate de 10.800 cabeças por dia. Está presente em 7 estados brasileiros e no Paraguai com 12 plantas de abate e desossa, 3 curtumes, 3 fábricas de charque, 5 módulos de produção de biodiesel, com centros de distribuição em Cajamar, Itupeva e no porto de Santos. A empresa tem 11.300 funcionários.
No último trimestre com balanço público, faturou R$ 700 milhões (3T08). A empresa utilizou no 3T08 entre 75-80% de sua capacidade de abate. A empresa estava no fim do seu projeto de expansão e foram pegos pela crise, muito maior do que esperavam.
Roberto Gianetti, presidente da Abiec, fez um aparte na reunião, lembrando que a exportação tem imunidade tributária e que os créditos tributários estaduais e federais são dificilmente liberados pelos governos. Segundo Roberto Russo, só o Independência tem mais de R$ 250 milhões a receber, o que atrapalha em muito o fluxo de caixa da empresa.
Resumindo todos os fatores, a principal razão foi operacional: falta de capacidade de geração de caixa. Ou seja, por mais que a empresa trabalhasse, tinha prejuízo (boi estável, carne em queda, demanda em queda, custo financeiro e inadimplência aumentando). Apresentamos abaixo mais detalhes sobre histórico recente, situação atual e perspectivas da empresa, em tópicos.
A expansão da empresa:
• 85% dívida em dólar
• alavancagem, a relação dívida líquida/EBITDA subiu para 4,86x no terceiro trimestre de 2008
• investimento do BNDES de R$ 450 milhões, anunciado em novembro de 2008, em duas etapas, sendo que a segunda seria feita até março de 2009 (R$ 200 milhões) e não se realizou
• a meta da empresa era abrir capital
De setembro de 2008 em diante, o mundo mudou. O mercado da carne teve as seguintes alterações, segundo dados apresentados pela empresa ontem:
• boi caiu pouco de preço (-10%, de outubro/08 a janeiro/09)
• carne exportada caiu muito de preço (-30%)
• queda nos preços dos miúdos exportados (-17%) e do couro (-43%)
• vendas em dezembro abaixo do esperado
• demanda externa menor do que esperado
• com menor exportação, concorrência predatória entre frigoríficos no mercado interno
• menores preços da carne desossada no mercado interno, gerando melhor margem para supermercados, que não abaixaram os preços
• as aquisições da empresa fazem sentido, uma vez que segundo dados apresentados, os dois estados com melhor rentabilidade foram MT e RO, locais onde foram feitas as últimas aquisições
Uma observação é que desde 2008, a empresa vende volume considerável de carne em redes de supermercados no Brasil, que em geral, pagam os menores preços.
Efeitos da crise mundial na empresa:
• menos crédito disponível
• ACC mais caros e com menor prazo (de 5-7% para 15%, de 180 para 30-60 dias)
• importadores (clientes) também apresentavam dificuldade de crédito, pedindo mais prazo e atrasando pagamentos
• exposição ao risco cambial com derivativos (que causou grandes perdas para a Sadia) era pequena, cerca de 30% do volume mensal exportado
Problemas na operação da empresa:
• estocaram produção de outubro e novembro para ser vendida em dezembro, visando preços historicamente melhores nessa época (festas de final de ano), que não ocorreu
• apostaram na retomada das vendas em 2009, em especial demanda externa
• inadimplência dos importadores aumentou, não citaram número exato, alegando apenas que está nos 2 dígitos, ou seja, acima de 10%
Principais acontecimentos, das últimas semanas:
• BNDES não investiu R$ 200 milhões finais (sexta-feira antes do carnaval, 20/02)
• desistiram da recompra de títulos na segunda-feira de carnaval (23/02), visando preservar o caixa da empresa
• suspensão temporária dos abates na quinta-feira (26/02)
• pedido de recuperação judicial (concordata) na sexta-feira, 27/02
Próximos passos:
• retomar operação (abates), iniciando em RO e MT, onde o resultados são positivos
• inicialmente venderão carne com osso
• em até 60 dias, divulgação de plano de recuperação
• ainda não sabem quando e como vão pagar credores, incluindo pecuaristas
Perguntas não respondidas durante a reunião:
• qual o caixa atual da empresa (no final o terceiro trimestre de 2008 era de R$ 493 milhões)
• qual a dívida da empresa (segundo dados do pedido de concordata que foi dado entrada nos EUA, a dívida é de US$ 1,2 bilhão)
• qual o nível de inadimplência junto a clientes no exterior e valor total a receber
• quais os prazos para retomada dos pagamentos a credores, em especial pecuaristas (estima-se que uma dívida em torno de R$ 250 milhões com pecuaristas, ou R$ 10-15 milhões por dia de abate e trinta dias de prazo).
Questões chave para o futuro da empresa:
• BNDES vai investir outros R$ 200 milhões? Não investindo, o banco que trabalha sob influência do governo federal pode ajudar no corte de empregos, o que teria um preço político importante
• Qual o caixa atual da companhia? Se o caixa da empresa está preservado, será mais fácil a retomada das atividades com sucesso.
A empresa, no início e final da reunião, reafirmou seu comprometimento com a transparência em providenciar informações ao mercado, e promete atualizações à medida em que houver desenvolvimentos.
